{"id":91,"date":"2015-10-09T23:56:08","date_gmt":"2015-10-09T23:56:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iecomplex.com.br\/profetas-do-amor\/"},"modified":"2023-12-25T13:36:12","modified_gmt":"2023-12-25T13:36:12","slug":"profetas-do-amor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/iecomplex.com.br\/en\/profetas-do-amor\/","title":{"rendered":"Tereza Estarque &#8220;Edith Stein e Madre teresa de Calcut\u00e1: profetas do amor&#8221;palestra proferida na PUCRio(2002)"},"content":{"rendered":"<p><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-indent: .5in;\">Autora: Tereza Mendon\u00e7a Estarque<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-indent: .5in;\">EDITH STEIN e MADRE TERESA DE CALCUT\u00c1: PROFETAS DO AMOR<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"margin-left: 0in; text-indent: 297.0pt;\"><i>Amor e morte s\u00e3o casados<\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"margin-left: 0in; text-indent: 297.0pt;\"><i>E moram no abismo trevoso<\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"margin-left: 0in; text-indent: 297.0pt;\"><i>Seus filhos,<\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"margin-left: 0in; text-indent: 297.0pt;\"><i>O que se chama Fel\u00edcitas<\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"margin-left: 0in; text-indent: 297.0pt;\"><i>Tem o apelido de Fel<\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"margin-left: 0in; text-indent: 297.0pt;\"><i>(Ad\u00e9lia\u00a0 Prado\/ a seduzida)<a style=\"mso-footnote-id: ftn1;\" title=\"\" href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/i><i><\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><i>O amor proporcionou-me a plena combust\u00e3o para o meu trabalho, curou-me quando estava doente, salvou-me quando estava perdido.&#8221;<\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><i>\u00a0<\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><i>(Edgard Morin, In &#8220;Meus dem\u00f4nios&#8221;)<\/i><i>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\"><i>\u00a0<\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"margin-left: 0in; text-indent: .5in;\"><i>\u00a0<\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"margin-left: 0in; text-indent: .5in;\">Na tradi\u00e7\u00e3o b\u00edblica, profetas s\u00e3o aqueles que falam em nome de Deus. S\u00e3o mensageiros e int\u00e9rpretes da palavra divina, chamados e escolhidos por Deus de forma inelut\u00e1vel, nada podendo contra esta determina\u00e7\u00e3o. <i><\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"margin-left: 0in; text-indent: .5in;\">As duas personalidades propostas para esta mesa s\u00e3o figuras exemplares, pois o que verdadeiramente caracteriza o profeta n\u00e3o \u00e9 apenas o fato de que ele seja um mensageiro da palavra de Deus, restringindo-se sua a\u00e7\u00e3o ao dom\u00ednio do verbal, mas que a pr\u00f3pria vida do profeta \u00e9 revela\u00e7\u00e3o da natureza do amor divino no mundo dos homens.<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"margin-left: 0in; text-indent: .5in;\">Cada uma destas grandes mulheres encontrou seu meio singular de vida para professar o amor: Edith Stein em sua filia\u00e7\u00e3o \u00e0 Santa Teresa de \u00c1vila e S. Jo\u00e3o da Cruz, escolheu o sil\u00eancio do amor no caminho da medita\u00e7\u00e3o e Madre Teresa de Calcut\u00e1, \u00e0 exemplo de Santa Teresa de Lisieux, torna-se uma oper\u00e1ria do amor no servi\u00e7o dos pobres.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: .5in; line-height: 150%;\">Existem diversas formas de exec\u00edcio do amor<b>. <\/b>Edgar Morin faz uma diferen\u00e7a entre <i>palavras sobre o amor<\/i> e <i>palavras do amor<\/i>, sendo uma o inverso da outra. As palavras sobre o amor <i>constituem um discurso frio, t\u00e9cnico, objetivo, que, em si mesmo, degrada e dissolve seu objeto.<\/i><a style=\"mso-footnote-id: ftn2;\" title=\"\" href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><i>[2]<\/i><\/a><i> <\/i>As palavras do amor\u00a0 frequentam o discurso po\u00e9tico entendido aqui n\u00e3o como poesia estrito senso, mas como discurso impregnado de paix\u00e3o, um discurso amoroso e caloroso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: .5in; line-height: 150%;\">H\u00e1 ainda os sil\u00eancios do amor, que est\u00e3o presentes na pr\u00e1tica contemplativa e tamb\u00e9m no sil\u00eancio dos amantes. Lacan vai falar do gozo m\u00edstico, como um gozo imposs\u00edvel de descrever em palavras, porque estando para al\u00e9m do falicismo, escapa \u00e0 inscri\u00e7\u00e3o no simb\u00f3lico. Para a psican\u00e1lise Lacaniana, \u00e9 o falicismo que vai permitir o acesso \u00e0 linguagem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: .5in; line-height: 150%;\">Morin se pergunta se o amor \u00e9 pr\u00e9-verbal ou se ele procede \u00e0 palavra, e seu pensamento dial\u00f3gico leva-o a concluir pela simult\u00e2nea preced\u00eancia e proced\u00eancia do amor \u00e0 palavra. <i>O amor enra\u00edza-se em nossa corporeidade e, neste sentido, pode-se dizer que o amor precede a palavra. Mas o amor encontra-se, ao mesmo tempo, enraizado em nosso ser mental, em nosso mito, que, evidentemente, pressup\u00f5e a linguagem e, nesse sentido, pode-se dizer que o amor decorre da linguagem<\/i>. <a style=\"mso-footnote-id: ftn3;\" title=\"\" href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a><\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"margin-left: 0in; text-indent: .5in;\">Morin nos diz ainda, <i>que o amor \u00e9 o \u00e1pice da uni\u00e3o entre loucura e sabedoria<\/i><b> <\/b>\u00a0Justamente por isto,<b> <\/b>\u00e9 um sentimento extremamente corrupt\u00edvel. Em nome do amor comentem-se muitas atrocidades, pois que ele se degrada frequentemente de amor pr\u00f3prio, fundado no narcisismo necess\u00e1rio \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o de uma boa auto estima, para amor impr\u00f3prio, enamoramento excessivo de si mesmo que vai configurar a soberba e o ego\u00edsmo. <i><\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"margin-left: 0in; text-indent: .5in;\">O amor \u00e9 um sentimento poderos\u00edssimo, para o bem e para o mal. A vida dos santos e de muitas pessoas comuns, nos ensinam sobre as diversas formas de exec\u00edcio do amor, que requerem movimentos permanentes de luta entre vida e morte. Santa Teresa de Lisieux<a style=\"mso-footnote-id: ftn4;\" title=\"\" href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a> sabia muito bem disto em sua devo\u00e7\u00e3o: <i>Senhor Deus dos ex\u00e9rcitos, que dissestes no vosso evangelho: \u201c N\u00e3o vim trazer a paz, mas a espada\u201d, armai-me para a luta. Outra n\u00e3o \u00e9 minha espada sen\u00e3o o amor.<\/i> Ao mesmo tempo, inaugura uma nova via espiritual, <i>a pequena via<\/i> o caminho da inf\u00e2ncia espiritual que tem por base a confian\u00e7a absoluta em Deus. O \u00eaxtase \u00e9 fruto direto desta entrega arrebatadora. Santa Teresa confia-se inteiramente \u00e0\u00a0 ternura materna de Deus \u201c<i>com a ternura da m\u00e3e que acaricia seu filhinho, assim vos consolarei ( IS. 66,12-13)\u201d<\/i> Entre a luta e a ternura, o que me interessa enfatizar s\u00e3o os diferentes matizes do amor.<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"margin-left: 0in; text-indent: .5in;\">Freud entendia o amor como for\u00e7a de coes\u00e3o, puls\u00e3o de vida, fundamental para a constitui\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo e dos grupamentos humanos, mas tamb\u00e9m sabia de seu poder mort\u00edfero, pois ao unir tende tamb\u00e9m a anular as diferen\u00e7as e produzir uma massa amorfa e intolerante \u00e0 alteridade. Seria necess\u00e1rio portanto a a\u00e7\u00e3o de uma outra for\u00e7a, a puls\u00e3o de morte, for\u00e7a disruptiva que agindo sempre amalgamada \u00e0 puls\u00e3o de vida, vai permitir o arejamento e o movimento necess\u00e1rio \u00e0s m\u00faltiplas possibilidades de organiza\u00e7\u00e3o da vida.<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"margin-left: 0in; text-indent: .5in;\">Como indica Daniel Bougnoux<a style=\"mso-footnote-id: ftn5;\" title=\"\" href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>, o amor transborda e faz cola entre os indiv\u00edduos. Relembrando Saint-Exup\u00e9ry, ele diz que amar \u00e9 olhar juntos na mesma dire\u00e7\u00e3o, mas para chamar nossa aten\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o aos riscos deste olhar unidirecional, reenvia-nos \u00e0 uma foto do povo alem\u00e3o unificado pelo nazismo, com as m\u00e3os e os olhares estendidos na mesma dire\u00e7\u00e3o. Este \u00e9 um triste exemplo\u00a0 de vit\u00f3ria da loucura sobre a sabedoria no exerc\u00edcio do amor e, por isto mesmo, \u00e9 preciso cuidado com as vari\u00e2ncias, desvios e degrada\u00e7\u00f5es do amor.<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"margin-left: 0in; text-indent: .5in;\"><i>Trabalharei aqui com a hip\u00f3tese da exist\u00eancia de uma rela\u00e7\u00e3o entre alguns diferentes estados amorosos: o \u00eaxtase m\u00edstico, o \u00eaxtase hipn\u00f3tico e a transfer\u00eancia amorosa na cl\u00ednica psicanal\u00edtica.<\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: .5in; line-height: 150%;\">Freud declara em 1907, que o tratamento psicanal\u00edtico \u00e9 um tratamento pelo amor. Isto dito assim, desvinculado de toda uma compreens\u00e3o da teoria do amor em sua obra, \u00e9 uma afirma\u00e7\u00e3o surpreendente. A psican\u00e1lise cura pelo amor, amor de transfer\u00eancia, que ele dir\u00e1 mais tarde ser um amor como qualquer outro. O que difere, digamos, \u00e9 o manejo deste amor pelo analista, que n\u00e3o dever\u00e1 corresponder concretamente a ele mas, ao contr\u00e1rio, tom\u00e1-lo como\u00a0 repeti\u00e7\u00e3o que permitir\u00e1, atrav\u00e9s dos manejos poss\u00edveis, promover diferencia\u00e7\u00f5es nas formas de amar aprendidas ou desaprendidas nas rela\u00e7\u00f5es primordiais do paciente com seus primeiros objetos amorosos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: .5in; line-height: 150%;\">A experi\u00eancia anal\u00edtica revela a intensa complexidade dos afetos colocados em cena ao longo de todo o processo. Se o analista n\u00e3o deve corresponder aos sentimentos de seu cliente, tamb\u00e9m n\u00e3o pode mostrar-se indiferente a seu sofrimento. Sabemos dos males trazidos \u00e0 pr\u00e1tica psicanal\u00edtica pelos engodos da neutralidade.\u00c9 preciso empatizar, exercer a dureza e a compaix\u00e3o, esquivar-se do envolvimento afetivo obnubilante, preservar sua possibilidade de a\u00e7\u00e3o e reflex\u00e3o, numa cl\u00ednica sempre efetivada sob o amor de transfer\u00eancia. N\u00e3o \u00e9 tarefa f\u00e1cil, mas para isto, \u00e9 longo o processo de treinamento do candidato a analista. Mas nem mesmo isto \u00e9 garantia de realiza\u00e7\u00e3o de uma an\u00e1lise. O que pode torn\u00e1-la poss\u00edvel \u00e9, primeiramente, que aconte\u00e7a um <i>bom encontro<\/i> e que neste encontro possa o analista exercer sua fun\u00e7\u00e3o a partir de uma \u00e9tica que o norteie na dire\u00e7\u00e3o da <i>cura<\/i>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"margin-left: 0in; text-indent: .5in;\">Os bons encontros s\u00e3o aqueles que t\u00eam para n\u00f3s o estatuto de um acontecimento, no sentido de ruptura com o vivido at\u00e9 ent\u00e3o. Podemos dizer que o ato anal\u00edtico \u00e9 aquele que muda a orienta\u00e7\u00e3o do real para um sujeito. Teresa Benedita da Cruz<a style=\"mso-footnote-id: ftn6;\" title=\"\" href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a> e Madre Teresa de Calcut\u00e1, profetas do amor, em seus caminhos singulares, tiveram diferentes encontros com duas grandes figuras da m\u00edstica cat\u00f3lica que foram, como vimos, Santa Teresa D \u2018\u00c1vila para Edith Stein e Santa Teresa de Lisieux, para Madre Teresa de Calcut\u00e1.<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"margin-left: 0in; text-indent: .5in;\">Os grandes m\u00edsticos sinalizam-nos tamb\u00e9m o mist\u00e9rio que enreda amor, sofrimento e cura. S. Paulo da Cruz (1694-1775), inspirado por Tauler que viveu quatrocentos anos antes dele dizia: <i>Creia-me, nunca conheci uma alma que se dedicasse \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o e ora\u00e7\u00e3o e tivesse boa sa\u00fade<\/i>.<a style=\"mso-footnote-id: ftn7;\" title=\"\" href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a> Pode-se adoecer por excesso ou por falta de amor e cada um destes percal\u00e7os condiciona diferentes modalidades de <i>pathos<\/i>.\u00a0 Sabemos, a partir de diferentes escolas de pensamento, que <i>o crescimento espiritual<\/i> (ps\u00edquico ou humano se preferirmos), <i>faz pesadas exig\u00eancias \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o psicof\u00edsica da criatura humana<\/i>.<a style=\"mso-footnote-id: ftn8;\" title=\"\" href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a> Esta constata\u00e7\u00e3o n\u00e3o implica que o adoecimento seja uma meta ou mesmo uma necessidade, ao contr\u00e1rio, deve ser visto como conting\u00eancia a ser minimizada. Stinissen observa que <i>Antes de julgar coisa normal que se fique doente durante a caminhada, procura-se prevenir tais incidentes, n\u00e3o negligenciando o corpo nem a psique. Assim, a hatha-yoga pretende fortalecer o corpo, para que resista \u00e0s press\u00f5es do crescimento espiritual.<a style=\"mso-footnote-id: ftn9;\" title=\"\" href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a><\/i><\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"margin-left: 0in; text-indent: .5in;\">\u00c9 preciso ousar pensar a sa\u00fade de forma mais humilde. Ousadia para romper com as formula\u00e7\u00f5es culturais e cient\u00edficas confortavelmente estabelecidas que ainda insistem em separar os males do corpo e da alma ou a associar a santidade da alma \u00e0 doen\u00e7a do corpo como pre\u00e7o a pagar. Humildade para perceber o quanto deste campo ainda resta como enigma e para compreendermos a necessidade de nos abrirmos \u00e0s diferentes culturas e produ\u00e7\u00f5es de conhecimento.<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"margin-left: 0in; text-indent: .5in;\">Lacan era apaixonado por Santa Teresa D\u2018\u00c1vila e por S.Jo\u00e3o da Cruz. Dedica-lhes algumas p\u00e1ginas de seu semin\u00e1rio <i>Encore<\/i>\u2026 , identificando o gozo m\u00edstico ao gozo feminino, acess\u00edvel somente &#8211; ele dir\u00e1 &#8211; \u00e0s mulheres, aos m\u00edsticos e aos artistas, sempre pela via do masoquismo prim\u00e1rio. No caso dos homens, esse acesso fica restrito a alguns artistas e\/ou\u00a0 m\u00edsticos. S. Jo\u00e3o da Cruz \u00e9 uma figura exemplar, ao mesmo tempo artista e m\u00edstico.<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"margin-left: 0in; text-indent: .5in;\">Ao falar de masoquismo prim\u00e1rio, \u00e9 preciso ter o cuidado de esclarecer que esta terminologia, talvez n\u00e3o a melhor, refere-se n\u00e3o \u00e0 uma categoria nosol\u00f3gica caracter\u00edstica de uma leitura patologizante, mas a um estado constitutivo da personalidade humana, associado \u00e0 uma <i>passividade ativa<\/i> que vai caracterizar o feminino para a psican\u00e1lise e os estados contemplativos no caminho da medita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"margin-left: 0in; text-indent: .5in;\">Cura \u00e9 outra palavra desconcertante, quanto mais se a vincularmos \u00e0 id\u00e9ia de amor. Cura pelo amor. Esta \u00e9 a escandalosa proposta de Freud, no interior de um cen\u00e1rio cientificista que tinha por princ\u00edpio a necessidade de afastarmos os afetos para conferir maior objetividade \u00e0s atividades experimentais. Freud n\u00e3o podia dispensar, \u00e9 claro,\u00a0 este reconhecimento da comunidade cient\u00edfica e pode-se imaginar seus esfor\u00e7os no sentido de conciliar as necessidades deste novo m\u00e9todo de tratamento \u00e0s exig\u00eancias epist\u00eamicas de sua \u00e9poca.<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"margin-left: 0in; text-indent: .5in;\">Freud foi assim, sem d\u00favida, um profeta do novo paradigma, um anunciador da boa nova da complexidade.\u00a0 Cura pelo amor, parece ser uma proposta religiosa demais, misteriosa demais, mas isto n\u00e3o produz demasiado estranhamento no interior deste paradigma complexo que prop\u00f5e sua religi\u00e3o, no sentido mesmo de uma re-liga\u00e7\u00e3o dos saberes.<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"margin-left: 0in; text-indent: .5in;\">Ainda que o esp\u00edrito cient\u00edfico nos force a tomar os mist\u00e9rios como enigmas, ainda que o esp\u00edrito religioso conceda que alguns mist\u00e9rios possam transformar-se em enigmas e que, como tal, possam ser um dia decifrados pela ci\u00eancia, \u00e9 fundamental, \u00e0 luz de um conhecimento produzido pelo que vem se denominando terceira cultura, conservarmos a possibilidade de nos surpreendermos, de perdermos o ch\u00e3o e o caminho para reencontrarmos uma dire\u00e7\u00e3o, mesmo que seja completamente outra, mesmo que tenhamos que reconhecer que est\u00e1vamos seguindo as pistas erradas. Isto n\u00e3o deveria importar tanto quanto habitualmente importa, mas sim que os anseios de verdade n\u00e3o fossem sufocados pelo narcisismo do conhecimento estabelecido, que nos faz reduzir a multiplicidade inscrita no real, ao empobrecimento decorrente do pensamento \u00fanico.<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"margin-left: 0in; text-indent: .5in;\">Neste ponto retornamos a Daniel Bougnoux, organizador do col\u00f3quio de Cerisy\u00a0 e \u00e0 imagem unificada do povo alem\u00e3o, utilizada como capa do livro de mesmo nome, na edi\u00e7\u00e3o francesa.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: .5in; line-height: 150%;\">Este col\u00f3quio, realizado em 1989, reuniu profissionais de diferentes \u00e1reas do conhecimento em torno da quest\u00e3o da hipnose, encontro transdisciplinar por excel\u00eancia, visto que a complexidade do objeto n\u00e3o comportaria outra abordagem poss\u00edvel. Bougnoux lutou contra o que considera ser uma alergia da comunidade picanal\u00edtica aos problemas debatidos no col\u00f3quio, que permaneciam e permanecem, ainda hoje, sendo tratados como tabu. Uma das resist\u00eancias a este tema, reside na necessidade de salvaguardar o estatuto cient\u00edfico da psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: .5in; line-height: 150%;\">\u00a0Chertok, um dos participantes do col\u00f3quio afirma que o transe hipn\u00f3tico e a transfer\u00eancia t\u00eam uma natureza comum. Junta-se \u00e0 Isabelle Stengers para afirmar que <i>a rela\u00e7\u00e3o hipn\u00f3tica est\u00e1 presente em toda psicoterapia<\/i><a style=\"mso-footnote-id: ftn10;\" title=\"\" href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\"><i>[10]<\/i><\/a> e que a aceita\u00e7\u00e3o deste fato poderia trazer avan\u00e7os sobre a quest\u00e3o da cura, ainda que para isto tiv\u00e9ssemos que ampliar nossas concep\u00e7\u00f5es sobre racionalidade<i>, <\/i>postulando <i>a necessidade de que as pesquisas assumam definitivamente seu car\u00e1ter transdisciplinar.<\/i><a style=\"mso-footnote-id: ftn11;\" title=\"\" href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\"><i>[11]<\/i><\/a><i> <\/i><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: .5in; line-height: 150%;\">O transe hipn\u00f3tico guarda estreita rela\u00e7\u00e3o com o amor. Pressup\u00f5e uma capacidade ou um desejo de abandonar-se sem reservas e confiantemente ao Outro. Pressup\u00f5e, para John Bowlby, psicanalista e et\u00f3logo, o conceito de attachement, ( apego) que <i>designa condutas comuns em beb\u00eas humanos ou animais, buscando satisfazer, junto \u00e0 m\u00e3e, sua necessidade de prote\u00e7\u00e3o<\/i>.<a style=\"mso-footnote-id: ftn12;\" title=\"\" href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a> Esta necessidade, t\u00e3o importante quanto a alimenta\u00e7\u00e3o e a atividade sexual, tende a enfraquecer-se \u00e0 medida em que o beb\u00ea se torne um adulto, mas \u00e9 sempre pass\u00edvel de retornar na vig\u00eancia de situa\u00e7\u00f5es de instabilidade que possam irromper ao longo da vida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: .5in; line-height: 150%;\">\u00c9 precisamente aquilo que fica como marca deste desamparo primordial, que vai deixar uma brecha para o estabelecimento da transfer\u00eancia amorosa e do transe hipn\u00f3tico como possibilidade de abandono de si no Outro. Este amor pr\u00e9-verbal, que caracteriza os la\u00e7os fusionais da rela\u00e7\u00e3o m\u00e3e-beb\u00ea e que ser\u00e1 trabalhado por Winnicott e Balint, entre outros, para entender a psicose e os casos limites como resultado de falhas afetivas na primeira inf\u00e2ncia, ser\u00e1 tamb\u00e9m um instrumento de repara\u00e7\u00e3o e cura, na forma de uma comunica\u00e7\u00e3o emocional, emp\u00e1tica, amorosa, \u00e0 exemplo do holding de Winnicott, entre o terapeuta e o paciente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"margin-left: 0in; text-indent: .5in;\">A experi\u00eancia m\u00edstica e religiosa trabalha a dimens\u00e3o da cura como um processo sempre na depend\u00eancia da f\u00e9. Todos os milagres descritos na literatura do Novo Testamento s\u00e3o marcados pela convic\u00e7\u00e3o de que a f\u00e9 do suplicante \u00e9 o ve\u00edculo para sua cura. \u00c9 a possibilidade de estabelecer este link que atrai para aquele que cr\u00ea, todas as alegrias e perturba\u00e7\u00f5es auferidas atrav\u00e9s desta participa\u00e7\u00e3o com o Divino. A f\u00e9 se expressa num tipo de ades\u00e3o que dispensa o argumento racional, situando-se al\u00e9m do entendimento e aqu\u00e9m da possibilidade de verbaliza\u00e7\u00e3o, o que nos remete ao sentido dado por Bowlby, ao conceito de attachement supra mencionado .<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"margin-left: 0in; text-indent: .5in;\">A consci\u00eancia do profeta indica-lhe o lugar de instrumento atrav\u00e9s do qual a mensagem de Deus se far\u00e1 ouvir.<i> Esta convic\u00e7\u00e3o se funda numa experi\u00eancia misteriosa, digamos m\u00edstica, num contato imediato com Deus. <a style=\"mso-footnote-id: ftn13;\" title=\"\" href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a><\/i><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: .5in; line-height: 150%;\">Contudo, o \u00eaxtase m\u00edstico n\u00e3o \u00e9 excessivamente valorizado pelo discurso religioso, nem mesmo \u00e9 colocado como um estado a ser perseguido, ao contr\u00e1rio, deve ser visto com reservas, pois representa um risco de queda nas armadilhas da vaidade, nos equ\u00edvocos dos sentidos. Reconhece-se, contudo, que <i>\u00a0esta interven\u00e7\u00e3o de Deus na alma do profeta coloca-o num estado psicol\u00f3gico supranormal. Neg\u00e1-lo, seria rebaixar o esp\u00edrito prof\u00e9tico ao n\u00edvel da inspirac\u00e3o do poeta, ou das ilus\u00f5es dos pseudo-inspirados<\/i>. <a style=\"mso-footnote-id: ftn14;\" title=\"\" href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">[14]<\/a><\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"margin-left: 0in; text-indent: .5in;\">O \u00eaxtase m\u00edstico e, em especial, os estigmatas, despertam e agu\u00e7am a curiosidade cient\u00edfica. At\u00e9 que ponto estes fen\u00f4menos pertencem \u00e0 esfera do enigma ou do mist\u00e9rio?<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent\">O foco est\u00e1 frequentemente colocado na diferencia\u00e7\u00e3o entre os verdadeiros e os falsos estigmatas. A necessidade de tal diferencia\u00e7\u00e3o \u00e9 bastante \u00f3bvia e, se por um lado a Igreja cat\u00f3lica j\u00e1 tem rigorosos mecanismos de an\u00e1lise e verifica\u00e7\u00e3o dos fen\u00f4menos apresentados como sobrenaturais, h\u00e1 ainda os cientistas empenhados em provar a inexist\u00eancia de tais fen\u00f4menos. No interesse de minha argumenta\u00e7\u00e3o, torna-se necess\u00e1rio distinguir alguns n\u00edveis de problemas: 1) a simula\u00e7\u00e3o consciente 2) a simula\u00e7\u00e3o inconsciente, na qual a pessoas em estado de transe se auto infligiria os sinais e passado o transe n\u00e3o se lembraria de nada 3) o surgimento espont\u00e2neo comprovado das chagas durante o transe.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: .5in; line-height: 150%;\">Ora, se os estigmatas devem-se \u00e0 uma interven\u00e7\u00e3o direta de Deus como exterioridade ou \u00e0 a\u00e7\u00e3o de um\u00a0 poderoso desejo inconsciente de receber os sinais, n\u00e3o \u00e9 o que me causa e instiga, at\u00e9 mesmo porque minha tend\u00eancia seria n\u00e3o operar uma separa\u00e7\u00e3o radical entre o sujeito amoroso e o objeto fortemente investido por ele. De todo modo, haver\u00e1 sempre alguma participa\u00e7\u00e3o consciente ou inconsciente, na forma de uma <i>passividade ativa<\/i>, na rela\u00e7\u00e3o com este grande Outro arrebatador. O que me interessa neste \u00faltimo ponto, \u00e9 chamar a aten\u00e7\u00e3o para os estados alterados de consci\u00eancia ou estados psicol\u00f3gicos supranormais, para utilizar o termo mencionado acima.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: .5in; line-height: 150%;\">O que se passa no tr\u00e2nsito estritamente relacional entre o ps\u00edquico, o som\u00e1tico e o trans-psicosom\u00e1tico do par envolvido na situa\u00e7\u00e3o do transe de tal forma que as altera\u00e7\u00f5es de consci\u00eancia encontrem um correlato no corpo, fazendo brotar, na carne, o efeito de uma \u00f3rdem comandada por aquele que induz e controla o transe do outro? Eis uma pertubadora quest\u00e3o hist\u00f2ricamente desacreditada e relegada pela ci\u00eancia.<a style=\"mso-footnote-id: ftn15;\" title=\"\" href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\">[15]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"margin-left: 0in; text-indent: .5in;\">Ap\u00f3s o col\u00f3quio de Cerysi,\u00a0 foi fundado um laborat\u00f3rio de hipnose com a finalidade de criar um espa\u00e7o de pesquisa que pudesse ancorar, empiricamente, as quest\u00f5es levantadas durante o col\u00f3quio. Esses experimentos demonstraram que, sob transe hipn\u00f3tico, vale lembrar, sob a viv\u00eancia de absoluta confian\u00e7a que permite o abandono de si e a entrega irrestrita ao Outro, tamb\u00e9m foi poss\u00edvel abrir uma ves\u00edcula nas m\u00e3os de uma paciente, apenas apelando para o poderoso efeito da sugest\u00e3o durante o transe. Poderoso instrumento de transforma\u00e7\u00e3o esta entrega amorosa, que pode produzir a cura e o adoecimento, revelando-os no corpo, a partir destes ainda nebulosos estados alterados de consci\u00eancia, fen\u00f4menos que concernem tamb\u00e9m os campos da f\u00edsica qu\u00e2ntica, da biologia molecular, da neuroci\u00eancia e de quantos outros discursos pudermos\u00a0 dispor para lan\u00e7ar alguma luz sobre este campo complexo e enigm\u00e1tico que envolve os estados alterados de consci\u00eancia.<a style=\"mso-footnote-id: ftn16;\" title=\"\" href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\">[16]<\/a><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: .5in; line-height: 150%;\">Apenas uma coisa parece coincidir, quando falamos dos diferentes \u00eaxtases, seja o m\u00edstico, o hipn\u00f3tico, ou aquele que tamb\u00e9m parece agir em doses homeop\u00e1ticas na transfer\u00eancia anal\u00edtica: uma experi\u00eancia amorosa que possibilite, em maior ou menor n\u00edvel, o abandono de si e uma entrega absoluta ao Outro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: .5in; line-height: 150%;\">O discurso m\u00edstico afirma que estes fen\u00f4menos n\u00e3o s\u00e3o acess\u00edveis ao entendimento, sendo portanto da \u00f3rdem do mist\u00e9rio. Por\u00e9m, do ponto de vista hist\u00f3rico, muitos fen\u00f4menos que eram considerados como mist\u00e9rios, revelaram-se ser enigmas pass\u00edveis de decifra\u00e7\u00e3o. O que deve ser evitado, \u00e9 o reducionismo e a simplifica\u00e7\u00e3o que beira, por vezes, o desrespeito. Por se tratarem de fen\u00f4menos de extrema complexidade, devem ser abordados com a dimens\u00e3o que merecem. A humildade e a responsabilidade do homem de ci\u00eancia precisa ser exercitada e desenvolvida.\u00a0 Joaquim Bouflet<a style=\"mso-footnote-id: ftn17;\" title=\"\" href=\"#_ftn17\" name=\"_ftnref17\">[17]<\/a>, consultor do Vaticano na Congrega\u00e7\u00e3o das causas dos Santos, entende que o que se exige de um homem de ci\u00eancia, n\u00e3o \u00e9 que ele acredite em milagres, mas que possa se render ao fato de que, por enquanto, n\u00e3o se encontre explica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica para alguns casos de estigmatas. Que o reconhecimento do sobrenatural seja pelo menos relativo e que o fen\u00f4meno possa ser situado, em outro <i>n\u00edvel de realidade<\/i>, conceitua\u00e7\u00e3o t\u00e3o cara a Basarab Nicolescu, f\u00edsico e pensador das ci\u00eancias da complexidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: .5in; line-height: 150%;\">Assim, se os conhecimentos sobre a histeria podem ter contribu\u00eddo para a elucidar os\u00a0 casos de falsos estigmatizados, reduzir todos os casos de estigmatas \u00e0 manifesta\u00e7\u00f5es hist\u00e9ricas revela, no m\u00ednimo, um estreitamento de pensamento. Dominique de Courcelles, pesquisadora do CNRS, nos invoca a refletir sobre o tema, sem anacronismos ou id\u00e9ias preconcebidas. O que est\u00e1 em causa no familiar estranhamento produzido pelos estigmatas? Na introdu\u00e7\u00e3o da revista L\u2019Herne de n\u00ba 75, publica\u00e7\u00e3o transdisciplinar exclusivamente dedicada aos estigmatas, Dominique pergunta-se por que esta quest\u00e3o n\u00e3o foi ainda suficientemente colocada e tratada pelas tr\u00eas religi\u00f5es monote\u00edstas?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: .5in; line-height: 150%;\">Interroga-se ainda, sobre o que se passa neste encontro entre um corpo enigma que faz falar o Outro e um corpo que se torna ele mesmo linguagem. O corpo que sofre, o que ele coloca em jogo na confronta\u00e7\u00e3o do corporal e do espiritual, do humano e do divino? A mim interessa tamb\u00e9m particularmente, a rela\u00e7\u00e3o entre amor e sofrimento, especialmente, sofrimento corporal, visto que o estigmata \u00e9 percebido pelos m\u00edsticos, como prova contundente do amor de Deus. Que o encontro amoroso com Deus, implique repetir e inscrever em seu pr\u00f3prio corpo, o mart\u00edrio do Amado, n\u00e3o me parece ser uma necessidade, mas antes, um desejo daquele que ama. O \u00eaxtase amoroso, qualquer que seja ele,\u00a0 engendra simultaneamente sofrimento e gozo, mas pode tamb\u00e9m libertar para a compreens\u00e3o da alteridade. Confunde-se frequentemente o amor com possess\u00e3o, no duplo sentido mesmo de possuir e de ser possu\u00eddo. A autenticidade do amor implica a possibilidade de abertura para o Outro, <i>deixar-se contaminar pela verdade do outro (\u2026) encontrar sua verdade atrav\u00e9s da alteridade.<\/i><a style=\"mso-footnote-id: ftn18;\" title=\"\" href=\"#_ftn18\" name=\"_ftnref18\"><i>[18]<\/i><\/a><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: .5in; line-height: 150%;\">Morin nos diz que<i> \u00e9 preciso assumir o amor<\/i>. Se o amor\u00a0 \u00e9 tamb\u00e9m, primitivamente, necessidade de calor e aconchego frente ao desamparo de um mundo frio que se abre para o rec\u00e9m nascido mam\u00edfero, se al\u00e9m disto, a necessidade reprodutiva constitui ainda um outro fundamento biol\u00f3gico que nos impele \u00e0 aproxima\u00e7\u00e3o, o que se passa no processo civilizat\u00f3rio, para que haja hoje uma necessidade de sermos conclamados a assumir o amor?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: .5in; line-height: 150%;\">Edith Stein, judia convertida ao catolicismo, nascida em 1881 e morta em 1942 em Auschwitz, pela intoler\u00e2ncia nazista, fil\u00f3sofa renomada identificada \u00e0 fenomenologia de Hussel, enfrentou todos os desafios e preconceitos que concerniam o lugar da mulher no mundo e, em seguida, ao fato de ser uma judia alem\u00e3, na vig\u00eancia do nazismo. Mulher inquieta e de personalidade forte, buscou intensamente a verdade que se fez revelar para ela atrav\u00e9s do di\u00e1rio de Santa Tereza de \u00c1vila. Sustentou \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias, a fidelidade \u00e0 sua f\u00e9 cat\u00f3lica e ao amor por sua judeidade, arcando com as dificuldades impostas por seus anseios de extens\u00e3o e transbordamento de seu pertencimento. Mulher, intelectual, judia alem\u00e3 e cat\u00f3lica, Teresa Benedita da Cruz, quer exceder os campos delimitados para sua a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"margin-left: 0in; text-indent: .5in;\">Madre Teresa de Calcut\u00e1, esta albanesa nascida em 1910, decidiu-se cedo, ainda na adolesc\u00eancia, pela consagra\u00e7\u00e3o total a Deus e sonhou desde ent\u00e3o com um trabalho mission\u00e1rio na \u00cdndia, tendo se naturalizado indiana para facilitar o melhor desempenho de suas tarefas. No dia 10 de setembro de 1946, marcado em sua hist\u00f3ria como o &#8220;dia da inspira\u00e7\u00e3o&#8221;, recebe uma clar\u00edssima ilumina\u00e7\u00e3o interior: dedicar a sua vida aos mais pobres dos pobres. Ap\u00f3s longa e dolorosa medita\u00e7\u00e3o,\u00a0 pergunta-se o que poderia<i>, concretamente<\/i> fazer por estes infelizes? Desde ent\u00e3o, conjulgando humildade e alegria com simplicidade, fervor e persist\u00eancia, lutou incansavelmente para fundar sua pr\u00f3pria congrega\u00e7\u00e3o e aproximar-se daquilo que considerou sua miss\u00e3o: a dedica\u00e7\u00e3o aos mais pobres dos pobres, o que fez principalmente atrav\u00e9s do lar infantil Sishi Bavan (Casa da Esperan\u00e7a) e de seu famoso &#8220;Lar para Moribundos&#8221;, em Kalighat.\u00a0 Pr\u00eamio Nobel da Paz em 1979, Madre Teresa morreu em 1997, foi beatificada em 2002, em\u00a0 processo que logrou um tempo r\u00e9corde na hist\u00f3ria do Vaticano.<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"margin-left: 0in; text-indent: .5in;\">Estas duas mulheres, parecem ter superado o antagonismo que obriga a escolher entre a dureza do real e o encantamento do ideal. Boris Cyrulnik afirma que o real desdiz o \u00eaxtase: <i>O amor paix\u00e3o tem de arder no ideal, na emo\u00e7\u00e3o ca\u00edda do c\u00e9u, no ind\u00edcio despertado pelo outro. \u00c9 preciso que o amor paix\u00e3o seja passivo, porque qualquer a\u00e7\u00e3o introduziria o trabalho e o real desencantador\u2026 o real e suas leis tornam-se perseguidores, impedem o \u00eaxtase<a style=\"mso-footnote-id: ftn19;\" title=\"\" href=\"#_ftn19\" name=\"_ftnref19\">[19]<\/a> <\/i>Como tornar poss\u00edvel a conviv\u00eancia entre real e ideal, a\u00e7\u00e3o e devo\u00e7\u00e3o, ativo e passivo, vida e morte? Este parece ser o desafio.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: .5in; line-height: 150%;\">O sentimento amoroso \u00e9 universal, mas a hist\u00f3ria do amor \u00e9 particular e se atualiza atrav\u00e9s de vincula\u00e7\u00f5es que, por sua vez, s\u00e3o determinadas por press\u00f5es s\u00f3cio-culturais. \u00c9 a domestica\u00e7\u00e3o da vida amorosa pela civiliza\u00e7\u00e3o que vai <i>tecer o elo da vincula\u00e7\u00e3o<\/i> e, ao mesmo tempo, legislando sobre a natureza dos v\u00ednculos, destr\u00f3i o \u00edmpeto, el\u00e3 vital que\u00a0 sustenta a a\u00e7\u00e3o e impede a acomoda\u00e7\u00e3o imposta pelo inexor\u00e1vel retorno ao inanimado. Este \u00e9 o desafio, utilizar a pot\u00eancia do amor como sentimento universal, para extrair dele sua for\u00e7a de transforma\u00e7\u00e3o, consentir no v\u00ednculo sem desvalorizar a incandesc\u00eancia e ainda, como se n\u00e3o fosse pouco, n\u00e3o deixar enlouquecer o amor, fazendo dele simultaneamente submetimento e possibilidade de escape ao enquadramento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: .5in; line-height: 150%;\">Saber fazer do real, da a\u00e7\u00e3o\u00a0 e da necessidade de transforma\u00e7\u00e3o do real, um ideal amoroso a ser perseguido como aquele primeiro objeto perdido no universo de nossos sentidos. Eis o que nos ensinam as vidas destas duas mulheres, profetas do amor, art\u00edfices da resist\u00eancia, da indigna\u00e7\u00e3o e da paci\u00eancia conjugadas na luta pela dignidade da vida humana em toda a sua diversidade cultural. Se pudermos aprender alguma coisa com elas, estaremos mais pr\u00f3ximos deste ideal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: .5in; line-height: 150%;\">Obrigada a todos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"margin-left: 0in; text-indent: .5in;\"><b>\u00a0<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr align=\"left\" size=\"1\" width=\"33%\" \/>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn1;\" title=\"\" href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Prado, Ad\u00e9lia, Poesia reunida, ARX, S. Paulo, 1991<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn2;\" title=\"\" href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Morin, E. Amor, poesia e Sabedoria. Editora Bertrand Brasil, 1998, Rio de Janeiro, p.15<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn3;\" title=\"\" href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Id. Ibid p.17<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn4;\" title=\"\" href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> \u2018Josaphat, Carlos As santas Doutoras:espiritualidade e emancipa\u00e7\u00e3o da Mulher , Paulinas, S. Paulo, 1998<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn5;\" title=\"\" href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Bougnoux, Daniel (direction) Colloque de Cerisy: La sugestion, l\u2018ypnose, influense, transe. Collection Les emp\u00eacheurs de penser en rond.<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn6;\" title=\"\" href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Nome religioso adotado por Edith Stein<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn7;\" title=\"\" href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Stinissen, Wilfried A Noite escura segundo S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz, Edi\u00e7\u00f5es Loyola, S. Paulo, 2001, p.60<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn8;\" title=\"\" href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Id. Ibid. p.62<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn9;\" title=\"\" href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Id. Ibid p.62\/63<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn10;\" title=\"\" href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> Id. Ibid. p.27<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn11;\" title=\"\" href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> Id. Ibid.<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn12;\" title=\"\" href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> Id. Ibid. p.28<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn13;\" title=\"\" href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> Gorgulho, Gilberto da Silva Storniolo, Ivo, Anderson, Ana Flora, B\u00edblia de Jerusal\u00e9m, Ed.Paulinas, S. Paulo,1989, p.1331<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn14;\" title=\"\" href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a> Id. Ibid.<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn15;\" title=\"\" href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">[15]<\/a> Ver tamb\u00e9m sobre este assunto Nathan,Tobie, L\u2018 Influence qui gu\u00e9rit Editions Odile Jacob<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn16;\" title=\"\" href=\"#_ftnref16\" name=\"_ftn16\">[16]<\/a> Ver tamb\u00e9m sobre este assunto Stengers, Isabelle ( direction) Importance de l\u2018hypnose, collection les emp\u00eacheurs de penser en ronde.<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn17;\" title=\"\" href=\"#_ftnref17\" name=\"_ftn17\">[17]<\/a> Courcelles, Dominique ( direction) Les Cahiers de L\u2018Herne, n\u00ba 75, Stigmates<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn18;\" title=\"\" href=\"#_ftnref18\" name=\"_ftn18\">[18]<\/a> Id. Ibid. p.30\/1<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn19;\" title=\"\" href=\"#_ftnref19\" name=\"_ftn19\">[19]<\/a> Cyrulnik, Boris, Sob o Signo do Afeto, Instituto Piaget, Lisboa, 1989, p. 165<\/p>\n<p><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Autora: Tereza Mendon\u00e7a Estarque &nbsp; &nbsp; EDITH STEIN e MADRE TERESA DE CALCUT\u00c1: PROFETAS DO AMOR &nbsp; &nbsp; Amor e morte s\u00e3o casados &nbsp; E moram no abismo trevoso &nbsp; Seus filhos, &nbsp; O que se chama Fel\u00edcitas &nbsp; Tem o apelido de Fel &nbsp; (Ad\u00e9lia\u00a0 Prado\/ a seduzida)[1] &nbsp; &nbsp; O amor proporcionou-me a [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-91","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-textos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/iecomplex.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/91","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/iecomplex.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/iecomplex.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/iecomplex.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/iecomplex.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=91"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/iecomplex.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/91\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":826,"href":"https:\/\/iecomplex.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/91\/revisions\/826"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/iecomplex.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=91"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/iecomplex.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=91"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/iecomplex.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=91"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}