{"id":89,"date":"2015-10-09T23:56:08","date_gmt":"2015-10-09T23:56:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iecomplex.com.br\/sustentabilidade-da-vida\/"},"modified":"2023-12-25T13:36:12","modified_gmt":"2023-12-25T13:36:12","slug":"sustentabilidade-da-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/iecomplex.com.br\/en\/sustentabilidade-da-vida\/","title":{"rendered":"Tereza Estarque. &#8220;Sustentabilidade da Vida: reflex\u00f5es ap\u00f3s o 11 de setembro&#8221; ( palestra proferida no Complexus PUC\/SP -2002)"},"content":{"rendered":"<p><\/p>\n<p class=\"MsoTitle\">\u201cSUSTENTABILIDADE DA VIDA\u201d:<\/p>\n<p class=\"MsoTitle\">reflex\u00f5es ap\u00f3s o 11 de setembro<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref\">[1]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 1.0cm; line-height: 150%; tab-stops: list 18.0pt;\">Se a morte sempre foi um acontecimento espantoso para os seres humanos, as concep\u00e7\u00f5es atuais das ci\u00eancias f\u00edsicas e biol\u00f3gicas apresentam-nos a vida como um fen\u00f4meno ainda mais escandaloso, se o tomarmos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 entropia crescente da ordem f\u00edsica. A vida revela um car\u00e1ter paradoxal, \u201c<i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">uma esp\u00e9cie de invers\u00e3o do curso da entropia crescente, que, no entanto, obedece ao princ\u00edpio de degrada\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que todos os seres vivos s\u00e3o mortais<\/i>. \u201d<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref\">[2]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 1.0cm; line-height: 150%; tab-stops: list 18.0pt;\">\u00a0Erwin Schr\u00f6dinger, f\u00edsico, Pr\u00eamio Nobel em 1933, procura refletir sobre os eventos que ocorrem no espa\u00e7o-tempo interior a um organismo, segundo uma abordagem f\u00edsico-qu\u00edmica<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref\">[3]<\/a>. Seguindo este caminho, confronta-nos com uma realidade impactante, que nos revela um fato surpreendente: no n\u00edvel elementar da mat\u00e9ria, n\u00e3o existe distin\u00e7\u00e3o entre o vivo e o n\u00e3o vivo. Somos todos constitu\u00eddos de \u00e1tomos. Nenhuma diferen\u00e7a, portanto, no n\u00edvel at\u00f4mico, entre o mais belo p\u00e1ssaro, o c\u00e9rebro de um brilhante cientista e uma est\u00fapida bigorna.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"text-indent: 1.0cm; line-height: 150%;\">Esta realidade desconcertante vem reenviando diferentes pensadores e cientistas \u00e0 pergunta de Schr\u00f6dinger: afinal, o que \u00e9 a vida? 50 anos depois, a quest\u00e3o \u00e9 recolocada em colet\u00e2nea\u2026. E em 1998, \u00e9 a vez de Lynn Margulis e Dorian Sagan se voltarem para o <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">eterno enigma<\/i>, este misterioso fen\u00f4meno em torno do qual foram produzidas especula\u00e7\u00f5es de diversas naturezas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"text-indent: 1.0cm; line-height: 150%;\">No relato b\u00edblico da G\u00eanesis, o esp\u00edrito da vida \u00e9 expirado por Deus sobre a imagem de barro que havia constru\u00eddo \u00e0 sua semelhan\u00e7a. O que \u00e9 ent\u00e3o, este <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">sopro da vida<\/i> que \u00e9 capaz de animar uma imagem de barro e que, ao abandonar os corpos, leva consigo seu calor e expressividade, transforma-os em corpos inertes e gelados. Michel Angelo teria dito ao seu Mois\u00e9s esculpido em pedra, <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">Porque n\u00e3o falas<\/i>? Faltou-lhe, apesar de toda a qualidade art\u00edstica, a capacidade de lan\u00e7ar sobre ela o miraculoso <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">sopro.<\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"text-indent: 1.0cm; line-height: 150%;\">Em nossa cultura, <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">o sopro da vida<\/i> ficou ao encargo de uma transcend\u00eancia. Foi associado \u00e0 exist\u00eancia de uma alma ou esp\u00edrito que, pela vontade desta transcend\u00eancia, vem animar o corpo ainda embrion\u00e1rio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"text-indent: 1.0cm; line-height: 150%;\">A hip\u00f3tese da anima\u00e7\u00e3o, inje\u00e7\u00e3o da alma sobre o corpo, nunca esteve isenta de controv\u00e9rsias. A primeira comunidade crist\u00e3, debru\u00e7ou-se sobre a distin\u00e7\u00e3o entre anima\u00e7\u00e3o imediata, segundo a qual Deus infunde a alma logo na concep\u00e7\u00e3o e anima\u00e7\u00e3o retardada, tese segundo a qual a alma \u00e9 infundida somente ap\u00f3s um determinado tempo.Estas duas posi\u00e7\u00f5es distintas conviveram, em diferentes momentos hist\u00f3ricos e estiveram a servi\u00e7o de m\u00faltiplas controv\u00e9rsias morais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"text-indent: 1.0cm; line-height: 150%;\">A hip\u00f3tese da anima\u00e7\u00e3o imediata favoreceu os interesses can\u00f4nicos pastorais, permitindo maior coer\u00eancia na condena\u00e7\u00e3o do aborto e da contracep\u00e7\u00e3o veiculando a id\u00e9ia da sacralidade da vida e alcan\u00e7ando, nos dias de hoje, o cerne dos delicados debates\u00a0 envolvendo pesquisas com embri\u00f5es humanos. Por\u00e9m, segundo Mauricio Mori, no plano te\u00f3rico doutrinal, a Igreja Cat\u00f3lica nunca erradicou a id\u00e9ia da anima\u00e7\u00e3o retardada. Afirma ainda que, desde as <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">Decretais<\/i> de Greg\u00f3rio IX ( 1234 )e a <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">Sedes Apost\u00f3lica<\/i> ( 1591) de Greg\u00f3rio XIV, at\u00e9 mesmo ap\u00f3s a proclama\u00e7\u00e3o do dogma da <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">Imaculada Concep\u00e7\u00e3o<\/i>, em 1854, momento em que a Igreja teria aderido definitivamente \u00e0 anima\u00e7\u00e3o imediata, Pio IX teria mantido sua cren\u00e7a na tese da anima\u00e7\u00e3o retardada, que teve ainda em S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino ( 1225-1274 ), um forte defensor, advogando o advento da alma como um processo de complexidade crescente no interior da mat\u00e9ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"line-height: 18.0pt;\">Esta id\u00e9ia tomista aproxima-se da perspectiva das ci\u00eancias da complexidade. \u201c <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">a hist\u00f3ria do Universo n\u00e3o \u00e9 a hist\u00f3ria da degrada\u00e7\u00e3o de uma \u00f3rdem inicial poderosamente organizada. Ao contr\u00e1rio<\/i>, <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">\u00e9 a edifica\u00e7\u00e3o da pir\u00e2mida da complexidade no decorrer das eras<\/i>.\u201d<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref\">[4]<\/a> Sabe-se que a vida nem sempre existiu: <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">a mat\u00e9ria despertou de um caos primordial<\/i> <a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref\">[5]<\/a>,\u00a0 decorrente de uma extraordin\u00e1ria constitui\u00e7\u00e3o de felizes combina\u00e7\u00f5es dos \u00e1tomos de carbonos, que foram se organizando em n\u00edveis crescentes de complexidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"line-height: 18.0pt;\">O aspecto paradoxal da vida reside no fato de que ela extraia sua for\u00e7a da constante atividade de fazer e desfazer liga\u00e7\u00f5es: encontramo-nos defrontados, por um lado, com o que Reeves chama <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">puls\u00e3o de vida do universo<\/i>, entendida como <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">uma febre de organizac\u00e3o da mat\u00e9ria<\/i> ou <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">um princ\u00edpio de complexidade<\/i>. De outro lado, percebemos que este mesmo princ\u00edpio criador engendra, ao mesmo tempo, uma puls\u00e3o de morte. Como conciliar esta tend\u00eancia observ\u00e1vel e espont\u00e2nea \u00e0 dispers\u00e3o, \u00e0 desordem e ao esfriamento, com a sobreposi\u00e7\u00e3o crescente dos n\u00edveis de complexidade da mat\u00e9ria?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"line-height: 18.0pt;\">\u00a0Perspectivas mais recentes da cosmologia indicam que a mat\u00e9ria\u00a0 possui, desde os tempos mais remotos, todas as informa\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para iniciar e prosseguir essa ascens\u00e3o dos n\u00edveis de complexidade necess\u00e1rios para a aquisi\u00e7\u00e3o da vida. Contudo, a ci\u00eancia n\u00e3o sabe ainda responder porque a mat\u00e9ria primordial continha em si, todas estas informa\u00e7\u00f5es. As for\u00e7as que existem e atuam entre as part\u00edculas s\u00e3o potencialmente capazes de estabelecer liga\u00e7\u00f5es e s\u00e3o respons\u00e1veis, em parte, por estas informa\u00e7\u00f5es. Agem no sentido de produzir uma coes\u00e3o, unificando as part\u00edculas at\u00e9 eliminar qualquer diversidade. Contudo, o segredo da diversidade est\u00e1 na a\u00e7\u00e3o de uma for\u00e7a em um contexto de desequil\u00edbrio. A estas perturba\u00e7\u00f5es de um equil\u00edbrio gerado por for\u00e7as de coes\u00e3o, d\u00e1-se o nome de puls\u00e3o de morte, conceito de extrema relev\u00e3ncia tamb\u00e9m na teoria psicanal\u00edtica. Em Al\u00e9m do Princ\u00edpio de Prazer <b style=\"mso-bidi-font-weight: normal;\">(1924?),<\/b> Freud introduziu a grande oposi\u00e7\u00e3o pulsional que sustentaria at\u00e9 o final de sua obra: Eros, for\u00e7a do amor e da liga\u00e7\u00e3o e Th\u00e1natos, for\u00e7a de destrui\u00e7\u00e3o, que pode conduzir \u00e0 morte f\u00edsica ou \u00a0ps\u00edquica, pela mesmice derivada da compuls\u00e3o \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o. Ao mesmo tempo, a puls\u00e3o de morte representa uma for\u00e7a de transforma\u00e7\u00e3o, por sua capacidade de agir de forma violenta sobre as unidades est\u00e1veis e resistentes \u00e0 mudan\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"line-height: 18.0pt;\">Este imbricamento entre vida e morte, ordem e desordem, equil\u00edbrio e turbul\u00eancia, reencontram-se na f\u00edsica, na biologia, na psican\u00e1lise, nas artes, na filosofia ou em qualquer forma de abordagem do real. A sustentabilidade da vida se constr\u00f3i no interior deste combate travado entre for\u00e7as de coes\u00e3o-puls\u00e3o de vida e for\u00e7as disrruptivas-puls\u00e3o de morte. Estas for\u00e7as encontram-se indissoluvelmente ligadas num delicado equil\u00edbrio inst\u00e1vel, n\u00e3o sendo poss\u00edvel privilegiar uma sobre a outra. A conhecida f\u00f3rmula de Her\u00e1clito, muito cara aos pensadores da complexidade reafirma:<i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\"> viver de morte e morrer de vida.<\/i> Ou como nos anuncia Freud: <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">Se queres suportar a vida, prepara-te para a morte.<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref\">[6]<\/a><\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"line-height: 18.0pt;\">Freud<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref\">[7]<\/a> advoga a assun\u00e7\u00e3o de uma vida em permanente risco de morte, afirmando que h\u00e1 um empobrecimento da vida quando ela pr\u00f3pria n\u00e3o pode ser arriscada. <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">Assim, a tend\u00eancia a excluir a morte de nossos projetos de vida traz em seu rastro muitas outras ren\u00fancias e exclus\u00f5es<\/i>. E conclui poetizando <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">navegar \u00e9 preciso, viver n\u00e3o \u00e9 preciso<\/i>. A sustentabilidade da vida n\u00e3o requer, como poder\u00edamos erroneamente supor, uma ades\u00e3o irrestrita \u00e0s formas de garantia e seguran\u00e7a. Por tratar-se, em sua m\u00e1xima sa\u00fade, de um equil\u00edbrio inst\u00e1vel, a sa\u00fade da vida pressup\u00f5e uma relativiza\u00e7\u00e3o tanto do risco como forma de viver o presente, quanto dos dispositivos de seguran\u00e7a utilizados para prevenir o medo em rela\u00e7\u00e3o ao porvir.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"line-height: 18.0pt;\">A vida se sustenta por uma rede de rela\u00e7\u00f5es inteligentemente articuladas, de maneira que a perda de um fio pode desmantelar todo um segmento do tecido. Isto fica claro atualmente, no interior de um pensamento ecol\u00f3gico que coloca em destaque a interdepend\u00eancia das partes constituintes de um ecossistema, suas intrincadas rela\u00e7\u00f5es com os fatores\u00a0 clim\u00e1ticos, suas bem montadas cadeias alimentares( <b style=\"mso-bidi-font-weight: normal;\">entrar conte\u00fado do pensamento ecol\u00f3gico)<\/b>etc&#8230; Nem por isto, esta rede \u00e9 est\u00e1tica. Aqui reside um dos instigantes mist\u00e9rios das organiza\u00e7\u00f5es complexas, sua capacidade de manter uma totalidade pass\u00edvel de ser reconhecida por nossos sentidos, aliada a uma permanente transmuta\u00e7\u00e3o microsc\u00f3pica de suas partes.<i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\"><\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"line-height: 18.0pt;\">A quest\u00e3o da sustentabilidade da vida poderia ser abordada sob diferentes \u00e2ngulos e recortes que abrangem, desde seu prolongamento nas UTIs com a medicaliza\u00e7\u00e3o da morte e as quest\u00f5es \u00e9ticas nela implicadas, at\u00e9 a luta por sua sobreviv\u00eancia no planeta. <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\"><\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"line-height: 18.0pt;\">Assistimos cotidianamente, um sem n\u00famero de agress\u00f5es \u00e0 dignidade da vida, de tal forma que torna-se imposs\u00edvel tratar este tema sem dirigir nossa aten\u00e7\u00e3o para um importante polo da quest\u00e3o: a <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">viol\u00eancia intestina<\/i>,<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref\">[8]<\/a> <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">o mal radical <a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref\">[9]<\/a>, <\/i>\u00a0uma tend\u00eancia primordial para a agressividade<i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">\u201cuma caracter\u00edstica indestrut\u00edvel da natureza humana&#8230; a agressividade<\/i>.<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref\">[10]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"line-height: 18.0pt;\">Qual o destino desta tend\u00eancia primordial para a agressividade do ser humano, que segundo Freud, representa um dos mais importantes obst\u00e1culos \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o? N\u00e3o entraremos nos detalhes das considera\u00e7\u00f5es psicanal\u00edticas. Diremos apenas que, impedida de se manifestar externamente, esta tend\u00eancia se dirige para o interior, constituindo a inst\u00e2ncia ps\u00edquica do super-ego, que passar\u00e1 a tratar o ego como gostaria de tratar este inimigo exterior tornando-se tanto mais cruel quanto maiores forem as concess\u00f5es e as ren\u00fancias pulsionais obtidas.\u00a0 Estabelece-se ent\u00e3o uma alian\u00e7a er\u00f3tica entre este ego masoquista que n\u00e3o cessa de ceder e o super-ego s\u00e1dico, que n\u00e3o se cansa de cobrar. No interior desta din\u00e2mica, a insist\u00eancia pulsional resiste diante das exig\u00eancias de ren\u00fancia e, se por um lado concede, por outro n\u00e3o desiste de buscar satisfa\u00e7\u00e3o, o que se torna poss\u00edvel atrav\u00e9s da transforma\u00e7\u00e3o de seus destinos. Estas vias substitutivas de satisfa\u00e7\u00e3o v\u00e3o constituir diferentes modalidades de gozo para as duas inst\u00e2ncias ps\u00edquicas e \u00e9 justamente o gozo do superego tir\u00e2nico que ir\u00e1, em \u00faltima an\u00e1lise, sustentar a civiliza\u00e7\u00e3o, pois n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil aos homens, \u201c<i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">abandonar a satisfa\u00e7\u00e3o dessa inclina\u00e7\u00e3o para a agress\u00e3o. <\/i>\u201d<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref\">[11]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"line-height: 18.0pt;\">A partir de <b style=\"mso-bidi-font-weight: normal;\">1920<\/b> <b style=\"mso-bidi-font-weight: normal;\">?<\/b> Freud postula a puls\u00e3o de morte como princ\u00edpio aut\u00f4nomo, o que ir\u00e1 permitir uma nova orienta\u00e7\u00e3o \u00e9tica em psican\u00e1lise. Ela deixa de ser um desvio da puls\u00e3o sexual que se expressaria atrav\u00e9s do sadismo, como uma forma de degrada\u00e7\u00e3o do que originariamente era bom.Numa an\u00e1lise fenom\u00eanica, ou melhor, uma an\u00e1lise cl\u00ednica das forma\u00e7\u00f5es sociais, constata que o ser humano \u00e9 regido antes por uma moralidade do que por uma \u00e9tica. Freud \u00e9 cuidadoso ao dizer que, a princ\u00edpio, os impulsos n\u00e3o s\u00e3o nem bons nem maus, mas apenas impulsos que buscam satisfa\u00e7\u00e3o de necessidades<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref\">[12]<\/a>. Este julgamento \u00e9 feito <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">a posteriori<\/i>, <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">por uma a\u00e7\u00e3o estranha, que decide o que deve ser chamado de bom ou mau.<\/i><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref\">[13]<\/a> \u00c9 o desamparo, no final das contas, que vai condicionar o submetimento ao outro, pela amea\u00e7a de perda amorosa.\u201c<i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">De in\u00edcio, portanto, mau \u00e9 tudo aquilo que, com a perda do amor, nos faz sentir amea\u00e7ados .<\/i>\u201d<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref\">[14]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"line-height: 18.0pt;\">Em 1932, Einstein e Freud trocaram correspond\u00eancia indagando-se sobre o Porque da Guerra. Freud ent\u00e3o retoma sua teoria das puls\u00f5es e reafirma que \u201c<i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">Muito raramente uma a\u00e7\u00e3o \u00e9 obra de um impulso instintual \u00fanico (que deve estar composto de Eros e destrutividade)\u201d<\/i> e acrescenta:\u201c<i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">Entretanto, n\u00e3o devemos ser demasiado apressados em introduzir ju\u00edzos \u00e9ticos de bem e mal. Nenhum desses dois instintos \u00e9 menos essencial do que o outro; os fen\u00f4menos da vida surgem da a\u00e7\u00e3o confluente ou mutuamente contr\u00e1ria de ambos<\/i>\u201d<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref\">[15]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"line-height: 18.0pt;\">Considera ele que n\u00e3o h\u00e1 maneira poss\u00edvel de eliminar totalmente os impulsos agressivos do homem \u201c <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">Na realidade, n\u00e3o existe esta erradica\u00e7\u00e3o do mal<\/i>\u201d<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref\">[16]<\/a> e nem considera que isto seria desej\u00e1vel. Pode-se, contudo \u201c <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">tentar desvi\u00e1-los num grau tal que n\u00e3o necessitem encontrar express\u00e3o na guerra<\/i>.\u201d<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn17\" name=\"_ftnref\">[17]<\/a> Freud desenvolve a id\u00e9ia de uma <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">suscetibilidade \u00e0 cultura <\/i>, uma esp\u00e9cie de heranca filogen\u00e9tica para domesticar os instintos. \u201c <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">Os que nascem hoje trazem consigo, como organiza\u00e7\u00e0o herdada, certo grau de tend\u00eancia(disposi\u00e7\u00e3o) para a transforma\u00e7\u00e3o dos instintos ego\u00edstas em sociais&#8230;<\/i>\u201d<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn18\" name=\"_ftnref\">[18]<\/a> Freud revela aqui, uma perspectiva evolucionista semelhante \u00e0 kant, em seu texto sobre uma vis\u00e3o de mundo cosmopolita \u201c cada gera\u00e7\u00e3o prepara o caminho para outra&#8230;)<b style=\"mso-bidi-font-weight: normal;\"><\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 54.0pt; line-height: 150%;\">Em Considera\u00e7\u00f5es para tempos de Guerra e Morte, \u00e9 abordada a quest\u00e3o da hipocrisia na civiliza\u00e7\u00e3o, que nos for\u00e7a a viver al\u00e9m de nossas possibilidades no que se refere ao sacrif\u00edcio pulsional. Assim, ao comportar-se de acordo com os preceitos da civiliza\u00e7\u00e3o, o indiv\u00edduo poderia ser descrito como um hip\u00f3crita, tenha ele consci\u00eancia disto ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"line-height: 18.0pt;\">\u201c <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">\u00c9<\/i><i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\"> ineg\u00e1vel que nossa civiliza\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea favorece, num grau extraordin\u00e1rio, a produ\u00e7\u00e3o desta forma de hipocrisia. Poder-se-ia dizer que ela est\u00e1 alicer\u00e7ada nesta hipocrisia, e que teria de se submeter a modifica\u00e7\u00f5es de grande alcance, caso as pessoas se comprometessem a viver em conformidade com a verdade psicol\u00f3gica. Assim, existem muito mais hip\u00f3critas culturais do que homens verdadeiramente civilizados\u00a0 <\/i>\u201d<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn19\" name=\"_ftnref\">[19]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"line-height: 18.0pt;\"><b style=\"mso-bidi-font-weight: normal;\">\u00c9 inquietante<\/b> esta quest\u00e3o do sacrif\u00edcio e suas consequ\u00eancias para a vida social. Na perspectiva de Girard, a rela\u00e7\u00e3o entre sacrif\u00edcio e viol\u00eancia \u00e9 sempre dissimulada. Sua hip\u00f3tese suprime a diferen\u00e7a moral entre presen\u00e7a ou aus\u00eancia de culpa; n\u00e3o h\u00e1 nada a ser expiado. Se os povos primitivos parecem se afastar da id\u00e9ia de culpabiliza\u00e7\u00e3o, eles o fazem com a inten\u00e7\u00e3o de evitar a vingan\u00e7a.\u201c<i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">A sociedade procura desviar para uma v\u00edtima relativamente indiferente, uma v\u00edtima sacrific\u00e1vel, uma viol\u00eancia que talvez golpeasse seus pr\u00f3prios membros<\/i>.\u201d<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn20\" name=\"_ftnref\">[20]<\/a> Como Freud, Girard acha imposs\u00edvel erradicar a viol\u00eancia e compreende o sacrif\u00edcio como uma forma de ludibri\u00e1-la, oferecendo-lhe algo para devorar. O sacrif\u00edcio existe como necessidade social para apaziguar a viol\u00eancia intestina e impedir a explos\u00e3o dos conflitos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"line-height: 18.0pt;\">\u00a0Nesta obra, o autor\u00a0 se at\u00e9m sobre interessantes pontos que podemos utilizar para refletir sobre a contemporaneidade, como o que refere \u00e0 cuidadosa escolha da v\u00edtima expiat\u00f3ria. A posi\u00e7\u00e3o da v\u00edtima deve ser de solid\u00e3o absoluta. Os crit\u00e9rios que presidem \u00e0 sua escolha devem assegurar-se de que <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">ningu\u00e9m desposar\u00e1 sua causa<\/i>, evitando-se assim que se reatualize o ciclo da vingan\u00e7a intermin\u00e1vel.\u201c Muito raramente, um crime punido pela vingan\u00e7a \u00e9 visto como o primeiro: ele \u00e9 considerado como a vingan\u00e7a de um crime mais original\u201d<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn21\" name=\"_ftnref\">[21]<\/a>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"line-height: 18.0pt;\">A an\u00e1lise de Girard \u00e9 voltada para as sociedades <b style=\"mso-bidi-font-weight: normal;\">arcaicas, <\/b>mas o autor n\u00e3o deixa de se interrogar sobre os destinos do sacrif\u00edcio na sociedade moderna, chamando a aten\u00e7\u00e3o para o fato de que a organiza\u00e7\u00e3o social do sistema judici\u00e1rio diminui a necessidade do sacrif\u00edcio, por ser talvez at\u00e9 agora, a institui\u00e7\u00e3o mais eficaz para por fim \u00e0 vingan\u00e7a infinita. Os meios religiosos de combate \u00e0 viol\u00eancia s\u00e3o considerados como formas de preven\u00e7\u00e3o enquanto o sistema judici\u00e1rio \u00e9 encarado como processo curativo deslocando a viol\u00eancia e trasmutando suas formas. Apesar de seus requintes, ainda exige, como a opera\u00e7\u00e3o sacrificial, um certo desconhecimento do papel da viol\u00eancia. Ao contr\u00e1rio, por\u00e9m, do que sucede na estrat\u00e9gia do sacrif\u00edcio, ancora-se na id\u00e9ia de culpabilidade e conforma-se estritamente ao princ\u00edpio de vingan\u00e7a, limitando seus alcances e utilizando-a como uma ferramenta controlada, uma t\u00e9cnica de cura que atua secundariamente como preven\u00e7\u00e3o, legitimando e suatentando o conceito de justi\u00e7a. Atua como forma de viol\u00eancia purificadora, punindo o culpado e colocando uma palavra final ao ciclo de vingan\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"line-height: 18.0pt;\">Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 viol\u00eancia dos atentados do dia 11, o argumento utilizado \u00e9 de \u00f3rdem pol\u00edtico-religioso. Girard j\u00e1 havia dito da impossibilidade de separarmos a viol\u00eancia e o sagrado. Em entrevista \u00e0 GloboNews, no dia 01\/10 Nigri<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn22\" name=\"_ftnref\">[22]<\/a>, refere-se aos atentados como um novo terrorismo dif\u00edcil de ser combatido, especialmente vindo atrav\u00e9s de uma religi\u00e3o que ataca atrav\u00e9s do mart\u00edrio, do risco de vida, a pr\u00f3pria id\u00e9ia de soberania. E acrescenta: a soberania moderna se alicer\u00e7a sobre a id\u00e9ia de que se pode decidir sobre a vida das pessoas. Aqui as pessoas decidem elas pr\u00f3prias morrerem. Ultrapassam assim, o limite mais extremos da soberania, que \u00e9 seu poder de matar. E conclui: quando as pessoas n\u00e3o se importam de morrer, n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel comand\u00e1-las.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"line-height: 18.0pt;\">Este \u00faltimo argumento de Nigri, que sugere uma aproxima\u00e7\u00e3o entre abra\u00e7ar a morte e afirmar sua liberdade, \u00e9 o mesmo utilizado por Lacan, ao postular sua \u00c9tica da psican\u00e1lise sustentada na figura se Ant\u00edgona, filha de \u00c9dipo, que, contrariando as leis da cidade, decide enterrar o irm\u00e3o, num gesto que lhe custar\u00e1 a vida. Lacan encara este gesto como uma assun\u00e7\u00e3o tr\u00e1gica da liberdade. Juntamente com Patrick Guyomard<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn23\" name=\"_ftnref\">[23]<\/a>, questionamos esta liberdade de Ant\u00edgona, uma vez que a maldi\u00e7\u00e3o de \u00c9dipo estendia-se a todos os membros da linhagem, seu destino de morte estava tra\u00e7ado desde sempre.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"line-height: 18.0pt;\">Podemos supor que os homens bombas s\u00e3o livres para escolher morrer? Ou podemos v\u00ea-los dentro de um sistema de escolha de v\u00edtimas sacrificiais? De que lado identificar a v\u00edtima? Sabemos que durante o regime nazista, muitas pessoas que participaram do esquema de exterm\u00ednio de judeus n\u00e3o poderiam ser consideradas gozando do pleno exerc\u00edcio de sua liberdade, mas como assinala Contardo Calligaris<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn24\" name=\"_ftnref\">[24]<\/a>, funcionavam como pe\u00e7as na engrenagem de um la\u00e7o social fundado na pervers\u00e3o. A assun\u00e7\u00e3o da liberdade, implica poder conviver com a incerteza e com a ang\u00fastia de n\u00e3o saber de seu desejo. \u00c9 neste ponto de fragilidade que o tirano se apresenta como aquele que sabe e instaura um princ\u00edpio de certeza inquestion\u00e1vel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"line-height: 18.0pt;\">Freud trabalhou, em T\u00f3tem e Tabu<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn25\" name=\"_ftnref\">[25]<\/a>, com a id\u00e9ia de um crime inaugural da cultura, o assassinato do pai da orda pelos filhos. A partir deste ato de ataque \u00e0 diferen\u00e7a, constr\u00f3em o la\u00e7o social,\u00a0 motivados pelo medo da discemina\u00e7\u00e3o desta viol\u00eancia impura, que poderia atingir qualquer membro da comunidade. Movidos tamb\u00e9m pela culpa oriunda de um sentimento ambivalente &#8211; amor e \u00f3dio &#8211; em rela\u00e7\u00e3o ao pai morto, erigem o lugar do t\u00f3tem e instiuem o tabu do incesto, como forma de preven\u00e7\u00e3o. \u201c<i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">A concep\u00e7\u00e3o que assimila a viol\u00eancia \u00e0 perda das diferen\u00e7as deve conduzir ao parric\u00eddio e ao incesto como o \u00faltimo termo de sua trajet\u00f3ria. Nenhuma possibilidade de diferen\u00e7a subsiste, nenhum dom\u00ednio da vida est\u00e1 a salvo contra a viol\u00eancia<\/i>.\u201d<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn26\" name=\"_ftnref\">[26]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"line-height: 18.0pt;\">Interessante notarmos que, a viol\u00eancia pode ser, ao mesmo tempo produtora de indiferencia\u00e7\u00e3o, seja pelo assassinato do pai, transformando todos em iguais, seja pela globaliza\u00e7\u00e3o que ataca as diferen\u00e7as culturais submetendo-as \u00e0 l\u00f3gica de um modelo econ\u00f4mico dominante e de um pensamento \u00fanico. Por um outro lado, a viol\u00eancia pode ser, ela mesma, produtora de diferen\u00e7a. Como vimos anteriormente, as puls\u00f5es de vida e morte encontram-se de tal forma amalgamadas que torna-se dif\u00edcil por vezes identificar suas a\u00e7\u00f5es isoladamente. De qualquer forma \u00e9 importante ter em mente que, a puls\u00e3o de vida, em seu poder de aglutina\u00e7\u00e3o, apresenta tamb\u00e9m um elevado potencial de indiferencia\u00e7\u00e3o requerendo uma providencial a\u00e7\u00e3o do efeito disruptivo da puls\u00e3o de morte para introduzir o g\u00e9rmem da diferencia\u00e7\u00e3o. Esta leitura pode ser \u00fatil na compreens\u00e3o de grupos familiares bem como da comunidade mundial.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"line-height: 18.0pt;\">Do ponto de vista das v\u00edtimas do atentado, de seus familiares, amigos e de todos os cidad\u00e3os do planeta que solidariamente prantearam as perdas humanas e materiais, o ocorrido foi uma trag\u00e9dia, que deixou exposta a at\u00e9 ent\u00e3o impens\u00e1vel vulnerabilidade dos EUA, idealizado para\u00edso de seguran\u00e7a, apesar das matan\u00e7as levadas a cabo em suas pr\u00f3pias escolas por j\u00f3vens p\u00faberes, para horror de toda a sociedade americana e mundial.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"line-height: 18.0pt;\">O ato violento e irracional que brota das pr\u00f3prias entranhas e que coloca em quest\u00e3o os pr\u00f3prios modelos internos de organiza\u00e7\u00e3o social comporta, em si mesmo, a produ\u00e7\u00e3o de um estranhamento, por trazer \u00e0 luz alguma coisa da \u00f3rdem do recalcado, daquilo que ressurge como estranhamente familiar. A viol\u00eancia estrangeira infiltrada no territ\u00f3rio nacional, por sua vez, caracteriza-se pela produ\u00e7\u00e3o de desamparo frente ao Outro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"line-height: 18.0pt;\">Resumindo, a viol\u00eancia que brota de dentro e que vem \u00e0 luz, tem um poder de estilha\u00e7amento, fazendo emergir entre as rachaduras, o retorno do recalcado, produzindo portanto um desconhecimento tempor\u00e1rio de si mesmo como identidade nacional. De outro lado, a viol\u00eancia estrangeira unifica a na\u00e7\u00e3o em torno de um inimigo comum, produz o enrigecimento dos tecidos sociais e a emerg\u00eancia de um nacionalismo, visando o fortalececimento\u00a0 da na\u00e7\u00e3o diante do sentimento de desamparo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"line-height: 18.0pt;\">Os focos de viol\u00eancia podem aparecer encapsulados, como a pe\u00e7onha no interior do organismo que a produz. Neste caso, o alvo do veneno situa-se fora, mas pode acontecer, como em algumas esp\u00e9cies, que o pr\u00f3prio organismo seja v\u00edtima do veneno que engendrou.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"line-height: 18.0pt;\">Mais do que a vulnerabilidade americana, ou do bloco econ\u00f4mico dominante, o atentado deixou exposta a vulnerabilidade da condi\u00e7\u00e3o humana. Acionou todos os fantasmas individuais ligados ao inexor\u00e1vel da pr\u00e9-matura\u00e7\u00e3o humana, nossa depend\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o aos objetos amorosos e nossa atitude frente a morte.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"line-height: 18.0pt;\">Do ponto de vista planet\u00e1rio, deslocando o olhar das trag\u00e9dias particulares para o \u00e2mbito do tr\u00e1gico, o atentado foi um acontecimento, um ato produtor de instabilidade e de turbul\u00eancia, uma feroz manifesta\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o de morte no apogeu de sua pot\u00eancia disruptiva. Ouviu-se dizer com justa raz\u00e3o: <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">o mundo nunca mais ser\u00e1 o mesmo<\/i>. \u00c9 este, sem d\u00favida, o efeito de um acontecimento. Dele se diz que produz um desvio na orienta\u00e7\u00e3o do real. O acontecimento \u00e9 produtor do novo. Abre, como nos diz Prigogine, bifurca\u00e7\u00f5es e estas bifurca\u00e7\u00f5es v\u00e3o instaurar a flecha do tempo pois, uma vez escolhido um caminho inaugura-se uma narrativa hist\u00f3rica irrevers\u00edvel. Da\u00ed depreende-se a responsabilidade inerente \u00e0 escolha.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"line-height: 18.0pt;\">Ao escolhermos um caminho dentre as bifurca\u00e7\u00f5es abertas a partir da turbul\u00eancia produzida pelo atentado, estamos escrevendo uma hist\u00f3ria sem retorno. O mundo inteiro acompanha passo a passo os movimentos do governo americano. N\u00e3o faltam mo\u00e7\u00f5es de apoio de outros governos, mas com o passar dos dias, novos elementos ganham destaque e come\u00e7am a se impor. Lembremos que emerg\u00eancias e imposi\u00e7\u00f5es s\u00e3o caracter\u00edsticas intr\u00ednsecas \u00e0 id\u00e9ia de sistemas e organiza\u00e7\u00f5es complexas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"line-height: 18.0pt;\">Ganham foco, o sofrido e mutilado povo afeg\u00e3o e todos os mu\u00e7ulmanos que sofrem discrimina\u00e7\u00e3o por serem identificados com os terroristas. As v\u00edtimas est\u00e3o agora em toda parte, n\u00e3o mais unicamente sob os escombros do World Trade Center. Mulheres e crian\u00e7as afeg\u00e3s envolvem seus corpos desnutridos em trajes de cores exuberantes. S\u00e3o vistas na TV e nos jornais de todo o mundo, nesta inquietante mistura de cores vivas e olhares sombrios. Nova York tamb\u00e9m j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais somente o brilho dos letreiros da Brodway. \u00c9 tamb\u00e9m uma cidade destru\u00edda, o cora\u00e7\u00e3o da mais rica das na\u00e7\u00f5es, ferido de morte, lutando para recuperar seu amor pr\u00f3prio machucado e reinstalar sua alegria de viver. H\u00e1 uma redistribui\u00e7\u00e3o da mis\u00e9ria humana e uma empatia na dor, por aqueles que sofrem. Todos sofremos, mas frequentemente nos esquecemos disto, n\u00e3o queremos olhar para o lado e ver a mis\u00e9ria alheia e quando olhamos, n\u00e3o deixamos de nos sentir aliviados por supormos, ingenuamente, que a mis\u00e9ria \u00e9 apenas do outro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"line-height: 18.0pt;\">Apelos de paz come\u00e7am a surgir de toda parte e um encaminhamento mais racional passa a ser exigido por todos os povos, de um combate restrito severo e eficaz \u00e0 rede internacional do terrorismo. Mas o povo americano, unificado em seu desamparo frente a viol\u00eancia reconhecida por eles como exterior e conduzido pelas m\u00e3os de um presidente que reifica o mal, identifica o inimigo e parte para uma bizarra cruzada do Bem contra o Mal, acreditando haver encontrado, assim, seu novo ponto de equil\u00edbrio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"line-height: 18.0pt;\">Mas esta cren\u00e7a n\u00e3o se sustenta: no f\u00f3rum internacional de Nova York, realizado em fevereiro de 2002, ouvem-se vozes in\u00e9ditas denunciando a impossibilidade de seguir tentando conciliar o enriquecimento irrefreado dos pa\u00edzes ricos de um lado, o empobrecimento da maioria da popula\u00e7\u00e3o mundial de outro e a estabilidade mundial. O enriquecimento n\u00e3o foi capaz de garantir a seguran\u00e7a nacional e de seus cidad\u00e3os e n\u00e3o pode deter a revolta e o \u00f3dio acumulados naqueles que est\u00e3o exclu\u00eddos do para\u00edzo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"line-height: 18.0pt;\">Heuderling, o poeta tr\u00e1gico, nos diz que no bojo da maldi\u00e7\u00e3o est\u00e1 a salva\u00e7\u00e3o e Edgard Morin em seu Evangelho da Perdi\u00e7\u00e3o, nos convoca \u00e0 uma utopia realista, capaz de religar os irm\u00e3os, n\u00e3o para sermos salvos, mas porque estamos perdidos. Lembra, contudo, que n\u00e3o podemos estar certos, em nenhum momento, de caminharmos para o melhor ou para o pior.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"line-height: 18.0pt;\">Os atentados do dia 11, colocam novamente em xeque, os destinos poss\u00edveis para a humanidade. Para onde caminhamos? Morin conclui seu Terra- P\u00e1tria dizendo que estamos \u00e0s v\u00e9speras n\u00e3o da luta final, mas da luta inicial. Os atentados do dia 11, poderiam ser vistos como marco desta luta inicial?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"line-height: 18.0pt;\">Morin nos fala de uma Terra P\u00e1tria e h\u00e1 neste termo um cunho marcadamente ecol\u00f3gico, no sentido amplo do termo. Por\u00e9m, muitos autores de diferentes vertentes do pensamento, visando a paz, advogam um certo tipo de governo mundial, <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">um Estado dos povos ( civitas gentium) que por fim viria a compreender todos os povos da Terra<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn27\" name=\"_ftnref\">[27]<\/a> <\/i>, que pudesse ser fundado sobre o <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">direito das gentes<\/i>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"line-height: 18.0pt;\">Kant, como Freud, tamb\u00e9m acredita que o homem seja habitado por um <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">princ\u00edpio mau<\/i> que n\u00e3o pode ser negado. Por\u00e9m, tamb\u00e9m acredita na transforma\u00e7\u00e3o deste princ\u00edpio por meio de uma disposi\u00e7\u00e3o origin\u00e1ria moral ainda maior, embora adormecida; esta transforma\u00e7\u00e3o deve ser esperada de todos, para a plena constitui\u00e7\u00e3o do direito. Do contr\u00e1rio, poder\u00edamos fazer piada com a palavra direito, <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">como aquele pr\u00edncipe gaul\u00eas definia: \u201c o direito \u00e9 a vantagem que a natureza deu ao mais forte sobre o mais fraco, de que este deve obedecer a ele\u201d.<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn28\" name=\"_ftnref\">[28]<\/a><\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"line-height: 18.0pt;\">Kant n\u00e3o se refere \u00e0 um tratado de paz que teria como finalidade por fim \u00e0 uma \u00fanica guerra, mas \u00e0 uma liga de paz, orientada no sentidode por fim a todas as guerras para sempre.Sabemos, com Negri, que o conceito de Estado Na\u00e7\u00e3o est\u00e1 em crise, mas \u00e9 curioso quando nos detemos sobre um texto do s\u00e9c XVIII e l\u00e1 encontramos algumas id\u00e9ias orientadas no sentido da Paz Mundial, bastante sintonizadas com reflex\u00f5es de pensadores contempor\u00e2neos acerca da mesma finalidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"line-height: 18.0pt;\">Em seu terceiro artigo para a Paz perp\u00e9tua, Kant aponta o direito cosmopolita da hospitalidade universal. Assinala que n\u00e3o se trata de filantropia, mas de <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">direito e hospitalidade<\/i>, \u201c <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">direito da posse comunit\u00e1ria da superf\u00edcie da Terra, sobre a qual, enquanto esf\u00e9rica, n\u00e3o podem dispensar ao infinito, mas t\u00eam finalmente de tolerar-se uns aos outros<\/i>.\u201d<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn29\" name=\"_ftnref\">[29]<\/a> Considerando-se as dificuldades de transporte e comunica\u00e7\u00e3o no s\u00e9c. XVIII,\u00a0 \u00e9 surpeendente que j\u00e1 se pensasse em <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">direito da superf\u00edcie<\/i> e <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">direito da hospitalidade<\/i>. Em sua entrevista \u00e0 Globonews, Negri, aponta quatro princ\u00edpios para a constru\u00e7\u00e3o da paz mundial: o primeiro deles, \u201c <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">dar cidadania universal a todos aqueles que desejem se mover de um continente a outro, mudarem-se. Reconhecer a mobilidade universal como Direito<\/i>.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"line-height: 18.0pt;\">Einstein e Freud tamb\u00e9m advogavam a necessidade de um governo mundial. Em correspond\u00eancia datada de1932<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn30\" name=\"_ftnref\">[30]<\/a>, Einstein diria a Freud:\u00a0 \u201c <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">a busca da seguran\u00e7a nacional envolve a ren\u00fancia incondicional por todas as na\u00e7\u00f5es, em determinada medida, \u00e0 sua liberdade de a\u00e7\u00e3o, ou seja, \u00e0 sua soberania. E \u00e9 absolutamente evidente que nenhum outro caminho pode conduzir a essa seguran\u00e7a.\u201d<\/i> Em seus Escritos da Maturidade, Einstein insiste na necessidade de uma<i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">\u201c autoridade supranacional suficiente e confi\u00e1vel<\/i> \u201d<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn31\" name=\"_ftnref\">[31]<\/a>, da cria\u00e7\u00e3o de um \u201c<i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">governo mundial <\/i>\u201d<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn32\" name=\"_ftnref\">[32]<\/a> e de uma \u201c<i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">modifica\u00e7\u00e3o do conceito tradicional de soberania nacional<\/i>.\u201d<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn33\" name=\"_ftnref\">[33]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"line-height: 18.0pt;\">Com um olhar contempor\u00e2neo, Negri alerta para o fato de que, para globalizar a paz, n\u00e3o se pode seguir as recomenda\u00e7\u00f5es feitas pelos juristas ligados \u00e0s Na\u00e7\u00f5es Unidas, segundo as quais a paz poderia ser organizada por uma sociedade civil mundial\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 ( exatamente como pensavam Freud e Einstein), pois esta sociedade seria fundamentalmente constitu\u00edda por representantes dos interesses econ\u00f4micos que se extendem pelo mundo. Diga-se de passagem, Einstein sugeria que os delegados da ONU, deveriam ser eleitos pelo voto popular, no interior de um sufr\u00e1gio internacional<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"line-height: 18.0pt;\">Em respostas \u00e0s quest\u00f5es de Einstein, Freud fala do ponto de vista de suas teorias pulsionais; reconhecendo a exist\u00eancia de uma puls\u00e3o de destrui\u00e7\u00e3o, acrescenta que \u201c <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">as guerras somente ser\u00e3o evitadas com certeza, se a humanidade se unir para estabelecer uma autoridade central a que ser\u00e1 conferido o direito de arbitrar todos os conflitos de interesses.\u201d \u2026Por paradoxal que possa parecer, deve-se admitir que a guerra possa ser um meio nada inadequado de estabelecer o reino ansiosamente desejado de paz perene, pois est\u00e1 em condi\u00e7\u00f5es de criar as grandes unidades dentro das quais um poderoso governo central torna imposs\u00edveis outras guerras<\/i>.\u201d<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn34\" name=\"_ftnref\">[34]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"line-height: 18.0pt;\">Tomando este aspecto paradoxal a que se refere Freud, retomemos nossa pergunta: os atentados do dia 11, colocando em xeque os destinos do planeta, poderiam, paradoxalmente,\u00a0 produzir e aglutinar for\u00e7as e movimentos internacionais que possam nos orientar em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 paz?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"line-height: 18.0pt;\">Na entrevista supra citada, Negri aponta um outro vetor importante para a paz: <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">oferecer a todos a possibilidade de sobreviv\u00eancia. Um sal\u00e1rio, uma renda universal da cidadania pelo simples direito de sobreviver.<\/i> Esta necessidade ficou bastante em evid\u00eancia nas imagens que passaram a revelar, insistentemente, ap\u00f3s o atentado, as miser\u00e1veis condi\u00e7\u00f5es de vida a que estavam submetidas o povo afeg\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"line-height: 18.0pt;\">O abalo s\u00edsmico produzido em todo o mundo, pelo impacto sobre as torres da Walt Street, chamou \u00e0 responsabilidade todos os cidad\u00e3os da comunidade planet\u00e1ria, especialmente, \u00e0queles que poderiam ter algum poder decis\u00f3rio. Pierre Bourdieu<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn35\" name=\"_ftnref\">[35]<\/a>, em seu Contrafogos 2, cujo t\u00edtulo nos evoca os filmes de a\u00e7\u00e3o Holliwoodianos, interroga os intelectuais, entendendo por isto, artistas, fil\u00f3sofos e cientistas, quanto ao papel que poderiam desempenhar, contribuindo para uma nova maneira de fazer pol\u00edtica. Invoca-os em sua responsabilidade perante uma luta social, na forma de um conhecimento engajado, contra as formas absolutamente novas assumidas pela domina\u00e7\u00e3o. Questiona a reclus\u00e3o acad\u00eamica e apela para necessidade de conquistar-se uma autonomia para os pesquisadores.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"line-height: 18.0pt;\">Einstein e Freud fazem a mesma exorta\u00e7\u00e3o aos intelectuais. N\u00e3o entraremos nos detalhes de suas an\u00e1lises. Nossa inten\u00e7\u00e3o, ao invocarmos Kant, Freud e Einstein, consiste em compartilhar uma certa perplexidade diante do dej\u00e1-vu que nos produz estas leituras e da indaga\u00e7\u00e3o que insiste em se colocar: se h\u00e1 s\u00e9culos se indicam estes caminhos, por s\u00e1bios de diversas vertentes, por que n\u00e3o se opera uma mudan\u00e7a substancial na descentraliza\u00e7\u00e3o dos poderes e de uma nova forma de se fazer pol\u00edtica?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"line-height: 18.0pt;\">Negri enfatiza o fato de que a produ\u00e7\u00e3o agora \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o intelectual, sendo o c\u00e9rebro a ferramenta com a qual constru\u00edmos a riqueza, o que aumenta a responsabilidade dos intelectuais nesta reforma ou revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"line-height: 18.0pt;\">Concluiremos relembrando a an\u00e1lise de Negri acerca do papel dos intelectuais na promo\u00e7\u00e3o e na sustenta\u00e7\u00e3o da vida no planeta, na efetiva\u00e7\u00e3o de uma revolu\u00e7\u00e3o que s\u00f3 se faz hoje, ele nos diz, com intelig\u00eancia e amor. O Imp\u00e9rio s\u00f3 pode ser modificado de dentro, a partir de novos laborat\u00f3rios das novas classes intelectuais\u2026 por aqueles que produzem id\u00e9ias com seus c\u00e9rebros, ligados a seus computadores, produzindo valores e construindo a coopera\u00e7\u00e3o.. J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 necessidade de patr\u00f5es, para reunir os oper\u00e1rios no espa\u00e7o delimitado de uma f\u00e1brica e faz\u00ea-los cooperar. A coopera\u00e7\u00e3o se d\u00e1 de forma espont\u00e2nea, movida pelo desejo e caracteriza-se pela desterritorializa\u00e7\u00e3o ao contr\u00e1rio do confinamento.<\/p>\n<p>Na mesma linha de Morin, em Amor Poesia e Sabedoria, Negri\u00a0 acrescenta: n\u00e3o se deve mais desvincular trabalho e cultura, trabalho e alegria. Ligar, desligar e religar de forma sempre transformada, continua sendo um movimento vital na constru\u00e7\u00e3o de uma cultura planet\u00e1ria que favore\u00e7a, em todos os n\u00edveis, a sustentabilidade da vida.<\/p>\n<p>Encerro por aqui essas reflex\u00f5es, ligadas, desligadas e religadas, agradecendo \u00e0 todos pela generosidade da escuta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr align=\"left\" size=\"1\" width=\"33%\" \/>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Palestra proferida no COMPLEXUS, PUCSP, em\u00a0 2002.<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Morin, Edgar. O Homem e a Morte , Rio de Janeiro, ed. Imago, 1997, p.9<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Schr\u00f6dinger, Erwin. O que \u00e9 a vida?<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Reeves, Hubert A Hora do Deslumbramento. O Universo tem um Sentido? Ed. Martins fontes, S. Paulo, 1988, p.70<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Id. Ibid<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Freud, S. Reflex\u00f5es para Tempo de Guerra e Morte (1915) Imago Ed. P.339<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Id. Ibid. p.329<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Girard, R. A Viol\u00eancia e o Sagrado<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Nietzche &#8230;<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> Freud, S. Mal Estar na Civiliza\u00e7\u00e3o ( 1930)<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> Id ibid p.136<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> Freud, S. ( 1915)\u00a0 Reflex\u00f5es para tempos de Guerra e Morte,Imago Imago ed. vol.14, p.317<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> Freud, S. (1930) Mal Estar na Civiliza\u00e7\u00e3o Edi\u00e7\u00e3o Standard, 21 p. 147<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a> Id. ibid. p. 148<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn15\">[15]<\/a> Freud, S. Por que a Guerra (1933)Imago Ed., vol.22 p.253\/ 252<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn16\">[16]<\/a> Freud, S. ( 1915)\u00a0 Reflex\u00f5es para tempos de Guerra e Morte,Imago Imago ed. vol.14, p.317<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn17\">[17]<\/a> Id. Ibid. p.255<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn18\">[18]<\/a> Id. Ibid. p.319<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn19\">[19]<\/a> Freud, S. ( 1915)\u00a0 Reflex\u00f5es para tempos de Guerra e Morte, Imago Ed, 14, p.321<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn20\">[20]<\/a> id. ibid. p.14<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn21\">[21]<\/a> Id. Ibid. p.27<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn22\">[22]<\/a> Ver tamb\u00e9m, Hardt, M e A. Nigri, O Imp\u00e9rio ,Record , Rio de Janeiro\/S. Paulo, 2001<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn23\">[23]<\/a> Guyomard Patrick O Gozo do Tr\u00e1gico Jorge Zahar Ed.Rio de Janeiro, 1992<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn24\">[24]<\/a> Calligaris, Contardo A Pervers\u00e3o dos la\u00e7os Sociais<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn25\">[25]<\/a> Freud, S. T\u00f3tem e Tabu Imago Ed. vol<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn26\">[26]<\/a> Id. Ibid. p.99<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn27\">[27]<\/a> Kant, E. \u00c0 Paz Perp\u00e9tua\u00a0 ( 1795) S\u00e9rie Filosofia Pol\u00edtica LePM ed.1989 p.42<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn28\">[28]<\/a> Id. Ibid. p.40<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn29\">[29]<\/a> Ibid. p. 43<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn30\">[30]<\/a> Freud, S. Por que a Guerra (1933)Imago Ed., vol.22 p. 242<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn31\">[31]<\/a> Einstein, A. Escritos da Maturidade \u2013 Carta aberta \u00e0 Assemb\u00e9ia Geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas\u2014Ed. Nova Fronteira,Rio de Janeiro,1994, p.165<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn32\">[32]<\/a> Id.Ibid. p.168<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn33\">[33]<\/a> Ibid. p.166<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn34\">[34]<\/a> Id.ibid p.250<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn35\">[35]<\/a> Bourdieu, Pierre Contrafogos2 Jorge Zahar ed.Rio de janeiro, 2001<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cSUSTENTABILIDADE DA VIDA\u201d: reflex\u00f5es ap\u00f3s o 11 de setembro[1] &nbsp; Se a morte sempre foi um acontecimento espantoso para os seres humanos, as concep\u00e7\u00f5es atuais das ci\u00eancias f\u00edsicas e biol\u00f3gicas apresentam-nos a vida como um fen\u00f4meno ainda mais escandaloso, se o tomarmos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 entropia crescente da ordem f\u00edsica. 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