{"id":100,"date":"2015-10-09T23:56:08","date_gmt":"2015-10-09T23:56:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iecomplex.com.br\/inveja-e-pulsao-do-conhecimento\/"},"modified":"2023-12-25T13:36:13","modified_gmt":"2023-12-25T13:36:13","slug":"inveja-e-pulsao-do-conhecimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/iecomplex.com.br\/es\/inveja-e-pulsao-do-conhecimento\/","title":{"rendered":"Tereza Estarque Palestra proferida na PUCRJ na mesa Inveja e Puls\u00e3o do Conhecimento (2000)"},"content":{"rendered":"<p>Autora: Tereza Mendon\u00e7a Estarque, Psicanalista, Doutora em Ci\u00eancias Sociais PUCSP, Fundadora e Presidente do Instituto de Estudos da Complexidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><b><strong><em>Homo Creator <\/em>\u00a0: um invejoso de Deus?<\/strong><\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: .5in; line-height: 150%;\">Aproveito este nosso encontro para colocar em discuss\u00e3o algumas indaga\u00e7\u00f5es que v\u00eam me ocupando. Na trajet\u00f3ria desta apresenta\u00e7\u00e3o, farei inicialmente uma breve conceitua\u00e7\u00e3o da inveja, diferenciando-a de outros dois pecados capitais: o orgulho e a cobi\u00e7a. Em seguida tentarei chegar \u00e0 um ponto que me interessa, que \u00e9 a <i>puls\u00e3o do conhecimento<\/i>, relacionada desde o mito b\u00edblico da cria\u00e7\u00e3o, com o pecado de Ad\u00e3o, entendido como pecado de n\u00e3o submiss\u00e3o \u00e0 autoridade de Deus, por orgulho. Gostaria de poder pensar com voc\u00eas, por que as atividades do <i>homo creator<\/i> <a style=\"mso-footnote-id: ftn1;\" title=\"\" href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> v\u00eam sendo identificadas, no imagin\u00e1rio social, como um pecado de orgulho, inveja e cobi\u00e7a em relac\u00e3o aos bens divinos.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: .5in; line-height: 150%;\">Falo inicialmente de orgulho, porque este \u00e9 considerado a fonte geral de todos os pecados e dele derivam todos os outros. Por isto, \u00e0s vezes fica dif\u00edcil a gente saber se \u00e9 exatamente de inveja ou de orgulho que se trata, \u00e0s vezes fica meio confuso, porque um deriva do outro.Assim, no verbete sobre o orgulho, do Dictionaire Th\u00e9ologique Catholique, o orgulho \u00e9 o primeiro pecado do anjo e tamb\u00e9m, o pecado do 1\u00ba homem, pecado de n\u00e3o submiss\u00e3o \u00e0 autoridade de Deus. No verbete sobre a inveja,\u00a0 \u00e9 pela inveja do dem\u00f4nio que o pecado entrou no mundo.Ou seja, a inveja aparece ligada \u00e0 id\u00e9ia de rivalidade.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: .5in; line-height: 150%;\">Para tentar aclarar esta confus\u00e3o, tomei em meu aux\u00edlio uma conceitua\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino, que fala da <i>inveja como uma tristeza, como um sentimento de infelicidade diante da felicidade alheia, ou da felicidade diante da infelicidade alheia<\/i>.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: .5in; line-height: 150%;\">O invejoso n\u00e3o necessariamente quer o que o outro tem, n\u00e3o necessariamente quer destruir o outro, embora possa faz\u00ea-lo atrav\u00e9s de intrigas, maledic\u00eancias ou mesmo concretamente, como foi o caso de Caim e Abel.O que o invejoso realmente quer \u00e9 que o outro n\u00e3o tenha. A inveja requer compara\u00e7\u00e3o entre o Eu e o Outro e implica o desejo de suprimir as diferen\u00e7as. \u00c9 uma maneira de nivelar por baixo: se eu n\u00e3o posso ter, n\u00e3o suporto conviver com algu\u00e9m que tenha. A cobi\u00e7a, ao contr\u00e1rio, nivela por cima: se o outro tem, eu tamb\u00e9m quero ter. A cobi\u00e7a tem uma pot\u00eancia, \u00e9 produtiva, comporta um desejo e pode at\u00e9 mesmo comportar uma dose de sa\u00fade, se o pre\u00e7o da conquista n\u00e3o implicar o apagamento de princ\u00edpios \u00e9ticos fundamentais.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: .5in; line-height: 150%;\">Por isto eu gosto muito desta aproxima\u00e7\u00e3o entre inveja e tristeza, feita por S. Tom\u00e1s de Aquino, porque penso que a inveja seja da \u00f3rdem da impot\u00eancia. A inveja lan\u00e7a no marasmo e se houver produ\u00e7\u00e3o, ser\u00e1 sempre da \u00f3rdem de um ataque ao outro, pois trata-se de regozijar-se com a infelicidade do outro.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: .5in; line-height: 150%;\">Kant tem uma frase que \u00e9 terr\u00edvel, porque \u00e9 incrivelmente verdadeira e corajosa. Ele diz assim:<i>H\u00e1 algo, na infelicidade de nossos melhores amigos, que n\u00e3o nos desagrada completamente<\/i>.Kant \u00e9 muito feliz nesta formula\u00e7\u00e3o, pois n\u00e3o se trata de uma felicidade ruidosa, mas de um prazerzinho silencioso que pode irromper \u00e0 consci\u00eancia para ser imediatamente afastado e repudiado, porque \u00e9 um sentimento vergonhoso, ambivalente, produtor de culpa e muito doloroso para o ser humano.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: .5in; line-height: 150%;\">Quando pensamos em Kant, esbarramos inevitavelmente na quest\u00e3o dos universais, pois existe sempre uma discuss\u00e3o neste sentido, se a inveja seria um sentimento universal ou seja, um sentimento pr\u00f3prio da Natureza Humana.N\u00e3o pretendo discutir isto aqui, pois nos levaria longe demais, mas se pensarmos na inveja como uma forma de rivalidade, observamos que estes sentimentos est\u00e3o na base de quase todos os mitos constitutivos da grande maioria das culturas.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: .5in; line-height: 150%;\">Estas constru\u00e7\u00f5es culturais est\u00e3o condicionadas, quase sempre, pelo modelo m\u00edtico fechado, descrito por Albin Lesky. Este modelo obedece a uma sequ\u00eancia de fatos que se repete segundo uma \u00f3rdem pr\u00e9-fixada e inalter\u00e1vel, funcionando como alicerce da moralidade. Esta sequ\u00eancia de fatos compreende: um ato de transgress\u00e3o ou ultrapassamento de um limite estabelecido, interpretado como pecado de orgulho, inveja ou cobi\u00e7a, seguido de castigo, sentimento de culpa e desejo de repara\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: .5in; line-height: 150%;\">Neste caso, o amor, amor ao pr\u00f3ximo, \u00e9 visto como uma aquisi\u00e7\u00e3o da cultura.Podemos dizer que, para a psican\u00e1lise, o amor \u00e9 algo que adv\u00e9m e se superp\u00f5e \u00e0 um mal radical inicial. De forma parecida, Morin, em seu <i>evangelho da perdi\u00e7\u00e3o<\/i>, insiste em falar de uma \u00e9tica da solidariedade entre irm\u00e3os que se unem, n\u00e3o por um desejo espont\u00e2neo de serem salvos, mas porque j\u00e1 est\u00e3o perdidos. Maria Ritha Kehl, por sua vez, reuniu textos que indagam sobre a exist\u00eancia ou n\u00e3o de uma <i>Fun\u00e7\u00e3o Fraterna<\/i> .Por outro lado, no livro de Maturana e Varela, <i>A \u00e1rvore do conhecimento<\/i>, sustenta-se a exist\u00eancia de uma <i>puls\u00e3o solid\u00e1ria prim\u00e1ria<\/i>, de car\u00e1ter instintivo e, portanto, biol\u00f3gico.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: .5in; line-height: 150%;\">A psican\u00e1lise de Freud serviu-se do mito de \u00c9dipo Rei, onde est\u00e3o presentes a inveja, a rivalidade e o parric\u00eddio, para pensar o sujeito neur\u00f3tico da civiliza\u00e7\u00e3o. Deve-se considerar que, tanto a rivalidade quanto o parric\u00eddio, foram atos inconscientes no caso da trag\u00e9dia de \u00c9dipo enquanto que o pecado, se eu estiver equivocada pe\u00e7o a ajuda dos\u00a0 te\u00f3logos\u00a0 aqui presentes, ele \u00e9 sempre consciente, seja um ato, um desejo, um pensamento ou sentimento, s\u00f3 h\u00e1 pecado em presen\u00e7a de consci\u00eancia.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: .5in; line-height: 150%;\">Junito Brand\u00e3o nos sinaliza que <i>jamais um poeta tr\u00e1gico p\u00f4s em cena um parric\u00eddio consciente.<\/i> \u00c9 um pouco forte demais, por isto, aparece sempre como fruto de um erro. Assim temos \u00c9dipo e Laio, Perseu e Acr\u00edsio, Teseu e Egeu, Tel\u00e9gono e Ulisses, P\u00e9lops e En\u00f4mao. Mas h\u00e1 uma coisa que eu gostaria de chamar a atenc\u00e3o, por se tratar de um fato fundamental: mesmo que a falta seja inconsciente, fruto de um erro, e n\u00e3o deliberada, isto n\u00e3o impede o castigo, que \u00e9 inflingido n\u00e3o somente ao sujeito infrator, mas a maldi\u00e7\u00e3o se transmite de gerac\u00e3o para gera\u00e7\u00e3o at\u00e9 a extin\u00e7\u00e3o do \u00faltimo membro da linhagem.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: .5in; line-height: 150%;\">Deleuze subverte o modelo ed\u00edpico freudiano, ao dizer que a rivalidade come\u00e7a com o pai e n\u00e3o com a crian\u00e7a. Para ele,<i>\u00c9dipo \u00e9 antes uma paran\u00f3ia do pai do que um desejo neur\u00f3tico do filho.<\/i> Se o filho passa a ter este desejo, \u00e9 por um rebatimento do social sobre a crian\u00e7a.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: .5in; line-height: 150%;\">Os mitos gregos est\u00e3o repletos de filicidas e, na maioria das vezes em que o filho mata o pai, \u00e9 para se defender de um ataque deste.Nesta perspectiva, cabe perguntar, porque um pai limitaria o apetite intelectual de um filho?<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: .5in; line-height: 150%;\">Para ilustrar esta discuss\u00e3o, separei alguns trechos b\u00edblicos do mito da cria\u00e7\u00e3o. \u00c9 Deus quem fala: <i>Mas da \u00e1rvore do conhecimento do bem e do mal n\u00e3o comer\u00e1s.<\/i> Este conhecimento \u00e9 um privil\u00e9gio que Deus se reserva e que o homem usurpar\u00e1 pelo pecado.Na argumenta\u00e7\u00e3o da serpente, figura representativa da tenta\u00e7\u00e3o, ela diz: <i>Deus sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrir\u00e3o e v\u00f3s sereis como Deuses, versados no bem e no mal.<\/i>. No momento da expuls\u00e3o do para\u00edso, ap\u00f3s a desobedi\u00eancia do homem, Deus pondera: <i>Se o homem j\u00e1 \u00e9 como um de n\u00f3s, versado no bem e no mal, que agora ele n\u00e3o estenda a m\u00e3o e colha tamb\u00e9m da \u00e1rvore da vida e coma e viva para sempre.<\/i><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: .5in; line-height: 150%;\">Bem, esta \u00e9 uma quest\u00e3o extremamente atual, pois o homem, atrav\u00e9s do trabalho cient\u00edfico, n\u00e3o poupa esfor\u00e7os em pesquisas sobre a longevidade. Estes trabalhos mobilizam elevados investimentos financeiros que sustentam importantes investiga\u00e7\u00f5es de ponta, sobre o envelhecimento celular. Fala-se em expectativas de vida superiores a quinhentos anos. Mais do que isto, n\u00e3o se trata apenas de prolongar a vida, mas de prolongar a juventude, prevenir o envelhecimento que passa a ser visto como doen\u00e7a. \u00c9 claro que isto se parece mais com fic\u00e7\u00e3o e mitologia\u00a0\u00a0 do que com realidade, mas o fato \u00e9 que estes dom\u00ednios est\u00e3o praticamente emparelhados atualmente. O homem de ci\u00eancia trabalha pela longevidade e pelo prolongamento da juventude, o homem mitol\u00f3gico sempre pagou pelo roubo da ambrosia.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: .5in; line-height: 150%;\">Devemos observar que a id\u00e9ia de rivalidade, de roubo e ultrapassamento de um territ\u00f3rio supostamente proibido est\u00e1 presente, tanto no mito quanto em nosso imagin\u00e1rio social, como nos informam as manchetes exibidas na m\u00eddia: <i>homens brincando de Deus<\/i>, ou ainda, <i>Deuses de jaleco branco<\/i>, <i>homens invadindo o territ\u00f3rio dos Deuses.<\/i><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: .5in; line-height: 150%;\">Ora, na tradi\u00e7\u00e3o b\u00edblica, os primeiros patriarcas viviam mais de 900 anos e no per\u00edodo entre No\u00e9 e Abra\u00e3o, de 200 a 600 anos; j\u00e1 os patriarcas hebreus, de 100 a 200 anos. Na verdade, a dimunui\u00e7\u00e3o do tempo de vida dos homens j\u00e1 \u00e9 consequ\u00eancia da degrada\u00e7\u00e3o do homem pelo progresso do mal.Diante deste estado de coisas, Deus resolve fixar o limite de idade do homem em 120 anos, determinando: <i>Meu esp\u00edrito n\u00e3o se responsabilizar\u00e1 indefinidamente pelo homem, pois ele \u00e9 carne. N\u00e3o viver\u00e1 mais do que 120 anos.<\/i><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: .5in; line-height: 150%;\">Chegamos ent\u00e3o ao momento de nos perguntarmos: Quando o <i>homo crator<\/i>\u00a0 busca a longevidade e o prolongamento da juventude, est\u00e1 se opondo a Deus, cometendo pecado de orgulho e inveja, ou trabalhando a favor de si mesmo? Est\u00e1 afirmando sua pot\u00eancia ou lutando contra a pot\u00eancia de Deus? Dito de outra forma, a puls\u00e3o ou apetite do conhecimento cient\u00edfico podem ser equiparados ao pecado do anjo e \u00e0quele de Ad\u00e3o? Ou isto seria um v\u00edcio de nosso pensamento ocidental, do qual poder\u00edamos tentar nos desvencilhar?<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: .5in; line-height: 150%;\">Ser\u00e1 que n\u00e3o seria poss\u00edvel tentar sair deste eterno registro de compara\u00e7\u00e3o com o Outro e da rivalidade com o Outro? Romper com o modelo m\u00edtico fechado e sua sequ\u00eancia aprisionante de transgress\u00f5es seguidas de castigo, culpa e repara\u00e7\u00e3o? Onde situar nos dias de hoje, a necessidade do sacrif\u00edcio e do her\u00f3i? Ali\u00e1s, no mundo da pesquisa cient\u00edfica, por uma conting\u00eancia da complexidade crescente do conhecimento e da velocidade exigida \u00e0 estes empreendimentos, o her\u00f3i, o inventor solit\u00e1rio, perseverante e abnegado, d\u00e1 lugar \u00e0s equipes e aos trabalhos coletivos.No lugar do her\u00f3i, surge o la\u00e7o social.<\/p>\n<p class=\"MsoBodyText2\">Se tomarmos como ponto de partida outros mitos, ou ainda alguns estudos etol\u00f3gicos sobre culturas fundadas na cooperac\u00e3o e na solidariedade, n\u00e3o poder\u00edamos tentar sair deste registro de pensamento?<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: .5in; line-height: 150%;\">Este imagin\u00e1rio social que identifica as a\u00e7\u00f5es do <i>homo creator<\/i> como um pecado contra Deus, comporta, de forma subjacente, as id\u00e9ias de sacralidade da vida e da natureza e \u00e9 extremamente relevante, pois norteia as legisla\u00e7\u00f5es que regulam a \u00e9tica na pesquisa cient\u00edfica, motivo pelo qual deveriam estar um pouco mais livres deste conte\u00fados mitol\u00f3gicos\u00a0 e mais abertas \u00e0s quest\u00f5es ligadas \u00e0 uma \u00c9tica da Responsabilidade, para mencionar Hans Jonas.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: .5in; line-height: 150%;\">Tanto a engenharia gen\u00e9tica quanto a psican\u00e1lise, est\u00e3o diretamente ligadas \u00e0 quest\u00e3o da filia\u00e7\u00e3o e da transmiss\u00e3o. A psican\u00e1lise trabalha com a possibilidade de diferencia\u00e7\u00e3o. Lembremos que a inveja opera com a comparac\u00e3o e com o desejo de anula\u00e7\u00e3o das diferen\u00e7as. A expectativa do trabalho anal\u00edtico \u00e9 que o sujeito possa deixar de repetir, n\u00e3o s\u00f3 em sua pr\u00f3pria vida, mas tamb\u00e9m no sentido transgeracional, no sentido de interromper a transmiss\u00e3o da maldi\u00e7\u00e3o na linhagem.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: .5in; line-height: 150%;\">Da mesma forma, com a engenharia gen\u00e9tica, h\u00e1 um grande esfor\u00e7o no sentido de interromper a transmiss\u00e3o de doen\u00e7as, pela via de uma diferencia\u00e7\u00e3o na estrutura dos genes respons\u00e1veis pela transmiss\u00e3o destes males.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: .5in; line-height: 150%;\">Uma \u00c9tica da Cria\u00e7\u00e3o passa por um desejo de diferencia\u00e7\u00e3o, o que por vezes, como voc\u00eas sabem, \u00e9 bem dif\u00edcil, pois requer uma disjun\u00e7\u00e3o. Para construir o novo, \u00e9 preciso dissolver o que est\u00e1 estabelecido como senso comum, sem que se tenha, necessariamente e prontamente, um outro consenso para substituir o antigo. Ent\u00e3o fica dif\u00edcil sustentar este momento de suspens\u00e3o e de transi\u00e7\u00e3o entre uma realidade conhecida e uma outra, ainda estranha e obscura. A tend\u00eancia \u00e9, obviamente, agarrar-se ao conhecido e recusar o novo, identificando-o com o mal.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: .5in; line-height: 150%;\">Nesta perspectiva, pensar o <i>homo creator<\/i>\u00a0\u00a0 como um invejoso de Deus, como um imitador sem criatividade, seria enxerg\u00e1-lo com nosso olhar enviesado e conceb\u00ea-lo com um pensamento viciado, condicionado pelo modelo m\u00edtico fechado.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: .5in; line-height: 150%;\">\u00c9 interessante observarmos o que se passa em torno do mito de Prometeu, bastante utilizado para ilustrar algumas quest\u00f5es contempor\u00e2neas em bio\u00e9tica e tecnoci\u00eancia.Voc\u00eas conhecem muito bem o conte\u00fado desta trilogia. Prometeu, aquele que roubou o fogo de Deus para ofert\u00e1-lo ao homem, acaba acorrentado \u00e0 um monte, tendo seu f\u00edgado comido por abutres, condenado por sua ousadia e desobedi\u00eancia \u00e0 este sofrimento eterno e sempre renovado.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: .5in; line-height: 150%;\">\u00a0Ocorre que o mito n\u00e3o termina exatamente assim, ao contr\u00e1rio, na \u00faltima parte desta trilogia, Prometeu se reconcilia com os deuses e passa a morar no Olimpo.Fica ent\u00e3o esta quest\u00e3o instigante: por que este tipo de formac\u00e3o cultural na qual estamos imersos, fez desaparecer a terceira parte da trilogia, omitindo assim um outro desfecho, n\u00e3o fatalista, mas um final conciliado do her\u00f3i com os deuses?<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: .5in; line-height: 150%;\">Da mesma forma, penso que se pudermos nos colocar em outro registro, que n\u00e3o aquele da inveja e da competic\u00e3o desmedida, podemos nos dar o direito de supor um destino n\u00e3o t\u00e3o catastrofista para a cultura tecnocient\u00edfica, onde a id\u00e9ia de uma<i> vingan\u00e7a da natureza<\/i>\u00a0 <i>ou dos deuses<\/i> possa ser substitu\u00edda por uma consci\u00eancia de nossa responsabilidade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 heran\u00e7a e \u00e0 transmiss\u00e3o. Por exemplo, se sabemos que a destrui\u00e7\u00e3o irrefreada da natureza deixar\u00e1 uma heran\u00e7a maldita para nossos filhos e, se temos plena consci\u00eancia disto, ent\u00e3o temos que saber que estes atos conscientes s\u00e3o pecados, pecados da cobi\u00e7a, <i>pecados do capital<\/i>, que devem ser punidos pela lei do homem, no sentido de proteger a transmiss\u00e3o da maldi\u00e7\u00e3o para as gera\u00e7\u00f5es futuras.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: .5in; line-height: 150%;\">Mas n\u00e3o precisamos reduzir a puls\u00e3o ou o apetite do conhecimento \u00e0 um pecado de inveja e cobi\u00e7a, que deve ser severamente reprimido para evitar que sejamos punidos, como acreditam alguns segmentos e posi\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas em bio\u00e9tica. Sabemos ainda, por nossa experi\u00eancia em psican\u00e1lise, da insist\u00eancia do desejo e de suas requintadas habilidades para escapar e se expressar, apesar dos esfor\u00e7os renovados do recalcamento.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: .5in; line-height: 150%;\">Talvez por isto, as legislac\u00f5es atuais sobre \u00e9tica em pesquisa estejam adotando proibi\u00e7\u00f5es tempor\u00e1rias, que dever\u00e3o ser revistas ap\u00f3s alguns anos. Se por um lado as leis morais, como o mandamento <i>n\u00e3o matar\u00e1s<\/i>, eram definitivas e para sempre, os princ\u00edpios \u00e9ticos em ci\u00eancia est\u00e3o sujeitos \u00e0 revis\u00f5es peri\u00f3dicas. Por exemplo, o <i>n\u00e3o clonar\u00e1s<\/i> foi referendado por um per\u00edodo de 5 anos, ap\u00f3s o qual a lei dever\u00e1 ser novamente examinada.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: .5in; line-height: 150%;\">Para concluir, diria que n\u00e3o precisamos reduzir o <i>homo creator<\/i>\u00a0 \u00e0 um invejoso de Deus, assim como n\u00e3o precisamos conceber um Deus paran\u00f3ico que n\u00e3o queira conceder ao filho, o acesso ao conhecimento, desde que este seja feito, repito, dentro dos princ\u00edpios de uma \u00c9tica da Responsabilidade. Talvez possamos subverter a interpreta\u00e7\u00e3o recorrente que pesa sobre este ato de cria\u00e7\u00e3o, visto sempre como transgress\u00e3o. Talvez possamos inventar um final diferenciado para esta hist\u00f3ria, um final que liberte o <i>homo creator<\/i>\u00a0 da maldic\u00e3o do Destino e da rivalidade com os Deuses e o fa\u00e7a art\u00edfice de uma outra cultura, orientada para o devir e para a solidariedade entre os pares.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: .5in; line-height: 150%;\">Obrigada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">Tereza Mendon\u00e7a Estarque, Psicanalista, Doutora em Ci\u00eancias Sociais pela PUCSP,\u00a0 Coordenadora do N\u00facleo para o Pensamento Complexo R. J.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr align=\"left\" size=\"1\" width=\"33%\" \/>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn1;\" title=\"\" href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> o conceito de homo creator foi formulado em minha tese de doutoramento na PUCSP e \u00e9 ancorado na id\u00e9ia de\u00a0 o homo sapiens demens\u00a0 de Edgard Morin, ganhando, em minha formula\u00e7\u00e3o, a especificidade conceitual de sua habilidade atual para reprogramar a vida atrav\u00e9s da engenharia gen\u00e9tica.<\/p>\n<p><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Autora: Tereza Mendon\u00e7a Estarque, Psicanalista, Doutora em Ci\u00eancias Sociais PUCSP, Fundadora e Presidente do Instituto de Estudos da Complexidade. Homo Creator \u00a0: um invejoso de Deus? &nbsp; Aproveito este nosso encontro para colocar em discuss\u00e3o algumas indaga\u00e7\u00f5es que v\u00eam me ocupando. Na trajet\u00f3ria desta apresenta\u00e7\u00e3o, farei inicialmente uma breve conceitua\u00e7\u00e3o da inveja, diferenciando-a de outros [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-100","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-textos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/iecomplex.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/100","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/iecomplex.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/iecomplex.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/iecomplex.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/iecomplex.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=100"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/iecomplex.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/100\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":824,"href":"https:\/\/iecomplex.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/100\/revisions\/824"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/iecomplex.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=100"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/iecomplex.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=100"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/iecomplex.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=100"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}