{"id":124,"date":"2015-10-10T00:11:50","date_gmt":"2015-10-10T00:11:50","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iecomplex.com.br\/voce-nao-pode-seguir-o-caminho-antes-de-ter-se-tornado-o-proprio-caminho\/"},"modified":"2023-12-25T13:36:12","modified_gmt":"2023-12-25T13:36:12","slug":"voce-nao-pode-seguir-o-caminho-antes-de-ter-se-tornado-o-proprio-caminho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/iecomplex.com.br\/en\/voce-nao-pode-seguir-o-caminho-antes-de-ter-se-tornado-o-proprio-caminho\/","title":{"rendered":"Edgard de Assis Carvalho: Voc\u00ea n\u00e3o pode seguir o caminho antes de ter se tornado o pr\u00f3prio Caminho"},"content":{"rendered":"<p class=\"MsoPlainText\" style=\"text-align: center; line-height: 150%; tab-stops: 35.45pt;\" align=\"center\"><b style=\"mso-bidi-font-weight: normal;\"><i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">DEVANEIOS DE UM<\/i><\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoPlainText\" style=\"text-align: center; line-height: 150%; tab-stops: 35.45pt;\" align=\"center\"><b style=\"mso-bidi-font-weight: normal;\"><i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">CAMINHANTE COMPLEXO<\/i><\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoPlainText\" style=\"text-align: center; text-indent: 6.0cm; line-height: 150%; tab-stops: 35.45pt;\" align=\"center\"><b style=\"mso-bidi-font-weight: normal;\">EDGARD DE ASSIS CARVALHO<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoPlainText\" style=\"text-align: justify; text-indent: 6.0cm; line-height: 150%; tab-stops: 35.45pt;\">Professor Titular de Antropologia da PUCSP. Faculdade e PG\/Ci\u00eancias Sociais.\u00a0 Coordenador do COMPLEXUS, N\u00facleo de Estudos da Complexidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoPlainText\" style=\"text-align: justify; text-indent: 6.0cm; line-height: 150%; tab-stops: 35.45pt;\">(Vers\u00e3o modificada de confer\u00eancia realizada em\u00a0 Barcelona no simp\u00f3sio internacional \u201cPensar as complexidades do Sul\u201d, promovido pelo Institut Catal\u00e0 de la Mediterr\u00e0nea e a Association pour la pens\u00e9e complexe, presidido por Edgar Morin, em outubro de 2000)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoPlainText\" style=\"text-align: justify; line-height: 150%; tab-stops: 35.45pt;\"><b style=\"mso-bidi-font-weight: normal;\">Resumo<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoPlainText\" style=\"text-align: justify; line-height: 150%; tab-stops: 35.45pt;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00c9tica ou caos, eis o desafio que nos envolve. Para resgatarmos as potencialidades da vida e n\u00e3o sucumbir \u00e0 floresta de s\u00edmbolos criada pelos agentes da raz\u00e3o instrumental, \u00e9 preciso encarar uma pol\u00edtica de resist\u00eancia, complexa, que resgate a hominiza\u00e7\u00e3o e a humaniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoPlainText\" style=\"text-align: justify; line-height: 150%; tab-stops: 35.45pt;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A \u201c\u00e9tica da compreens\u00e3o planet\u00e1ria\u201d ocupa papel de destaque nessa nova <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">paideia<\/i>, e isso porque saberes \u00e9ticos n\u00e3o podem ser concebidos como meras proposi\u00e7\u00f5es abstratas, mas como atitude deliberada de todos aqueles que ainda acreditam ser poss\u00edvel que sociedades democr\u00e1ticas abertas se solidarizem, mesmo com a aspereza do caminho e o des\u00e2nimo dos caminhantes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoPlainText\" style=\"text-align: justify; line-height: 150%; tab-stops: 35.45pt;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Talvez os viajantes liter\u00e1rios, agentes ideais dessa antropol\u00edtica porque correm pela terra sem limites e rancores, possam\u00a0 vir a contaminar pol\u00edticos e intelectuais e, desse modo, produzir uma revolu\u00e7\u00e3o no pensamento sem precedente na hist\u00f3ria do planeta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoPlainText\" style=\"text-align: justify; line-height: 150%; tab-stops: 35.45pt;\"><b style=\"mso-bidi-font-weight: normal;\">Abstract<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoPlainText\" style=\"text-align: justify; line-height: 150%; tab-stops: 35.45pt;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ethics or chaos \u2013 that\u2019s the challenge surrounding us. To redeem the potentialities of life and not to submit to the forest of symbols created by the agents of instrumental reason, it\u2019s necessary to face a politics of resistance, which must be complex and able to redeem hominization and humanization.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoPlainText\" style=\"text-align: justify; line-height: 150%; tab-stops: 35.45pt;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 The \u201cethics of planetary understanding\u201d plays an important role in this new <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">paideia<\/i>, once ethical knowledge can not be conceived as mere abstract propostions, but rather as a deliberate attitude of all those who still believe that it\u2019s possible for democratic open societies to be solidary, even with the roughness of the way and the dismay of others.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoPlainText\" style=\"text-align: justify; line-height: 150%; tab-stops: 35.45pt;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Perhaps literary travelers, the ideal agents of this anthropolitics, because they run through earth free of limits and resentment, may contaminate politicians and intellectuals and thus produce a revolution in thinking unparalleled in the history of the planet.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoPlainText\" style=\"text-align: justify; line-height: 150%; tab-stops: 35.45pt;\"><i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">Sem d\u00favida, o mais valioso professor de f\u00edsica seria aquele que pudesse mostrar a nulidade de seus comp\u00eandios e esquemas frente \u00e0 Natureza e \u00e0s exig\u00eancias do esp\u00edrito. (Johann Wolfgang von Goethe)<\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoPlainText\" style=\"text-align: justify; line-height: 150%; tab-stops: 35.45pt;\"><i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">Bem-pensar \u00e9 a maior virtude, e sabedoria dizer coisas verdadeiras e agir de acordo com a natureza, escutando-a. (Her\u00e1clito)<\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoPlainText\" style=\"text-align: justify; line-height: 150%; tab-stops: 35.45pt;\"><i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">Ler, entretanto, \u00e9 uma atividade posterior \u00e0 de escrever: mais resignada, mais civil, mais intelectual. (Jorge Luis Borges)<\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoPlainText\" style=\"text-align: justify; line-height: 150%; tab-stops: 35.45pt;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Os diferencialismos contempor\u00e2neos t\u00eam-se constitu\u00eddo como um dos maiores desafios da modernidade. Dotados de uma for\u00e7a centr\u00edpeta sem precedentes, v\u00eam conseguindo disseminar \u00f3dios generalizados que se mimetizam numa viol\u00eancia quase incontrol\u00e1vel. Essa \u2018geopol\u00edtica do caos&#8217;, que descombina com a pretens\u00e3o do Terceiro Mil\u00eanio de ser pretensamente reconhecido como a \u2018sociedade do conhecimento\u2019, assemelha-se mais a uma guerra civil generalizada do que a um espa\u00e7o em que predominem a concilia\u00e7\u00e3o e a colabora\u00e7\u00e3o interculturais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoPlainText\" style=\"text-align: justify; line-height: 150%; tab-stops: 35.45pt;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ao que tudo indica, a luta pela exist\u00eancia, que parece comandar os processos evolutivos gerais, transferiu-se para a domina\u00e7\u00e3o de na\u00e7\u00f5es sobre na\u00e7\u00f5es, de homens sobre homens, com a justificativa de que a luta brutal garantiria a sobreviv\u00eancia de povos incumbidos de liderar os destinos da humanidade. Aos outros ou \u00e0s alteridades, se quisermos fazer uso de um conceito caro \u00e0 Antropologia, caberia o qualificativo de impotentes, degenerados ou decadentes, mat\u00e9ria perdida da adapta\u00e7\u00e3o, como se os processos civilizat\u00f3rios instalassem sempre o sucesso de poucos em deterimento da fal\u00eancia de muitos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoPlainText\" style=\"text-align: justify; line-height: 150%; tab-stops: 35.45pt;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Progresso e barb\u00e1rie consolidaram-se desde 1900 como componentes indissol\u00faveis de uma nova idade das trevas que despontava no cen\u00e1rio mundial regido por na\u00e7\u00f5es cada vez mais eficientes, aptas a reprimir qualquer sentimento contestat\u00f3rio. Ao analisar os sentimentos originais do j\u00e1 passado s\u00e9culo XX, Clive Ponting reiterou que &#8220;para as elites dos estados centrais, o crescimento da classe trabalhadora e dos movimentos socialistas era entendido como uma grande trai\u00e7\u00e3o. O imperialismo e as guerras&#8230; representavam tentativas de canalizar as energias das massas para \u00e1reas menos perigosas<a style=\"mso-footnote-id: ftn1;\" title=\"\" href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. Nesses anos inaugurais do terceiro mil\u00eancio continuamos a reproduzir essa \u2018hist\u00f3ria universal da inf\u00e2mia\u2019 cegos, como \u00c9dipo, deposit\u00e1rios de uma vergonha universal sem limites f\u00edsicos, ps\u00edquicos, geogr\u00e1ficos, nacionais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoPlainText\" style=\"text-align: justify; line-height: 150%; tab-stops: 35.45pt;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Jorge Luiz Borges captou, de modo superlativo, essa universalidade infamante em 1935. Em <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">Etc\u00e9tera<\/i>, um exerc\u00edcio de prosa narrativa como ele algumas vezes preferia denominar seu estilo,\u00a0 defrontamo-nos com um conjunto imagin\u00e1rio de atrocidades, imposturas, iniq\u00fcidades, incivilidades e vingan\u00e7as cometidas por humanos que se encontravam detidos num castelo inexpugn\u00e1vel, lacrado por vinte e quatro fechaduras. Esse castelo metaf\u00f3rico, repleto de est\u00e1tuas, expressa alguns dos contornos das sociedades atuais, envolvidas em crescentes desmandos, desafetos e contradi\u00e7\u00f5es. Nele nada pode ser violado, porque em seus aposentos e masmorras encontram-se depositados os segredos de uma sabedoria mais digna. Por isso, os reis, governantes e donos\u00a0 atuais do poder,\u00a0 sempre adicionam mais uma fechadura em seus reinados. \u201cSe alguma m\u00e3o abrir a porta deste castelo, os guerreiros de carne, que se parecem aos guerreiros de metal da entrada, tomar\u00e3o o reino\u201d<a style=\"mso-footnote-id: ftn2;\" title=\"\" href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoPlainText\" style=\"text-align: justify; line-height: 150%; tab-stops: 35.45pt;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00c9 como um castelo lacrado que percebo esse &#8216;planeta das desordens&#8217;, denomina\u00e7\u00e3o cunhada por Ignacio Ramonet, para definir alguns dos efeitos dos paradigmas da comunica\u00e7\u00e3o e do mercado convertidos em sustent\u00e1culos do edif\u00edcio sociopol\u00edtico contempor\u00e2neo. Assemelhado \u00e0 frieza das est\u00e1tuas borgeanas, esse novo paradigma consagrou o modelo do arquip\u00e9lago: para cinco bilh\u00f5es de humanos \u201capenas 500 milh\u00f5es vivem confortavelmente, enquanto quatro bilh\u00f5es e meio permanecem na necessidade\u201d<a style=\"mso-footnote-id: ftn3;\" title=\"\" href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoPlainText\" style=\"text-align: justify; line-height: 150%; tab-stops: 35.45pt;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Se todos esses perdedores n\u00e3o conseguem se articular para tomar de assalto o castelo, resta ao pensamento complexo estabelecer um horizonte poss\u00edvel de neo-utopias, realistas sempre,\u00a0 que venham a redesenhar novos cen\u00e1rios sociais para o mapa do mundo. A tarefa \u00e9 herc\u00falea e demanda redobrada energia cognitiva e biopol\u00edtica. Eric Hobsbawn, em entrevista acerca dos desatinos do <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">homo globatus<\/i>, reconheceu que, embora o s\u00e9culo XX tenha sido considerado como o s\u00e9culo americano, \u00e9 duvidoso supor que os EUA venham a perpetuar sua hegemonia fundada no controle da economia global. Hobsbawn considera um equ\u00edvoco a ambi\u00e7\u00e3o americana de exercer o papel de pol\u00edcia do mundo e de controlar uma nova ordem mundial, mesmo que o poder das corpora\u00e7\u00f5es da inform\u00e1tica e da biotecnologia seja a cada dia ampliado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoPlainText\" style=\"text-align: justify; line-height: 150%; tab-stops: 35.45pt;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Se \u00e9 for\u00e7oso reconhecer que a despolitiza\u00e7\u00e3o e a desideologiza\u00e7\u00e3o crescentes t\u00eam redundado no avan\u00e7o do conservadorismo de direita em todo o planeta, ainda \u00e9 prematuro admitir-se o fim da hist\u00f3ria ou o fim da pol\u00edtica, como pretendem algumas cassandras que proliferam nas ci\u00eancias humanas. \u201cCreio (reitera Hobsbawn) que a despolitiza\u00e7\u00e3o de grandes massas de cidad\u00e3os \u00e9 um grande perigo, porque pode produzir a mobiliza\u00e7\u00e3o de formas totalmente alheias ao modus operandi de qualquer tipo de pol\u00edtica democr\u00e1tica\u201d<a style=\"mso-footnote-id: ftn4;\" title=\"\" href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoPlainText\" style=\"text-align: justify; line-height: 150%; tab-stops: 35.45pt;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Repolitizar implica em religar, civilizar id\u00e9ias, refundar noologias insurgentes fundamentadas no desenvolvimento sustent\u00e1vel, desencadeadoras de formas de solidariedade e responsabilidade. Se conseguirem\u00a0 firmar-se no cen\u00e1rio planet\u00e1rio, certamente coibir\u00e3o as tend\u00eancias bestializadoras do pensamento \u00fanico, neoliberal, que instalou o fundamentalismo do mercado em todas as a\u00e7\u00f5es humanas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoPlainText\" style=\"text-align: justify; line-height: 150%; tab-stops: 35.45pt;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Pela avalia\u00e7\u00e3o de certos intelectuais demasiadamente identificados com puls\u00f5es de homogeneiza\u00e7\u00e3o, os efeitos mais vis\u00edveis da globaliza\u00e7\u00e3o sintetizam-se numa\u00a0 \u2018<i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">cultura da satisfa\u00e7\u00e3o<\/i>\u2019 v\u00e1lida,\u00a0 fact\u00edvel e homogeneizadora.\u00a0\u00a0 O que n\u00e3o conseguem enxergar s\u00e3o os pactos e compromissos escusos firmados pela ci\u00eancia e pela pol\u00edtica, que redundaram numa \u2018<i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">economia de apartheid<\/i>\u2019 repleta de exclus\u00f5es, particularismos, regress\u00f5es.\u00a0 Joaqu\u00edn Estefan\u00eda, em uma de suas cr\u00f4nicas publicadas no jornal espanhol <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">El Pa\u00eds,<\/i> ao refletir sobre a debilidade s\u00f3cio-econ\u00f4mica e intelectual contempor\u00e2neas, sustentou que \u201ca pol\u00edtica liberal produz desigualdades materiais ao mesmo tempo em que proclama a igualdade como direito imprescind\u00edvel do homem\u201d<a style=\"mso-footnote-id: ftn5;\" title=\"\" href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoPlainText\" style=\"text-align: justify; line-height: 150%; tab-stops: 35.45pt;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Enfrentar essa contradi\u00e7\u00e3o exige revolta e \u00e9tica redobradas, e \u00e9 no interior desse bin\u00f4mio que creio poder ser problematizada a identidade planet\u00e1ria futura destitu\u00edda de xenofobias, revanchismos,\u00a0 relativismos e falsos\u00a0 perspectivismos. Em ess\u00eancia polimorfa e polite\u00edsta, essa identidade seria capaz de restaurar o \u201chomem gen\u00e9rico\u201d, promover uma reforma das condi\u00e7\u00f5es subjetivas e objetivas da vida e instaurar a \u2018<i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">solidariedade dos estarrecidos<\/i>\u2019.\u00a0 Com isso, valores p\u00fablicos, direitos e liberdades\u00a0 passam a ser\u00a0 circundados por princ\u00edpios transculturais e transpol\u00edticos de hominiza\u00e7\u00e3o e humaniza\u00e7\u00e3o.\u00a0 Esse estarrecimento, tematizado de modo contundente por Jan Patocha, se edifica sempre na incerteza e \u201c\u00e9 justamente a\u00ed que reside sua frente silenciosa&#8230; mesmo onde a For\u00e7a dominante tenta domin\u00e1-la pelos meios de que disp\u00f5e. Esse tipo de solidariedade n\u00e3o teme a impopularidade, mas, ao contr\u00e1rio, lan\u00e7a-Ihe um desafio sem palavras\u201d<a style=\"mso-footnote-id: ftn6;\" title=\"\" href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoPlainText\" style=\"text-align: justify; line-height: 150%; tab-stops: 35.45pt;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 N\u00e3o temer a impopularidade foi a for\u00e7a cognitiva que animou muitos dos dissidentes deste planeta a refletirem sobre a condi\u00e7\u00e3o humana. Ex\u00edlicos porque localizados, voluntaria ou involuntariamente,\u00a0 nas margens dos sistemas de repress\u00e3o e culpa, tiveram coragem redobradada para tematizar as possibilidades da revolta, a reposi\u00e7\u00e3o da dignidade, a integridade da consci\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoPlainText\" style=\"text-align: justify; line-height: 150%; tab-stops: 35.45pt;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ismail Kadar\u00e9, em sua elegia f\u00fanebre sobre o Kosovo, captou superlativamente essa dimens\u00e3o tr\u00e1gica que o aprendizado do medo traz consigo. Desde o s\u00e9culo XIV, quando s\u00e9rvios, albaneses, b\u00f3snios e romenos foram massacrados pelos otomanos, a ferida nunca se cicatrizou e o trabalho de luto n\u00e3o se completou. Constatando essa temporalidade sem esperan\u00e7a, tudo parece conduzir a uma intransitividade s\u00f3cio-hist\u00f3rica sem precedentes: \u201cO tempo passou, cinco s\u00e9culos se escoaram desde aquele dia que me viu cair&#8230; Eu ainda estou aqui, sozinho em meu turb\u00e9, sob a pequena chama desse l\u00fagubre pavio. Assim como o estrondo do mar, o alarido que produzem \u00e9 cont\u00ednuo\u201d<a style=\"mso-footnote-id: ftn7;\" title=\"\" href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoPlainText\" style=\"text-align: justify; line-height: 150%; tab-stops: 35.45pt;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O Brasil passou por 15 anos de ditadura militar, entre 1964 e 1979. Cindiu a na\u00e7\u00e3o em dois c\u00f3rregos de repress\u00e3o e dor, puniu seus dissidentes com tortura e morte, realizando uma limpeza ideol\u00f3gica sem precedentes na hist\u00f3ria da Am\u00e9rica Latina.\u00a0 A limpeza \u00e9tnico-cultural, por\u00e9m,\u00a0 j\u00e1 havia sido feita h\u00e1 quinhentos anos, perpetrada sobre milh\u00f5es de \u00edndios, hoje reduzidos a alguns milhares de resistentes, que chegam at\u00e9 a expressar um instigante aumento demografico, a despeito da voracidade do \u2018<i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">ogro filantr\u00f3pico<\/i>\u2019, essa imagem fant\u00e1stica de Ot\u00e1vio Paz utilizada para definir o apequenamento e a mediocridade dos estados latinoamericanos. \u201cAs sociedades latinoamericanas s\u00e3o a pr\u00f3pria imagem da estranheza: nelas se justap\u00f5em a Contra-reforma e o liberalismo, a fazenda e a ind\u00fastria, o analfabeto e o literato cosmopolita, o cacique e o banqueiro\u201d<a style=\"mso-footnote-id: ftn8;\" title=\"\" href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoPlainText\" style=\"text-align: justify; line-height: 150%; tab-stops: 35.45pt;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Pensar a revolta exige desentranhar retornos, realizar anamneses e deslocamentos. Por isso, o sentido original da palavra envolve sempre interroga\u00e7\u00e3o, renova\u00e7\u00e3o, renascimento. Longe de apresentar um conte\u00fado meramente abstrato, acionar esses tr\u00eas exerc\u00edcios cognitivos e biopol\u00edticos requer urg\u00eancia urgent\u00edssima e isso porque a revolta nunca pode ser censurada nas democracias abertas<a style=\"mso-footnote-id: ftn9;\" title=\"\" href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>. \u2018Eu me revolto, logo n\u00f3s somos\u2019, palavras de\u00a0 Albert Camus,\u00a0 convertem-se em palavras de ordem. Saturadas de complexidade, talvez venham a substituir o <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">penso, logo existo<\/i>, cartesiano.\u00a0 Qeustionam a liberdade, percebendo-a como revolu\u00e7\u00e3o permanente que reconhece a multiplicidade e a estrangeiridade entranhadas em cada um de n\u00f3s.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoPlainText\" style=\"text-align: justify; line-height: 150%; tab-stops: 35.45pt;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ao distinguir os crimes da paix\u00e3o dos crimes da l\u00f3gica, Camus exibiu o absurdo do espet\u00e1culo da desraz\u00e3o no final da primeira metade do s\u00e9culo passado. Para enfrentar esse descalabro,\u00a0 o revoltado de hoje dever\u00e1 saber dizer n\u00e3o, sem rancores ou ressentimentos, mas sempre com determina\u00e7\u00e3o. \u00c9 bem verdade que houve revoltados por excel\u00eancia, como Dostoi\u00e9vski e Nietzsche, mas o \u2018conto filos\u00f3fico\u2019 <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">O Estrangeiro<\/i>, ou o caso Mersault como ficou conhecido, exibe, de modo exemplar, a dialogia entre revolta e morte. \u00c9 preciso encontrar a justa medida das palavras e das coisas para que a revolta possa eclodir e produzir reorganiza\u00e7\u00f5es civilizat\u00f3rias, e isso porque, para o pensamento revoltado, raz\u00e3o e desraz\u00e3o n\u00e3o se excluem. \u201cEssa lei da medida estende-se igualmente a todas as antinomias do pensamento revoltado. Nem o real \u00e9 inteiramente racional, nem o racional \u00e9 inteiramente real. O desejo de unidade n\u00e3o exige somente que tudo seja racional. Ele quer ainda que o irracional n\u00e3o seja sacrificado\u201d<a style=\"mso-footnote-id: ftn10;\" title=\"\" href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoPlainText\" style=\"text-align: justify; line-height: 150%; tab-stops: 35.45pt;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Longe de ser entendida como panac\u00e9ia para todos os males, a revolta traz consigo uma pedagogia da exist\u00eancia que liberta o pensamento e instaura a raz\u00e3o aberta, sem niilismos desesperados, mas com lucidez e esperan\u00e7as amadurecidas.\u00a0 Essa reconquista da liberdade come\u00e7a em cada um de n\u00f3s, em nossas experi\u00eancias mais \u00edntimas, por um ato de descentramento de tempo e local.\u00a0 Mais do que um mero desenraizamento cultural, que diz n\u00e3o a quaisquer absolutismos humanos ou divinos, essa experi\u00eancia representa um <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">d\u00e9paysement<\/i>, no sentido empregado por Tzvetan Todorov, um sentimento de deriva que, no lugar de cair nas tenta\u00e7\u00f5es reacion\u00e1rias da mera exalta\u00e7\u00e3o das diferen\u00e7as, busca uma universalidade capaz de recombin\u00e1-las de modo menos excludente e irredut\u00edvel<a style=\"mso-footnote-id: ftn11;\" title=\"\" href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a>. Esse meta ponto de vista acrescentar\u00e1 \u00e0s escrituras revoltadas de poetas, romancistas e uns poucos homens de ci\u00eancia, <b style=\"mso-bidi-font-weight: normal;\">partituras-revolta<\/b>, uma esp\u00e9cie de sexto sentido da sociedade, que prescrevem o re-torno exortado por Kristeva \u201c\u00e0s pequenas coisas: re-volta infinitesimal para preservar a vida do esp\u00edrito e da esp\u00e9cie\u201d<a style=\"mso-footnote-id: ftn12;\" title=\"\" href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoPlainText\" style=\"text-align: justify; line-height: 150%; tab-stops: 35.45pt;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Convertida em fetiche da modernidade, principalmente depois que a brecha aberta em 1968 n\u00e3o conseguiu produzir reorganiza\u00e7\u00f5es s\u00f3cio-culturais de grande magnitude, a revolta cidad\u00e3 dever\u00e1 necessariamente desembocar numa \u00e9tica civil planetarizada que articule pequenas e grandes diferen\u00e7as e instaure a \u2018<i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">Terra-P\u00e1tria<\/i>\u2019, tantas vezes exortada nos escritos de Edgar Morin<a style=\"mso-footnote-id: ftn13;\" title=\"\" href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a>. \u00c9tica ou caos, eis o desafio que nos envolve. Para resgatarmos as potencialidades da vida e n\u00e3o sucumbir \u00e0 floresta de s\u00edmbolos criada pelos agentes da raz\u00e3o instrumental, \u00e9 preciso formatar uma pol\u00edtica de resist\u00eancia, complexa, que reverta o furac\u00e3o da fragmenta\u00e7\u00e3o delirante. A reforma radical do pensamento cont\u00e9m um projeto biopol\u00edtico que nega o paradigma do progresso unidimensional e instaura o paradigma da preserva\u00e7\u00e3o, ecol\u00f3gico, ecoc\u00eantrico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoPlainText\" style=\"text-align: justify; line-height: 150%; tab-stops: 35.45pt;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 N\u00e3o creio que o \u00fanico caminho para se garantir esse universalismo pragm\u00e1tico seja o da argumenta\u00e7\u00e3o exercida em comit\u00eas de \u00e9tica, ou em foruns mais amplos, conduzidos por vanguardas outorgadas. Antes de mais nada, \u00e9 preciso deixar-se contaminar pelo \u2018princ\u00edpio da incerteza racional\u2019 e restabelecer novos princ\u00edpios para a educa\u00e7\u00e3o do futuro. A \u2018\u00e9tica da compreens\u00e3o planet\u00e1ria\u2019 ocupa papel de destaque nessa nova <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">paideia<\/i>, e isso porque saberes \u00e9ticos n\u00e3o podem ser concebidos como meras proposi\u00e7\u00f5es abstratas, mas como atitude deliberada de todos aqueles que acreditam ainda ser poss\u00edvel sociedades democr\u00e1ticas abertas se solidarizarem, mesmo com a aspereza do caminho e o des\u00e2nimo dos caminhantes<a style=\"mso-footnote-id: ftn14;\" title=\"\" href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">[14]<\/a>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoPlainText\" style=\"text-align: justify; line-height: 150%; tab-stops: 35.45pt;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Resta saber como passar do plano axiom\u00e1tico para os devires pr\u00e1ticos que comportam fluxos e linhas de fuga que nos imobilizam e desassossegam. Talvez os viajantes liter\u00e1rios, marcados pela aus\u00eancia de qualquer voca\u00e7\u00e3o prometeica, forne\u00e7am algumas preciosas indica\u00e7\u00f5es para o problema. Ao preferirem o nomadismo imagin\u00e1rio do poeta ao sedentarismo real dos cientistas correm pela terra sem limites e rancores.\u00a0 Mesmo considerada como descart\u00e1vel, a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as entre arte e pol\u00edtica precisa ser resgatada no sentido da <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">teckn\u00e9<\/i> grega, que n\u00e3o separava conhecimentos e sentimentos. Ambas \u201cs\u00e3o apenas contrapartidas uma da outra, as duas correntes fundamentais e eternas da mesma pol\u00edtica universal\u201d<a style=\"mso-footnote-id: ftn15;\" title=\"\" href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\">[15]<\/a>. Essas palavras s\u00e1bias de Almada Negreiros, escritas em 1935, exibem sintomas claros acerca da necessidade de alguma interven\u00e7\u00e3o diante da gravidade atual dos acontecimentos, seja ela realizada\u00a0 individualmente ou por um \u2018aluvi\u00e3o m\u00edstico do coletivo\u2019.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoPlainText\" style=\"text-align: justify; line-height: 150%; tab-stops: 35.45pt;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Dentre os muitos caminhantes que intervieram contra a imobilidade e a melancolia dela decorrente, destaco apenas um: Alejo Carpentier. Ao refletir sobre a Am\u00e9rica Latina, resgatou o poder imagin\u00e1rio dos escritores como agentes transformadores da hist\u00f3ria, ainda que destitu\u00eddos de qualquer for\u00e7a decis\u00f3ria. A era imagin\u00e1ria que desenham em seus textos desvincula-se da rela\u00e7\u00e3o linear entre causa e efeito,\u00a0 ao poetizarem a hist\u00f3ria real e se fixarem nos arqu\u00e9tipos da mem\u00f3ria coletiva da humanidade e do cosmo.\u00a0 Essas escrituras se assemelham a for\u00e7as c\u00f3smicas irrevers\u00edveis, cuja luminosidade jamais se extinguir\u00e1, podendo,\u00a0 a qualquer momento, produzir bifurca\u00e7\u00f5es e dissipla\u00e7\u00f5es,\u00a0\u00a0 reorganizar novas configura\u00e7\u00f5es nool\u00f3gicas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoPlainText\" style=\"text-align: justify; line-height: 150%; tab-stops: 35.45pt;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O S\u00e9culo das Luzes<a style=\"mso-footnote-id: ftn16;\" title=\"\" href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\">[16]<\/a> exibe os dilemas universais que envolvem a concilia\u00e7\u00e3o das velhas ordens com as neoutopias. O entrecho do romance transcorre em 1791. A velha ordem \u00e9 representada por um mercador que deixa sua fortuna a dois filhos e ao sobrinho Esteban. A nova ordem, revolucion\u00e1ria, \u00e9 representada pela chegada ao Caribe de Victor Hugues, franc\u00eas incumbido de abolir a escravid\u00e3o. Em sua bagagem, encontram-se a m\u00e1quina tipogr\u00e1fica e a guilhotina, s\u00edmbolos inequ\u00edvocos da modernidade. Esteban se afei\u00e7oa ao estrangeiro e se incumbe de mostrar-lhe as belezas tropiciais. Hugues conquista Guadalupe, liberta e alfabetiza os escravos, guilhotina os dissidentes, combate os piratas. A revolu\u00e7\u00e3o se degenera e a puls\u00e3o totalit\u00e1ria acaba se impondo. Desiludido, Esteban volta para Cuba e Hugues para a Guiana Francesa, descrente de quaisquer ide\u00e1rios revolucion\u00e1rios. Com a escravid\u00e3o restabelecida, Esteban e a prima fogem para Espanha, morrendo trespassados pelos ex\u00e9rcitos napole\u00f4nicos. Do destino de Hugues, que aparece no ap\u00eandice do livro, pouco se sabe, a n\u00e3o ser que ele acabou sendo submetido a um conselho de guerra, em Paris, acusado de entregar a paradis\u00edaca Guadalupe \u00e0 Holanda. Acaba absolvido por falta de provas, voltando \u00e0 pol\u00edtica e, pairam d\u00favidas, se morava mesmo na cidade-luz, quando da queda de Napole\u00e3o. Segundo renomados pesquisadores, morreu de c\u00e2ncer em 1822.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoPlainText\" style=\"text-align: justify; line-height: 150%; tab-stops: 35.45pt;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Pouco importa saber se Victor existiu ou n\u00e3o. Sua fun\u00e7\u00e3o poderia ser comparada a de um operador tot\u00eamico que, ao acionar novas id\u00e9ias, enreda-se em for\u00e7as e energias arquet\u00edpicas, projeta novas atitudes mentais, exorciza recalques inconscientes. Aqui reside o intento do her\u00f3i. Sua ingl\u00f3ria tentativa de introduzir as <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">luzes<\/i> na Am\u00e9rica Central, pode ser visto como um retumbante fracasso, de car\u00e1ter punitivo, mas tamb\u00e9m como sinal de uma grande e necess\u00e1ria ruptura, capaz de reafirmar a met\u00e1fora do \u2018jardim comum da humanidade\u2019 e postular a universalidade da complexidade em todos os dom\u00ednios da vida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoPlainText\" style=\"text-align: justify; line-height: 150%; tab-stops: 35.45pt;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Sejamos otimistas para o presente mil\u00eanio. Convoquemos a <b style=\"mso-bidi-font-weight: normal;\">primeira internacional dos cidad\u00e3os do planeta<\/b>, a ser comandada por um ex\u00e9rcito de jardineiros que consideraram GAlA uma for\u00e7a ps\u00edquica e espiritual capaz de repor a cena primordial da unidualidade planet\u00e1ria. Bruce Chatwin, obcecado pelo nomadismo e pelos mitos abor\u00edgenes da Austr\u00e1lia Central, rep\u00f4s essa neoutopia que os caminhantes trazem consigo afirmando que \u201ctodos os Grandes Mestres pregaram que o Homem, originalmente, era um \u201cerrante pelo deserto s\u00eaco e \u00e1rido deste mundo\u201d (palavras do Grande Inquisidor de Dostoi\u00e9vski) e que, para redescobrir sua humanidade era preciso despojar-se das amarras e tomar a estrada\u201d<a style=\"mso-footnote-id: ftn17;\" title=\"\" href=\"#_ftn17\" name=\"_ftnref17\">[17]<\/a>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoPlainText\" style=\"text-align: justify; line-height: 150%; tab-stops: 35.45pt;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ao refletir recentemente sobre os desafios de nosso tempo, Fritjof Capra<a style=\"mso-footnote-id: ftn18;\" title=\"\" href=\"#_ftn18\" name=\"_ftnref18\">[18]<\/a>\u00a0 precisou a urg\u00eancia de uma alfabetiza\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica interdependente, e isso porque em qualquer ecossistema nunca h\u00e1 desperd\u00edcios, pois o que sobra de uma esp\u00e9cie converte-se em alimento de outra. Essa alfabetiza\u00e7\u00e3o, fundada na religa\u00e7\u00e3o dos conhecimentos e na complexidade, propicia a cria\u00e7\u00e3o de um <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">ecodesign<\/i>, processo no qual nossas necessidades s\u00e3o interconectadas aos padr\u00f5es e fluxos da teia geral da vida. Para isso, tenhamos a coragem e a aud\u00e1cia de propor um contrato \u00e9tico para todos os seres vivos iluminado pela restaura\u00e7\u00e3o da responsabilidade, pela auto-\u00e9tica, pela magnanimiade,\u00a0 pela pr\u00e1tica da aten\u00e7\u00e3o e, mais do que nunca, pela imperman\u00eancia das experi\u00eancias, sejam elas pol\u00edticas, sociais, \u00e9ticas, amorosas ou tr\u00e1gicas. Restaura\u00e7\u00e3o como palavra de ordem, Religa\u00e7\u00e3o como fundamento \u00e9tico-pedag\u00f3gico, Esperan\u00e7a como utopia para a humanidade da humanidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr align=\"left\" size=\"1\" width=\"33%\" \/>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn1;\" title=\"\" href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Clive Ponting. The Pimlico History of the twentieth century. London, Pimlico, 1999, p. 32.<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\" style=\"text-align: justify;\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn2;\" title=\"\" href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Jorge Luiz Borges. Hist\u00f3ria Universal da Inf\u00e2mia. V\u00e1rios tradutores. Em Obras Completas, v. 1, 1923-1949. S\u00e3o Paulo, Globo, 1998, p. 371.<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\" style=\"text-align: justify;\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn3;\" title=\"\" href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Ignacio Ramonet. La plan\u00e8te des d\u00e9sordres. Mani\u00e8re de Voir 33, Le Monde Diplomatique, fev. \/ 1997, p. 7.<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn4;\" title=\"\" href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Eric Hobsbawn. El siglo XX visto por un maestro del pasado. El Pa\u00eds, Babelia, 11\/03\/2000, p. 5.<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn5;\" title=\"\" href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Joaqu\u00edn Estafan\u00eda. Contra el pensamiento \u00fanico. Madrid, Taurus, 1998, p. 44.<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn6;\" title=\"\" href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Jan Patocha. Essai her\u00e9tiques sur la philosophie de l\u2019histoire. Lagane, Verdier, 1981, p. 45.<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\" style=\"text-align: justify;\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn7;\" title=\"\" href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Ismail Kadar\u00e9. Tr\u00eas cantos f\u00fanebres para o Kosovo. Trad. Vera L. dos Reis. S\u00e3o Paulo, Objetiva, 1999, p. 113.<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\" style=\"text-align: justify;\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn8;\" title=\"\" href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Ot\u00e1vio Paz. O ogro filantr\u00f3pico. Hist\u00f3ria e Pol\u00edtica, 1971-1978. Trad. Sonia R\u00e9gis. Rio de Janeiro, Guanabara, 1987, p. 101.<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\" style=\"text-align: justify;\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn9;\" title=\"\" href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Julia Kristeva ponderou que sociedades globalizadas que censuram a revolta preparam sua pr\u00f3pria morte. Cf. Savoir incarner la revolte dans l\u2019individuel. Magazine Litt\u00e9raire, n\u00ba 366, maio \/ 1998.<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn10;\" title=\"\" href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> Albert Camus. O homem revoltado. Trad. Valerie Rumjanek. Rio de Janeiro, Record, 1996, p. 33.<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn11;\" title=\"\" href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> Tzvetan Todorov. L\u2019homme depays\u00e9. Paris, Calmann-L\u00e9vy, 1998.<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn12;\" title=\"\" href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> Julia Kristeva. L\u2019avenir d\u2019une r\u00e9volte. Paris, Calmann-L\u00e9vy, 1998, p. 18.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\" style=\"text-align: justify;\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn13;\" title=\"\" href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> Edgar Morin \/ Anne Brigitte Kern. Terre-Patrie. Paris, Seuil, 1993; Edgar Morin \/ Sami Na\u00efr. Une politique de civilisation. Paris, Arl\u00e9a, 1997.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn14;\" title=\"\" href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a> Edgar Morin. Les sept savoirs n\u00e9cessaires \u00e0 l\u2019\u00e9ducation du futur. Paris, UNESCO, 1999.<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\" style=\"text-align: justify;\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn15;\" title=\"\" href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">[15]<\/a> Almada Negreiros. Arte e Pol\u00edtica. Em Obra Completa, vol. \u00fanico, Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1997, p. 857.<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn16;\" title=\"\" href=\"#_ftnref16\" name=\"_ftn16\">[16]<\/a> Alejo Carpentier. Le si\u00e8cle des lumi\u00e8res. Paris, Gallimard, 1977.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn17;\" title=\"\" href=\"#_ftnref17\" name=\"_ftn17\">[17]<\/a> Bruce Chatwin. O rastro dos cantos. Trad. Bernardo Carvalho. S\u00e3o Paulo, Cia. das Letras, 1996, p. 225.<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn18;\" title=\"\" href=\"#_ftnref18\" name=\"_ftn18\">[18]<\/a> Fritjof Capra. The challenge of our time. Resurgence, 202, nov\/dec 2000, pp. 18\/20<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>DEVANEIOS DE UM &nbsp; CAMINHANTE COMPLEXO &nbsp; &nbsp; EDGARD DE ASSIS CARVALHO &nbsp; Professor Titular de Antropologia da PUCSP. Faculdade e PG\/Ci\u00eancias Sociais.\u00a0 Coordenador do COMPLEXUS, N\u00facleo de Estudos da Complexidade. &nbsp; (Vers\u00e3o modificada de confer\u00eancia realizada em\u00a0 Barcelona no simp\u00f3sio internacional \u201cPensar as complexidades do Sul\u201d, promovido pelo Institut Catal\u00e0 de la Mediterr\u00e0nea e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-124","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-textos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/iecomplex.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/124","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/iecomplex.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/iecomplex.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/iecomplex.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/iecomplex.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=124"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/iecomplex.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/124\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":792,"href":"https:\/\/iecomplex.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/124\/revisions\/792"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/iecomplex.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=124"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/iecomplex.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=124"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/iecomplex.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=124"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}