{"id":105,"date":"2015-10-09T23:56:08","date_gmt":"2015-10-09T23:56:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iecomplex.com.br\/narradores-do-sensivel-claude-levi-strauss-e-merleau-ponty\/"},"modified":"2023-12-25T13:36:13","modified_gmt":"2023-12-25T13:36:13","slug":"narradores-do-sensivel-claude-levi-strauss-e-merleau-ponty","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/iecomplex.com.br\/es\/narradores-do-sensivel-claude-levi-strauss-e-merleau-ponty\/","title":{"rendered":"Narradores do sens\u00ccvel; Claude L\u00c8vi-Strauss e Merleau-Ponty"},"content":{"rendered":"<p>    <\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" align=\"center\" style=\"text-align:center;mso-outline-level:&#10;1\"><b style=\"mso-bidi-font-weight:normal\">E assim se passaram 100 anos<\/b>.<\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoNormal\" align=\"center\" style=\"text-align:center;mso-outline-level:&#10;1\"><i style=\"mso-bidi-font-style:normal\">Edgard de Assis Carvalho, professor de titular de Antropologia, PUCSP.<\/p>\n<p\/><\/i><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" align=\"center\" style=\"text-align:center;mso-outline-level:&#10;1\"><i style=\"mso-bidi-font-style:normal\">Mar\u00c1o de 2008.<\/p>\n<p\/><\/i><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><i style=\"mso-bidi-font-style:normal\"><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/i><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;text-indent:36.0pt;line-height:&#10;150%\">O ano de 1908 foi de converg\u00cdncias e sincronicidades. Nasceram Claude L\u00c8vi-Strauss e Maurice Merleau-Ponty. Simone de Beauvoir tamb\u00c8m veio ao mundo nessa data. Isso na Fran\u00c1a. Merleau-Ponty partiu em 1962, Simone, o Castor como era tratada na intimidade, em 1986, seis anos ap\u00dbs a morte de Jean-Paul Sartre.\u2020 Aqui no Brasil, deixava a conviv\u00cdncia dos vivos o nosso Machado de Assis. Aos 100 anos, L\u00c8vi-Strauss permanece na ativa, desafiando pesquisadores, comentadores, cr\u00ccticos.\u2020 Por coincid\u00cdncia ou n\u201eo, estamos diante de quatro pensadores fulgurantes, cujas obras ter\u201eo muito a dizer para a nossa e as gera\u00c1\u0131es futuras desse s\u00c8culo 21 globalizado, \u2020tir\u201anico, intolerante, l\u00ccq\u00b8ido e, simultaneamente, esperan\u00c1oso e civilizat\u00dbrio.<\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;text-indent:36.0pt;line-height:&#10;150%\">Centen\u00b7rios sempre provocam comemora\u00c1\u0131es, exposi\u00c1\u0131es, col\u00dbquios como esse <i style=\"mso-bidi-font-style:normal\">Narradores do sens\u00ccvel<\/i> voltado para L\u00c8vi-Strauss e Merleau-Ponty. O que h\u00b7 de comum entre os dois? Obstinadamente apaixonados pela liberdade, ambos ultrapassam fronteiras disciplinares, desfazem barreiras entre ci\u00cdncias e artes.\u2020 Universalistas, s\u201eo autores de uma obra multidimensional que nos faz meditar sobre os percal\u00c1os da condi\u00c1\u201eo humana em sua aventura na Terra.<\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;text-indent:36.0pt;line-height:&#10;150%\">Fazer Antropologia, diz Merleau-Ponty, exige um longo processo de transforma\u00c1\u201eo de si mesmo, para que o contato com o outro n\u201eo seja cercado de exotismos e relativismos complacentes. Al\u00c8m disso,\u2020 o antrop\u00dblogo deve entender que n\u201eo \u00c8 um objeto particular o que define sua especialidade, mas uma maneira de pensar que combina universal e particular, singular e plural.<\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\">Desde 1949, L\u00c8vi-Strauss passou a fustigar a fronteira entre natureza e a cultura, fato in\u00c8dito para uma Antropologia que se gabava de harmonias funcionalistas e neo-evolucionismos classificat\u00dbrios. Claro que a ling\u00b8\u00ccstica \u00c8 fundamental em suas id\u00c8ias,\u2020 claro tamb\u00c8m que, apesar de detestar viagens, sua vinda aos tristes tr\u00dbpicos, entre 1935 e 1937, como integrante da miss\u201eo francesa, fornece pistas para o entendimento e decifra\u00c1\u201eo da rela\u00c1\u201eo vida e id\u00c8ias. <\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent\">Muitos anos mais tarde, em 1994 e 1996, com a discri\u00c1\u201eo que lhe \u00c8 peculiar, ao falar das saudades\u2020 que sente do Brasil e, em especial, da cidade de S\u201eo Paulo, s\u201eo as imagens fotogr\u00b7ficas que se superp\u0131em \u2021 narrativa escrita. O que elas transmitem, afirma L\u00c8vi-Strauss, \u00c8 a impress\u201eo de um vazio, de uma falta. Ou seja, por mais t\u00c8cnicas que sejam, as fotografias n\u201eo captam o fluxo da vida. Paralisam o tempo, congelam o acontecimento. Redescobri-las implica exercitar a sensibilidade, excitar a mente, perceber a instabilidade e a descontinuidade da hist\u00dbria.<\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;text-indent:36.0pt;line-height:&#10;150%\">Os processos hist\u00dbricos, por\u00c8m, s\u00db adquirem inteligibilidade por meio do conceito de estrutura. Resta saber como os homens percebem e vivem o mundo dos acontecimentos. N\u201eo se d\u201eo conta deles. H\u00b7 algo recalcado, recalcitrante, inerte, inconsciente, situado nas profundezas da alma que impede que isso seja feito. A estrutura reorganiza a ordem vivida, \u00c8 propriedade do real que passa a ser visto de maneira mais elegante e fina. Tem duas faces, como o deus Jano do pante\u201eo romano, representado por dois rostos que se op\u0131em, um que olha para frente, outro para tr\u00b7s.<\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;text-indent:36.0pt;line-height:&#10;150%\">Como o pensamento sempre pensa bem, a sensibilidade entra em a\u00c1\u201eo, \u2021s turras com os mandos e desmandos da raz\u201eo. Raz\u201eo e sensibilidade s\u201eo faces da mesma moeda, como os dois rostos de Jano.\u2020 Por mais que se queira fragmentar a exist\u00cdncia, ela resiste, e com muita tenacidade e perseveran\u00c1a. Dilacerada no deserto do real,\u2020 busca rejuntar seus peda\u00c1os, totalizar, religar, propor novos sentidos aos desatinos humanos.<\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;text-indent:36.0pt;line-height:&#10;150%\">As mitologias s\u201eo exemplo disso. Linguagens da imagina\u00c1\u201eo, apropriam-se das poeiras de estrelas deixadas pelo rastro do tempo, solucionam contradi\u00c1\u0131es, invertem a rela\u00c1\u201eo natureza-cultura e a seq\u00b8\u00cdncia presente-passado-futuro.\u2020 Por isso, devem ser percebidas como m\u02d9sicas que exigem aten\u00c1\u201eo dedicada do ouvinte. M\u02d9sica e linguagem p\u0131em nossos sentidos constantemente \u2021 prova. Os mitos, afirma L\u00c8vi-Strauss, sempre querem dizer a mesma coisa. N\u201eo s\u201eo espec\u00ccficos de nenhuma sociedade, dessa ou daquela popula\u00c1\u201eo. S\u201eo respostas ir\u00d9nicas ou desencantadas para problemas intemporais. Constituem, portanto, patrim\u00d9nio universal da cultura. <\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;text-indent:36.0pt;line-height:&#10;150%\">Injustamente acusado de negligenciar a hist\u00dbria, de n\u201eo dar a m\u00ccnima para a luta dos homens, de pregar uma nostalgia do absoluto, Claude L\u00c8vi-Strauss nos faz ver o mundo de outra forma. Sua paix\u201eo pelo entendimento \u00c8 de tal ordem que nos leva a perceber que somos meros gr\u201eos de areia, infinitamente pequenos, filhos do cosmo e, como tal, impermanentes e provis\u00dbrios. \u00ecPermitam, portanto, meus caros colegas, depois de haver prestado homenagem aos mestres da antropologia no in\u00cccio dessa aula, que minhas \u02d9ltimas palavras sejam voltadas para os selvagens, cuja obscura tenacidade nos propicia, ainda, a oportunidade de perceber os fatos humanos em suas verdadeiras dimens\u0131es\u00ee. Esse fragmento da aula inaugural do <i style=\"mso-bidi-font-style:normal\">Coll\u00cbge de France<\/i>, proferida em 5 de janeiro de 1960, \u00c8 simultaneamente parte e todo de sua vast\u00ccssima obra. \u2026 dessa tenacidade que precisamos urgentemente!\u2020 <\/p>\n<p\/>\n<p>    <\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>E assim se passaram 100 anos. Edgard de Assis Carvalho, professor de titular de Antropologia, PUCSP. Mar\u00c1o de 2008. \u00a0 O ano de 1908 foi de converg\u00cdncias e sincronicidades. Nasceram Claude L\u00c8vi-Strauss e Maurice Merleau-Ponty. Simone de Beauvoir tamb\u00c8m veio ao mundo nessa data. Isso na Fran\u00c1a. 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