{"id":109,"date":"2015-10-09T23:56:08","date_gmt":"2015-10-09T23:56:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iecomplex.com.br\/transferencia-a-clinica-viva\/"},"modified":"2023-12-25T13:36:13","modified_gmt":"2023-12-25T13:36:13","slug":"transferencia-a-clinica-viva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/iecomplex.com.br\/es\/transferencia-a-clinica-viva\/","title":{"rendered":"Maria do Carmo Andrade Palhares. 2\u00b0 Encontro do N\u00facleo de Cl\u00ednica do Instituto de Estudos da Complexidade Cl\u00ednica: Novas L\u00f3gicas Sociais \u00abTransfer\u00eancia: A Cl\u00ednica Viva\u00bb"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: 9.0pt; text-align: center; text-indent: -9.0pt; mso-outline-level: 1;\" align=\"center\"><b style=\"mso-bidi-font-weight: normal;\">Transfer\u00eancia e Contratransfer\u00eancia: uma reserva de alma na p\u00f3s-modernidade \u00a0<\/b><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: 9.0pt; text-align: center; text-indent: -9.0pt; mso-outline-level: 1;\" align=\"center\">2\u00b0 Encontro do N\u00facleo de Cl\u00ednica do Instituto de Estudos da Complexidade Cl\u00ednica: Novas L\u00f3gicas Sociais<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: right; mso-outline-level: 1;\" align=\"right\"><b style=\"mso-bidi-font-weight: normal;\">Maria do Carmo Andrade Palhares<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; mso-outline-level: 1;\"><b style=\"mso-bidi-font-weight: normal;\">\u00a0<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">I<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">De forma imperiosa, convicta, e necessitada, ela me diz:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">_ Voc\u00ea! Ah, voc\u00ea est\u00e1 a meu servi\u00e7o!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">Estamos diante de uma crian\u00e7a? Cronologicamente, n\u00e3o. Estamos diante de um adulto, cujo olhar infantil, reivindica algo primordial: ser atendido em suas necessidades iniciais de vida. O que sou eu para algu\u00e9m que me apresenta de maneira t\u00e3o visceral sua procura pelo v\u00ednculo humano? A resposta para esta quest\u00e3o nos lan\u00e7a nas vicissitudes da pr\u00e1tica cl\u00ednica. E como pr\u00e1tica, exige, al\u00e9m do conhecimento, manejo: a\u00e7\u00e3o terap\u00eautica. Como manejar situa\u00e7\u00f5es dif\u00edceis, infantis, regredidas, pertencentes, muitas vezes, a um per\u00edodo n\u00e3o-verbal, se a psican\u00e1lise se coloca como cura pela palavra?\u00a0 Uma palavra surge com toda sua for\u00e7a relacional: transfer\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">A transfer\u00eancia em si j\u00e1 nos fala de algo vivo. Isto porque ela emerge do contato emocional dos pacientes com a situa\u00e7\u00e3o anal\u00edtica. No entanto, hoje sabemos, que exatamente o acontecimento transferencial, tamb\u00e9m induz o analista a produzir uma resposta emocional frente ao seu paciente. Considerando estas duas viv\u00eancias podemos enunciar a vivacidade do encontro anal\u00edtico. Para isto \u00e9 preciso sublinhar que este encontro enla\u00e7a duas pessoas, e este enlace envolve afetos, sentimentos, viv\u00eancias inconscientes que v\u00e3o engendrar mutualidade, o que nos permite dizer que estamos falando de um tratamento que se coloca no \u00e2mbito da intersubjetividade. Assim, ambos, paciente e analista, est\u00e3o irremediavelmente vivos. Desta forma, consideramos o efeito da presen\u00e7a de um outro na vida ps\u00edquica de cada participante do encontro. Estamos, portanto, n\u00e3o s\u00f3 no dom\u00ednio do intraps\u00edquico, mas, observando o efeito causado pelo outro, incorporamos a no\u00e7\u00e3o de externalidade como participante das viv\u00eancias internas. Da\u00ed surgem as condi\u00e7\u00f5es para situarmos uma defini\u00e7\u00e3o terap\u00eautica da t\u00e9cnica psicanal\u00edtica, articulando os movimentos intraps\u00edquicos e interps\u00edquicos, inserindo-os num contexto relacional. A din\u00e2mica destes movimentos vai valorizar a problem\u00e1tica da contratransfer\u00eancia, isto \u00e9, o trabalho anal\u00edtico passa a considerar os afetos do analista presentes na situa\u00e7\u00e3o anal\u00edtica. Os desafios frente a estes obst\u00e1culos v\u00e3o permitir que, analista e analisando, busquem, cada um no seu papel e fun\u00e7\u00e3o, superar a prova da an\u00e1lise.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">E o que \u00e9 a prova da an\u00e1lise?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">A esse respeito, Pontalis, acrescenta: <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">\u201cQual \u00e9 o ensinamento que nos traz a psican\u00e1lise \u2013 e quero dizer a experi\u00eancia, a prova da an\u00e1lise ou, o que \u00e9 a mesma coisa, a prova do estrangeiro \u2013 ao ponto que se pode tom\u00e1-lo por seu ensinamento principal e talvez \u00fanico? \u00c9 que o tempo n\u00e3o passa. Conseq\u00fc\u00eancia: a psican\u00e1lise n\u00e3o \u00e9, n\u00e3o pode ser do seu tempo. Ela n\u00e3o \u00e9 de um outro tempo, mas de um tempo outro. Ela \u00e9 anacr\u00f4nica, ou melhor, segundo o termo de Nietzsche, intempestiva. Ela \u00e9 indiferente ao\u201car do tempo&#8230;\u201d <\/i>(1994:95)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">Esta revela\u00e7\u00e3o pode colocar em choque a afirma\u00e7\u00e3o inicial de uma cl\u00ednica viva. Mas \u00e9 exatamente nesta descoberta de um tempo outro, intempestivo, que come\u00e7amos a desconstuir um presente morto. Morto pela repeti\u00e7\u00e3o, morto pelo vazio, morto pela aus\u00eancia de sentido, morto pelo empobrecimento dos projetos. \u00c9 pela possibilidade de animar, imantar, de atrair o movimento transferencial gerado pela viv\u00eancia anal\u00edtica que este presente morto, inanimado, pode vir a se lan\u00e7ar sobre um tempo outro, a se encontrar com um tempo sem medida, cuja a vivacidade pode estar numa lembran\u00e7a, num sonho, numa alucina\u00e7\u00e3o, e sobretudo numa a\u00e7\u00e3o. E muitas vezes na a\u00e7\u00e3o, no agir, nos deparamos com todos os odores, cores, f\u00farias, e amores de uma vida humana. O afeto escancarado n\u00e3o consegue esconder as experi\u00eancias emocionais vividas ao longo de uma hist\u00f3ria pessoal. Presentificada e reconhecida no tratamento, esta hist\u00f3ria, vai se desenrolar juntamente com a hist\u00f3ria do tratamento. Isto quer dizer: as intensidades, a irracionalidade, as rea\u00e7\u00f5es inadequadas, exageradas, defensivas \u2013 tanto hostis como amorosas \u2013 s\u00e3o valorizadas como fen\u00f4menos que passam a fazer parte da terap\u00eautica deste processo. \u00c9 carga dupla porque um duplo tempo n\u00e3o linear come\u00e7a a ser vivido pelo par analista-analisando. N\u00e3o \u00e9 uma cr\u00f4nica dos acontecimentos que vai ser empreendida, mas a viv\u00eancia do acontecimento passado ser\u00e1 atualizada, fundindo-se com o tempo anal\u00edtico. Este \u00e9 o lugar da intimidade. Isto \u00e9 o que primordialmente se passa na cl\u00ednica. Aos poucos, e muitas vezes de repente, o analista est\u00e1 ali na intimidade que pode ter uma crian\u00e7a com a m\u00e3e; na intimidade de uma parceria amorosa no seu leito; na intimidade enigm\u00e1tica dos desencontros humanos, freq\u00fcentemente dolorosos e terr\u00edveis quando vividos no in\u00edcio da experi\u00eancia de vida. O analista pode ocupar todos os lugares, sem sair do lugar, apenas seguindo intimamente os movimentos transferenciais. Traduzir isto em palavras \u00e9 muitas vezes antag\u00f4nico ao que se passa neste espa\u00e7o \u00edntimo, uma vez que as palavras engendrariam uma narra\u00e7\u00e3o que pretenderia tornar as coisas comunic\u00e1veis, quando, na verdade, a viv\u00eancia cl\u00ednica aponta para algo que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel objetivar numa escrita, ou numa apresenta\u00e7\u00e3o, exatamente pela ruptura, em alguns casos, radical, da l\u00f3gica temporal e espacial. Portanto, se colocada numa linguagem est\u00e9tica podemos falar de uma fic\u00e7\u00e3o-real que mant\u00e9m os res\u00edduos de uma insufici\u00eancia cient\u00edfica para que seja preservado no acontecimento cl\u00ednico exatamente o que escapa a conceitua\u00e7\u00e3o te\u00f3rica, deixando livre <b style=\"mso-bidi-font-weight: normal;\">os efeitos<\/b> diferentes que cada comunica\u00e7\u00e3o produz naqueles que l\u00eaem ou escutam. S\u00e3o os efeitos que reverberam evocando o inaudito, o incomunic\u00e1vel em cada ser, \u00e9 que talvez possam, restituir este valioso lugar da intimidade humana. Segundo Pontalis, \u00e9 como se <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">\u201ca\u00ed nos endere\u00e7\u00e1ssemos a cada um, a uma parte \u00edntima de cada um, pelo tom, pelo estilo, pela maneira de endere\u00e7ar o mais essencial de tudo e o mais dif\u00edcil a transmitir porque \u00e9 irredut\u00edvel a linguagem.\u201d <\/i>( 2002).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">Portanto, a possibilidade de alcance, sobre o que se passa na cl\u00ednica, est\u00e1 em manter uma tens\u00e3o entre o que \u00e9 partilh\u00e1vel, as palavras que s\u00e3o comuns, e as que s\u00e3o singulares, espec\u00edficas, de cada um; e algo que n\u00e3o se compartilha, a n\u00e3o ser atrav\u00e9s da arte, ou da transfer\u00eancia. E que talvez n\u00e3o seja redut\u00edvel a nenhuma narrativa cient\u00edfica. H\u00e1 que viver, experimentar, o que se imp\u00f5e s\u00e3o as for\u00e7as do acontecimento, o desenrolar da vida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">Neste desenrolar, a transfer\u00eancia ocorre espontaneamente em todas as rela\u00e7\u00f5es humanas j\u00e1 que \u00e9 incessante este movimento de dentro para fora, de fora para dentro. Logo a transfer\u00eancia emerge da vida, porque ela vai apontar para um infind\u00e1vel vir-a-ser ; neste sentido ela \u00e9 estruturante. Na cl\u00ednica psicanal\u00edtica ela passa a ser acolhida como a tradu\u00e7\u00e3o viva dos v\u00ednculos humanos, \u00e9 da\u00ed que se enra\u00edza a manuten\u00e7\u00e3o e a validade do tratamento. No entanto, exatamente pela sua for\u00e7a viva e atuante que o fracasso terap\u00eautico pode acontecer. Aqui nos deparamos com a complexidade da experi\u00eancia transferencial que nos revela um acontecimento <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">gauche, <\/i>canhestro, envolvido em m\u00faltiplas sutilezas. Como cl\u00ednicos, \u00e9 a\u00ed que podemos trope\u00e7ar&#8230; A pr\u00f3pria hist\u00f3ria da descoberta da transfer\u00eancia nos mostra esta possibilidade. No in\u00edcio, Freud n\u00e3o concebe a transfer\u00eancia como um auxiliar terap\u00eautico, ela \u00e9 considerada um obst\u00e1culo \u00e0 cura, \u201cuma verdadeira maldi\u00e7\u00e3o\u201d, diz ele. Numa carta ao pastor Pfister, Freud descreve a transfer\u00eancia como a \u201ccruz\u201d do psicanalista.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">Posteriormente, no entanto, ganha estatuto de fun\u00e7\u00e3o terap\u00eautica, ao ser constatado que, atrav\u00e9s da transfer\u00eancia, aquilo que n\u00e3o pode ser dito, pode ser mostrado. Passamos a viver analiticamente situa\u00e7\u00f5es paradoxais: o que faz caminhar pode destruir o caminho. Al\u00e9m disto, quanto mais avan\u00e7amos mais corremos o risco do recuo; assume, pois, a regress\u00e3o valor de travessia das zonas traum\u00e1ticas e conflitivas. Algo de espec\u00edfico se apresenta neste tratamento: l\u00e1 onde poder\u00edamos afogar, aprendemos a nadar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">Assim, em 1905, diante do fracasso do caso Dora, Freud acrescenta: <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">\u201cO que s\u00e3o transfer\u00eancias? Elas s\u00e3o novas edi\u00e7\u00f5es ou facs\u00edmiles de impulsos e fantasias que s\u00e3o despertadas e tornadas conscientes durante o progresso na an\u00e1lise; mas elas t\u00eam essa peculiaridade, que \u00e9 uma caracter\u00edstica particular, de que elas substituem alguma pessoa primitiva pela pessoa do m\u00e9dico. Colocando em outras palavras: toda uma s\u00e9rie de experi\u00eancias psicol\u00f3gicas s\u00e3o revividas, n\u00e3o como pertencente ao passado, mas aplicadas ao m\u00e9dico no momento presente. (&#8230;) Dora atuou um fragmento essencial de suas lembran\u00e7as em lugar de relembr\u00e1-los\u201d<\/i> (p.133) .<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">O elemento maldito da transfer\u00eancia diz respeito \u00e0 resist\u00eancia, j\u00e1 que ao provocar o mesmo afeto que for\u00e7ou o paciente a repudiar seus desejos proibidos, algo se paralisa. O paciente resiste ao se ver confrontado, na an\u00e1lise, com a for\u00e7a dos seus desejos e das suas fantasias inconscientes. Paradoxalmente, avan\u00e7a-se a\u00ed onde transfer\u00eancia e resist\u00eancia coincidem no tempo anal\u00edtico. \u00c9 l\u00e1 onde h\u00e1 resist\u00eancia que corresponde a este infantil que n\u00e3o tem idade &#8211; fora do lugar, fora do tempo &#8211; que brota na transfer\u00eancia as condi\u00e7\u00f5es de ultrapassagem e passagem para um tempo de mudan\u00e7as e transforma\u00e7\u00f5es reais. A raiz infantil, a natureza inconsciente, as viv\u00eancias emocionais, v\u00e3o engendrar repeti\u00e7\u00f5es que tornam a cl\u00ednica psicanal\u00edtica uma encena\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea do passado. A figura do analista inserida numa das \u201cconstela\u00e7\u00f5es\u201d ps\u00edquicas que o paciente organizou ao longo das suas experi\u00eancias emocionais aciona, ao mesmo tempo, transfer\u00eancia e resist\u00eancia, alavancando a din\u00e2mica do tratamento. O vigor desta experi\u00eancia est\u00e1 na conjuga\u00e7\u00e3o das suas oposi\u00e7\u00f5es: maldi\u00e7\u00e3o, cruz, obst\u00e1culo, fun\u00e7\u00e3o terap\u00eautica, express\u00e3o do essencial. \u00c9 exatamente a travessia destas contradi\u00e7\u00f5es que corresponde, em 1914, a outro pronunciamento freudiano: <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">\u201cn\u00e3o nos surpreendemos suficientemente com a transfer\u00eancia\u201d.<\/i> Assim agregamos um outro elemento a este fen\u00f4meno: o surpreendente que irrompe na cena anal\u00edtica, determinando uma qualidade emocional ao v\u00ednculo anal\u00edtico com poder de afetar a ambos participantes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">O percurso do tratamento se move dentro do drama e da trama transferencial, caminhando entre: passado e presente, obst\u00e1culo e fun\u00e7\u00e3o terap\u00eautica, entre alian\u00e7as e rep\u00fadios ao manejo cl\u00ednico configurando dificuldades que revelam a singularidade de cada paciente. E a\u00ed \u00e9 que est\u00e1: o acolhimento a esta singularidade leva o paciente a sentir-se reconhecido em sua humanidade. Lu\u00eds Cl\u00e1udio Figueiredo vai destacar esse ponto abordando a quest\u00e3o da contratransfer\u00eancia: <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">\u201cAqu\u00e9m das contratranfer\u00eancias no sentido estrito, que s\u00e3o respostas do analista \u00e0s transfer\u00eancias do paciente, um aspecto essencial da din\u00e2mica do trabalho anal\u00edtico \u2013 embora seja tamb\u00e9m uma fonte de impasses \u2013 h\u00e1 uma condi\u00e7\u00e3o da possibilidade de psicanalisar \u2013 que se configura como uma contratransfer\u00eancia primordial, um deixar-se colocar diante do sofrimento antes mesmo de se saber do que e de quem se trata. Esta contratransfer\u00eancia primordial corresponde justamente \u00e0 disponibilidade humana para funcionar como suporte de transfer\u00eancias e de outras modalidades de demandas afetivas e comportamentais profundas e primitivas, vindo a ser um deixar-se afetar e interpelar pelo sofrimento alheio no que tem de desmesurado e mesmo de incomensur\u00e1vel, n\u00e3o s\u00f3 de desconhecido como incompreens\u00edvel. Todo o psicanalisar, no que implica lidar com as transfer\u00eancias \u2013 e outras coisinhas mais \u2013 depende desta contratransfer\u00eancia primordial.\u201d<\/i> (2002: 2)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">Aqui o analista se v\u00ea confrontado com o que Figueiredo vai chamar uma <b style=\"mso-bidi-font-weight: normal;\">\u201creserva de alma\u201d<\/b>, diz ele: <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">\u201cNesta reserva de alma residem nossas teorias, nossos desejos, nossa capacidade de pensar, falar, simbolizar e sonhar. Mas a\u00ed reside, fundamentalmente, nossa capacidade de ser afetado e interpelado pelo sofrimento\u201d.<\/i> (2002: 18) Desta forma, estamos diante de uma ampla disponibilidade em ir sendo junto com o paciente, podendo chegar l\u00e1, diante do irreconhec\u00edvel, do estranho, do absurdo. Freud, em 1919, no seu texto \u201cO Estranho\u201d nos fala destas sensa\u00e7\u00f5es quando nos aproximamos ou contatamos remotas regi\u00f5es da natureza humana. Talvez, toquemos a\u00ed, nos enclaves de um modo de ser escondido e nunca encontrado, mas revelador do absolutamente humano de cada um, possibilitando, simultaneamente, a express\u00e3o do individual e do universal. No universal nos deparamos com toda a humanidade, descobrindo o vi\u00e9s do todo, do uno, do semelhante. No individual, nos deparamos com o ser e suas circunst\u00e2ncias, muitas vezes, diante de conting\u00eancias favor\u00e1veis e desfavor\u00e1veis; tanto internas quanto externas. Legitimar estas condi\u00e7\u00f5es demanda empatia pela engenhosa causa da natureza humana. Isto significa suportar ser tocado, na transfer\u00eancia, pela f\u00faria, pelo amor, pela indiferen\u00e7a, pelo falso, pela repeti\u00e7\u00e3o, sem que abandonemos o primordial: manter a liga\u00e7\u00e3o com o outro, preservar a reserva de alma. Deixar fluir o acontecimento, sem entrav\u00e1-lo. Dif\u00edcil! <b style=\"mso-bidi-font-weight: normal;\">Sobretudo, diante da repeti\u00e7\u00e3o.<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">A no\u00e7\u00e3o de repeti\u00e7\u00e3o do passado constitui-se no paradigma da teoria da transfer\u00eancia. Freud em 1920 no texto \u2013 Al\u00e9m do Princ\u00edpio do Prazer \u2013 acrescenta que a repeti\u00e7\u00e3o se traduz por uma compuls\u00e3o ligada \u00e0 puls\u00e3o de morte. Para ele, a id\u00e9ia de repeti\u00e7\u00e3o conota neurose e patologia, uma impossibilidade de ser e viver diferente no presente, re-encenando-se, muitas vezes, experi\u00eancias dolorosas. Este re-encenar n\u00e3o \u00e9 determinado pelo prazer, mas pela dor e o sofrimento. \u00c9 como se algo da experi\u00eancia infantil estivesse \u201ccongelado\u201d, provocando estagna\u00e7\u00e3o, apresentando \u201co mesmo\u201d, o de sempre; n\u00e3o se consegue situar o presente como um vetor existencial a ser conquistado. Algo o entrava de forma insistente e imperiosa. Com isso, paciente e analista diante das for\u00e7as da repeti\u00e7\u00e3o podem entrar num circuito fechado, e se assim for&#8230; apontam para dificuldades no campo transferencial-contratransferencial, tais como: fus\u00f5es supereg\u00f3icas, conluios, atua\u00e7\u00f5es &#8211; \u00a0um vasto repert\u00f3rio contratransferencial pode ser encenado por parte do analista. Aqui, a pessoa do analista precisa estar ativa e em quest\u00e3o principalmente para si pr\u00f3prio. \u00c9 para dentro de si que ele vai se voltar, freq\u00fcentando, intimamente as fronteiras de suas pr\u00f3prias possibilidades. S\u00f3 assim ele conseguir\u00e1 colocar a contratransfer\u00eancia a servi\u00e7o do tratamento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">Duas cita\u00e7\u00f5es s\u00e3o providenciais sobre o papel da repeti\u00e7\u00e3o ao longo do tratamento. Primeiro de Jos\u00e9 Am\u00e9rico Junqueira de Mattos referindo-se ao texto de Lagache:<i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\"> \u201cEm seu importante trabalho sobre transfer\u00eancia, Lagache, n\u00e3o aceita que a repeti\u00e7\u00e3o esteja a servi\u00e7o da puls\u00e3o de morte, ou seja, que a repeti\u00e7\u00e3o seja prim\u00e1ria. Com seu brilhante aforismo: necessidade de repeti\u00e7\u00e3o e repeti\u00e7\u00e3o da necessidade postula que, se existe uma necessidade de repeti\u00e7\u00e3o, ou seja, do desejo em busca de satisfa\u00e7\u00e3o este pode entrar em confronto com o ego e mobilizar mecanismos de defesa. Dessa forma, o conflito est\u00e1 entre a necessidade, o princ\u00edpio do prazer, e a realidade, portanto \u00e9 secund\u00e1ria. Seria prim\u00e1ria se houvesse uma repeti\u00e7\u00e3o da necessidade (&#8230;) indiv\u00edduos que interromperam uma tarefa t\u00eam tend\u00eancia ou necessidade de vir a complet\u00e1-la \u2013 frustra\u00e7\u00e3o, interrup\u00e7\u00e3o ou fracasso, intensifica a necessidade de completar a tarefa satisfatoriamente.\u201d<\/i> \u00a0(1995: 173,174)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">A repeti\u00e7\u00e3o ganha amplitude e complexidade enquanto fen\u00f4meno. N\u00e3o existe s\u00f3 um tipo de repeti\u00e7\u00e3o: ela pode estar articulada ao desejo em busca de satisfa\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m, se insere numa perspectiva mais regredida na busca da realiza\u00e7\u00e3o de uma tarefa interrompida, fracassada. \u00a0No primeiro caso repete-se na tentativa de elabora\u00e7\u00e3o de um conflito. No segundo caso repete-se na esperan\u00e7a de um novo encontro objetal que possibilite uma nova oportunidade para o desenvolvimento do self.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">A segunda cita\u00e7\u00e3o \u00e9 de Pontalis, diz ele: <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">\u201cNo cora\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o a repetir n\u00e3o vejo o resultado do entravamento de nossos desejos e nem, em conseq\u00fc\u00eancia, por causa de sua insatisfa\u00e7\u00e3o, a exig\u00eancia de retom\u00e1-los&#8230; se entravamento existe, \u00e9 o da pr\u00f3pria capacidade de representa\u00e7\u00e3o&#8230; o que se repete \u2013 e n\u00e3o digo o que se rumina \u2013 \u00e9 aquilo que n\u00e3o aconteceu, e que n\u00e3o tendo conseguido advir, n\u00e3o existiu como evento ps\u00edquico. Repete-se como se ensaia no teatro, mas na aus\u00eancia, no vazio de todo texto. Repete-se algo fora do texto, algo de incrustado, e n\u00e3o de impresso&#8230;\u201d<\/i>\u00a0 ( 1994: 102)<i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\"><\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">\u00a0\u00c9 pela encena\u00e7\u00e3o do vazio que se tenta inaugurar a vida. O vazio \u00e9 a pr\u00f3pria necessidade do acontecimento &#8211; j\u00e1 que ele n\u00e3o pode ser lembrado nem esquecido &#8211; ele \u00e9 agido repetidamente. Ao final, diria Manoel de Barros:<i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\"> \u201cRepetir, repetir, &#8211; at\u00e9 ficar diferente\u201d. <\/i>E ficou! Na psican\u00e1lise, na cl\u00ednica, na linguagem; aqui, agora, no texto. Do mundo pulsional encarna um beb\u00ea humano com sua for\u00e7a vital em busca de integra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">II<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">Este movimento em busca de integra\u00e7\u00e3o se dirige ao ambiente. L\u00e1 deve haver algu\u00e9m que recepcione esta demanda &#8211; estamos diante de necessidades que v\u00e3o engendrar repeti\u00e7\u00e3o at\u00e9 produzir a integra\u00e7\u00e3o do self. O diferente est\u00e1 em curso.\u00a0 Se pouco acontece, ou se o excesso acontece, nos deparamos com a possibilidade do vazio, do trauma. Nestas condi\u00e7\u00f5es, o setting anal\u00edtico vai ser convocado a possibilitar ao paciente <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">\u201cviver pela primeira vez aquilo que j\u00e1 foi vivido.\u201d<\/i> (Winnicott,1955-56: 487 ) Ou seja, que as condi\u00e7\u00f5es do encontro anal\u00edtico favore\u00e7am que os sentidos e os significados da vida emocional sejam criados e n\u00e3o apenas revelados. Esta cria\u00e7\u00e3o coloca a no\u00e7\u00e3o de holding \u2013 sustenta\u00e7\u00e3o emocional \u2013 como fundamental para que o paciente experimente a si mesmo como um acontecimento, produzindo a experi\u00eancia da qualidade de ser como a primeira manifesta\u00e7\u00e3o da natureza humana. Winnicott verbaliza esta necessidade, a partir do olhar de um beb\u00ea, ao dizer: <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">\u201cO importante \u00e9 que o que \u201ceu sou\u201d n\u00e3o significa nada, a n\u00e3o ser que, no in\u00edcio, eu seja juntamente com outro ser humano que ainda n\u00e3o foi diferenciado. Por esta raz\u00e3o, \u00e9 mais verdadeiro falar em \u201cser\u201d do que usar as palavras \u201ceu sou\u201d que pertence ao est\u00e1gio seguinte. N\u00e3o \u00e9 exagero dizer que a condi\u00e7\u00e3o de ser \u00e9 o in\u00edcio de tudo, sem a qual o fazer e o deixar que lhe fa\u00e7am n\u00e3o t\u00eam significado.\u201d<\/i> \u00a0( 1966: 9)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">Assim ser juntamente com o outro, implica em condi\u00e7\u00f5es ambientais favor\u00e1veis. Como primeiro passo, \u00e9 preciso ser atendido por uma m\u00e3e que se engaja nas necessidades do filho, validando e reconhecendo sua singularidade. Portanto, algo de espec\u00edfico deve ser considerado: este engajamento n\u00e3o \u00e9 invasivo, ele se d\u00e1 como possibilidade de oferecer ao beb\u00ea uma experi\u00eancia fusional. Segundo Ogden:<i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\"> \u201ca m\u00e3e \u00e9 uma presen\u00e7a invis\u00edvel, mas sentida&#8230; sua alteridade \u00e9 sentida, mas n\u00e3o \u00e9 levada em conta\u201d.<\/i> (1996: 46) Invis\u00edvel e previs\u00edvel, no sentido de manter um cotidiano mon\u00f3tono e rotineiro, significando: sustenta\u00e7\u00e3o emocional, continuidade, perman\u00eancia, seguran\u00e7a. Os cuidados maternos se constituem como prote\u00e7\u00e3o ambiental ao evitar surpresas inassimil\u00e1veis para o beb\u00ea. Em fun\u00e7\u00e3o desta sens\u00edvel adapta\u00e7\u00e3o materna, o beb\u00ea humano, n\u00e3o se d\u00e1 conta do seu estado de extrema depend\u00eancia, e inquestion\u00e1vel vulnerabilidade. Ent\u00e3o, \u00e9 poss\u00edvel confiar. Expressa-se, aqui, uma maternagem que se coloca a servi\u00e7o da continuidade do ser do beb\u00ea; decorrendo da\u00ed a constitui\u00e7\u00e3o de uma subjetividade genu\u00edna, diferenciada a partir de si-mesma. A descoberta da alteridade se d\u00e1 em pequenas doses: ser diferente, diferenciado &#8211; <b style=\"mso-bidi-font-weight: normal;\">Outro<\/b> &#8211; surge a partir de pequenos acr\u00e9scimos di\u00e1rios que se ap\u00f3iam naquilo que se repete no interior do ser. Na monotonia encontramos espa\u00e7o para o surgimento das novidades. O setting anal\u00edtico reproduz este ritmo ao longo do tratamento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">Aqui me reencontro com minha paciente. Sua reivindica\u00e7\u00e3o era expl\u00edcita: eu estava a servi\u00e7o do seu anseio genu\u00edno de vir-a-ser. Dentro deste enfoque, a repeti\u00e7\u00e3o \u00e9 uma tentativa de alcan\u00e7ar uma exist\u00eancia real. Sentir-se vivo em sua interioridade \u00e9 condi\u00e7\u00e3o primordial.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">Na transfer\u00eancia, tudo se passa, como se houvesse um presente sem passado. N\u00e3o existe uma sobreposi\u00e7\u00e3o temporal entre passado e presente; a viv\u00eancia anal\u00edtica se traduz por uma demanda de a\u00e7\u00f5es concretas que possam favorecer o presente tornar-se passado. A linguagem de Winnicott exprime o valor desta experi\u00eancia: <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">\u201cEnquanto na neurose de transfer\u00eancia o passado vem para o consult\u00f3rio, neste trabalho \u00e9 mais certo dizer que o presente volta para o passado e \u00e9 o passado. Desse modo, o analista \u00e9 confrontado com o processo prim\u00e1rio do paciente no setting dentro do qual este \u00faltimo \u00e9 validado\u201d.<\/i> (1955-56: 486 )<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">Novamente estamos \u00e0s volta com a prova da an\u00e1lise. Desta vez, h\u00e1 um movimento temporal que se transforma em algo fundante. \u00c9 na temporaliza\u00e7\u00e3o do encontro anal\u00edtico que o vazio de si come\u00e7a a dar lugar \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o de um tempo subjetivo vivido como dura\u00e7\u00e3o de si-mesmo. O ritmo das sess\u00f5es passa a ser organizado pelo paciente, a\u00ed temos: o tempo das sess\u00f5es, as freq\u00fc\u00eancias, a rela\u00e7\u00e3o que estabelece com o manejo e com as\u00a0 interpreta\u00e7\u00f5es, os dias de pagamento, as presen\u00e7as e aus\u00eancias dentro e fora do setting. O analista \u00e9 solicitado a percorrer este tempo como um momento que resgata os primeiros estados do self. Nestas situa\u00e7\u00f5es, estamos de frente para o paradigma do adoecer humano.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">H\u00f6lderlin, poeta alem\u00e3o, atrav\u00e9s de um texto precioso, nos d\u00e1 acesso a quase tudo que escrevemos at\u00e9 agora, diz ele: <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">\u201cDeixem o homem imperturbado, desde o ber\u00e7o! N\u00e3o arranquem o bot\u00e3o bem unido do seu ser, n\u00e3o o arranquem do pequeno abrigo de sua inf\u00e2ncia! N\u00e3o fa\u00e7am \u00a0pouco demais por ele, para n\u00e3o faz\u00ea-lo prescindir de voc\u00eas, que assim se distinguem dele! N\u00e3o fa\u00e7am demais por ele para que ele n\u00e3o sinta o poder dele ou de voc\u00eas, que assim se distinguem dele! Em resumo: s\u00f3 mais tarde deixem\u00a0 o ser humano saber que existem seres humanos, que existe algo al\u00e9m dele, pois s\u00f3 assim ele se torna humano. O homem, por\u00e9m, \u00e9 um deus desde que seja humano. E se ele \u00e9 um deus, ent\u00e3o \u00e9 belo. (1797:83) <\/i>Aqui estamos de frente para o paradigma que enuncia a positividade da vida e da cria\u00e7\u00e3o. Viver para dar vida ao incriado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">Ferenczi contribui para a expans\u00e3o do saber psicanal\u00edtico ao retornar aos momentos inicias da vida humana.\u00a0 Diz, ele: <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">\u201cPenso no per\u00edodo de vida passado no corpo da m\u00e3e. Neste est\u00e1gio, o ser humano vive como parasita no corpo materno. Mal existe um \u201cmundo exterior\u201d para o ser nascente: todas as suas necessidades de prote\u00e7\u00e3o, calor, e de nutri\u00e7\u00e3o, s\u00e3o asseguradas pela m\u00e3e. Ele nem mesmo precisa se esfor\u00e7ar para ter o alimento e o oxig\u00eanio necess\u00e1rios, pois mecanismos apropriados encarregam-se de trazer essas subst\u00e2ncias diretamente aos seus vasos sangu\u00edneos\u201d<\/i> ( 1913: 76,77)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">Vale destacar que Ferenczi inserido num outro tempo, num outro lugar endossa as palavras de H\u00f6lderlin, apontando para o universal humano que necessita viver dentro de si-mesmo por um per\u00edodo como condi\u00e7\u00e3o primordial para, aos poucos, dar conta do seu encontro diferenciado com a realidade; atribuindo-lhe, ent\u00e3o, sentido e significado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">Ferenczi confirma este ponto de vista ao esclarecer:<i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\"> \u201cAssim, se o ser humano tem uma vida ps\u00edquica, mesmo inconsciente, no corpo materno \u2013 e seria absurdo acreditar que o psiquismo s\u00f3 se ponha a funcionar no momento do nascimento \u2013 ele deve ter, pelo fato da sua exist\u00eancia, a impress\u00e3o de ser realmente todo-poderoso (&#8230;) despoj\u00e1-lo da onipot\u00eancia e obrig\u00e1-lo a tentar \u201cmodificar o mundo externo\u201d, ou seja,\u00a0 efetuar um trabalho&#8230; causa nos beb\u00eas uma brutal perturba\u00e7\u00e3o advinda \u00e0 sua quietude\u201d<\/i>\u00a0\u00a0 ( 1913: 77,78)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">H\u00f6lderlin (1770-1843) e Ferenczi (1893-1933) apesar da dist\u00e2ncia hist\u00f3rica, da dist\u00e2ncia contextual, n\u00e3o se distanciam do humano e suas necessidades b\u00e1sicas: imperturbado, deixem-no no in\u00edcio&#8230; s\u00f3 assim todo o resto ser\u00e1 poss\u00edvel ser experimentado e vivido em sua complexidade inevit\u00e1vel e infinita. A viv\u00eancia da experi\u00eancia de unidade com o universo consolida o sentimento de manter-se unido a si-mesmo. <b style=\"mso-bidi-font-weight: normal;\">Revigora a condi\u00e7\u00e3o ontol\u00f3gica essencial para que tudo mais possa fazer sentido para o homem: o inconsciente, o desejo, o prazer e o desprazer, o mundo interno e externo, as rela\u00e7\u00f5es objetais &#8211; todo conte\u00fado, enfim, constitutivo da vida ps\u00edquica. Revigora-se a reserva de alma. Ser\u00e1 isto poss\u00edvel na p\u00f3s-modernidade?<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">Posteriormente, juntando-se a H\u00f6lderlin e a Ferenczi, Winnicott (1896-1971) contribui, decisivamente, ao longo de sua obra, para o paradigma da cria\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se intimida diante dos riscos pessoais e cient\u00edficos, ao afirmar: <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">\u201cN\u00e3o \u00e9 a partir da sensa\u00e7\u00e3o de ser Deus que os seres humanos chegam \u00e0 humildade caracter\u00edstica da individualidade humana?\u201d<\/i>( 1968:90)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">Aqui nos deparamos com o percurso do humano: precisamos experimentar o divino como pessoa criadora do mundo para, aos poucos, percebermos nossa condi\u00e7\u00e3o de parte diante da imensid\u00e3o do mundo. Do infinitamente grande vamos, gradualmente, nos aproximando do infinitamente pequeno. \u00c9 como parte oriunda deste mundo \u201cdivino\u201d que nos transformamos em singularidade no mundo humano. E ser\u00e1 como parte que poderemos contribuir para as mudan\u00e7as deste mundo. O v\u00e9rtice da singularidade cont\u00e9m a experi\u00eancia do todo. Neste sentido, legitima-se a ousadia de seguir adiante perspectivando mudan\u00e7as e transforma\u00e7\u00f5es \u00e0 nossa volta, a partir da disponibiliza\u00e7\u00e3o das viv\u00eancias interiores: marcas da nossa passagem pelo mundo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">III<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">Mas existem pedras ao longo deste caminho. Drummond, agrega texto e espessura a este caminhar endossando o tema da repeti\u00e7\u00e3o ao dizer, insistentemente: <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">\u00a0\u00a0\u201cNo meio do caminho tinha uma pedra\/\u00a0 tinha uma pedra no meio do caminho\/\u00a0 tinha uma pedra\/no meio do caminho tinha uma pedra\u201d (1930).<\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">\u00a0<i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">&#8230; <\/i>E repete, repete, at\u00e9 virar um poema. Acordemos para esta realidade da repeti\u00e7\u00e3o que ao carregar em si o passado, o mesmo, ao mesmo tempo, visa o novo, o inusitado, o surpreendente, apontando para transforma\u00e7\u00f5es que possam emergir do que est\u00e1 na origem da experi\u00eancia de cada um. Assim, segundo Pontalis, se conjugam repeti\u00e7\u00e3o e primeira vez (1990:78). Revelam-se manifesta\u00e7\u00f5es de fidelidade ao passado visando torn\u00e1-lo real no presente. Ou, segundo Winnicott, visando conquistar no presente, o direito a ter um passado (1955-56: 486). \u00a0Em todos esses movimentos nos deparamos com um agir que busca virar outra coisa, sendo assim, embora repetido, nada est\u00e1 prescrito: aqui vigora o improviso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">No meio do caminho cl\u00ednico, existem transfer\u00eancias e contratransfer\u00eancias que podem revirar uma hist\u00f3ria de vida engendrando novas perspectivas pessoais. Ou n\u00e3o. Pode dar errado. Sobre isto, Ferenczi em seu artigo sobre a \u201cElasticidade da T\u00e9cnica\u201d\u00a0 acrescenta: <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">\u201cEm hip\u00f3tese alguma deve-se ter vergonha de reconhecer, sem restri\u00e7\u00f5es, os erros passados. Que nunca se esque\u00e7a que a an\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 um procedimento sugestivo, em que o prest\u00edgio do m\u00e9dico e sua infalibilidade devem ser preservados a qualquer custo. A \u00fanica pretens\u00e3o levantada pela an\u00e1lise \u00e9 a da confian\u00e7a na franqueza e sinceridade do m\u00e9dico, e a esta, o reconhecimento sincero de um erro n\u00e3o amea\u00e7a\u201d. ( 1928:307)<\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\"><i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">\u00a0<\/i>Winnicott amplia esta quest\u00e3o quando valoriza os aspectos ambientais e sua rela\u00e7\u00e3o com o desenvolvimento genu\u00edno do self. Segundo ele, o paciente pode induzir o analista a falhar; na viv\u00eancia de regress\u00e3o expressa-se um re-pedido para a corre\u00e7\u00e3o das falhas ambientais. Nos momentos regressivos revisitamos experi\u00eancias n\u00e3o-verbais precoces. Acompanhando intimamente o paciente at\u00e9 estas regi\u00f5es, a esperan\u00e7a inconsciente faz com que o trauma original irrompa para ser vivido em um ambiente de confian\u00e7a. Da\u00ed a falha do analista reproduzir concretamente estas situa\u00e7\u00f5es traum\u00e1ticas; se o analista reconhece que falhou, ele experimenta o ponto de vista daquele paciente, e este, ao se reencontrar com seu ponto de vista, estar\u00e1 recuperando seu verdadeiro self, validado por uma presen\u00e7a viva. Desta forma, para Winnicott o problema n\u00e3o \u00e9 a falha, diz ele : <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">\u201cComo analistas, estamos falhando o tempo todo, e as rea\u00e7\u00f5es de irrita\u00e7\u00e3o do paciente pelas quais esperamos acabam por acontecer. Se sobrevivermos, seremos usados. S\u00e3o as in\u00fameras falhas, seguidas pelo tipo de cuidados que as corrigem, que acabam por constituir a comunica\u00e7\u00e3o do amor, demonstrando o fato de haver ali um ser humano que se preocupa (&#8230;) Portanto, a tarefa do paciente \u00e9 provocar condi\u00e7\u00f5es nas quais a repetida corre\u00e7\u00e3o das falhas seja um padr\u00e3o de vida\u201d.( 1968:87)<\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">O paciente cria a falha no analista. Transfer\u00eancia e contratransfer\u00eancia contracenam o caminho drummoniano: as pedras do caminho percorrido pelo paciente se instalam dentro do setting dificultando o processo anal\u00edtico, ao mesmo tempo que, torna vivo para o par analista\/analisando as experi\u00eancias repetidamente narradas, ou\u00a0 n\u00e3o. Experi\u00eancias que convocam o analista a encenar um papel que muitas vezes pode estar referido ao passado ou pode estar no futuro referido ao anseio pelo vir-a-ser. Nesta compreens\u00e3o, tamb\u00e9m, o analista precisa ansiar por vir-a-ser, seu percurso existencial deve continuar em aberto para si-mesmo. Talvez isto imprima a marca de um devir para a dupla analista\/analisando. Ou seja, ambos continuam a buscar a expans\u00e3o de sua ontologia \u2013 seguir sendo para poder continuar vivo para si-mesmo, para o outro, e para o mundo. Eis a\u00ed o mover-se no encontro anal\u00edtico: o passado, o acontecimento, a primeira vez, o devir, tudo isto torna-se presente conjugando todas as temporalidades. Nessa medida, falhar aponta para o que pode advir para ser corrigido, isto significa que o analista experimentou contratransferncialmente o ponto de vista do paciente, validando-o. Isto n\u00e3o ser\u00e1 esquecido; tornando-se passado pode, agora, ser relembrado. Na poesia de Drummond esta dimens\u00e3o tamb\u00e9m se expressa: \u201c<i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">Nunca me esquecerei desse acontecimento\/na vida de minhas retinas t\u00e3o fatigadas\/ Nunca me esquecerei que no meio do caminho\/\u00a0 tinha uma pedra\/ tinha uma pedra no meio do caminho\/no meio do caminho tinha uma pedra<\/i> \u201c (1930)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">A falha do analista favorece a viv\u00eancia do acontecimento ou da situa\u00e7\u00e3o traum\u00e1tica. Isto n\u00e3o se esquece se o reconhecimento da falha leva o paciente para \u00e1rea de onipot\u00eancia dentro da qual a experi\u00eancia foi considerada traum\u00e1tica. Voltar-se para o interior desta \u00e1rea em condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis para a criatividade prim\u00e1ria a partir do setting anal\u00edtico pode configurar uma muta\u00e7\u00e3o relacional, dentro e fora do paciente, ou seja: em si, dentro de si, e, simultaneamente, com o outro, ressoando nas suas rela\u00e7\u00f5es com o mundo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">Ainda bem que no meio do caminho da cl\u00ednica existem os poetas. Isto porque, seja diante do malogro da realiza\u00e7\u00e3o dos desejos inconscientes, ou diante da demanda do atendimento \u00e0s necessidades nas regress\u00f5es severas, experimentamos contratransferecialmente a marca do tempo: o acontecido e o devir do acontecimento. Aqui afirmamos a positividade da repeti\u00e7\u00e3o como estilo; sendo assim at\u00e9 um poema pode surgir no meio da desesperan\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">O acontecimento transferencial \u00e9 a prova da an\u00e1lise, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel esquec\u00ea-lo. Ele \u00e9 portador do incognosc\u00edvel: dentro dele revela-se, muitas vezes, para n\u00f3s, um Prometeu preso \u00e0s rochas, vendo a vida ser devorada pela estagna\u00e7\u00e3o do presente. Sem futuro. O processo anal\u00edtico, talvez, consista em ir na dire\u00e7\u00e3o do tempo na busca de conquist\u00e1-lo, ou seja, apropriar-se do presente. \u00a0De fato, torn\u00e1-lo vivo e real, expandindo-o at\u00e9 o passado e o futuro, para, enfim, come\u00e7armos a empreender o ciclo da vida. Aqui a busca da integra\u00e7\u00e3o est\u00e1 em curso expressando-se na tentativa de: unir, unir, unir&#8230; ligar,ligar.ligar&#8230; Nesse movimento a repeti\u00e7\u00e3o \u00e9 bem-vinda, j\u00e1 que ela explicita a busca do essencial: o anseio pelo sentido de si na presen\u00e7a do outro. Aqui visualizamos a valiosa contribui\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise \u00e0 sociedade p\u00f3s-moderna: a consolida\u00e7\u00e3o de um processo\u00a0 ontolol\u00f3gico repercutindo nos v\u00ednculos humanos!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">Pensar a transfer\u00eancia como pertencente ao campo do n\u00e3o acontecido em raz\u00e3o da n\u00e3o-integra\u00e7\u00e3o do ser; do arcaico da hist\u00f3ria de cada um; pens\u00e1-la como relacionada ao corpo; ao excesso pulsional; \u00e0s representa\u00e7\u00f5es inconscientes, nos coloca diante de uma circularidade temporal infinita que pode envolver m\u00faltiplas compreens\u00f5es durante o ato anal\u00edtico. Dada esta abrang\u00eancia, amplia-se o alcance do tratamento anal\u00edtico em benef\u00edcio da complexidade humana, sem negar seus acertos, seus fracassos, suas incertezas \u2013 prosseguindo, primordialmente, na trilha de fecundar nossa reserva de alma, sobretudo diante das amea\u00e7as ao humano neste mundo p\u00f3s-moderno.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: right; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\" align=\"right\"><b style=\"mso-bidi-font-weight: normal;\">Maria do Carmo Andrade Palhares<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: right; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\" align=\"right\"><b style=\"mso-bidi-font-weight: normal;\">Membro Associado da SBPRJ<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: right; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\" align=\"right\"><b style=\"mso-bidi-font-weight: normal;\">Rua Bar\u00e3o da Torre, 619, apt.701<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: right; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\" align=\"right\"><b style=\"mso-bidi-font-weight: normal;\">Ipanema, RJ. 22411-000<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: right; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\" align=\"right\"><b style=\"mso-bidi-font-weight: normal;\">Tels. (21) 2239.2048 \/ 2247.8825<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: right; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\" align=\"right\"><b style=\"mso-bidi-font-weight: normal;\">e-mail: mcarmoandrade@gbl.com.br<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: right; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\" align=\"right\"><b style=\"mso-bidi-font-weight: normal;\">\u00a0<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">\u00a0\u00a0\u00a0 \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">\u00a0<\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">\u00a0\u00a0\u00a0<b style=\"mso-bidi-font-weight: normal;\">\u00a0\u00a0<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: center; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\" align=\"center\"><b style=\"mso-bidi-font-weight: normal;\">Bibliografia<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">Abram, J. (2000). A linguagem de Winnicott. Dicion\u00e1rio das palavras e express\u00f5es utilizadas por Donald W. Winnicott. Rio de Janeiro: Revinter<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">Andrade, C. D. (1930). No meio do caminho. In : Sentimento do mundo. Rio de Janeiro: Record, 1999<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">Ferenczi, S. (1913) O desenvolvimento do sentido da realidade e seus est\u00e1dios.\u00a0 In: Escritos Psicanal\u00edticos ( 1909 -1913) Rio de Janeiro: Livraria Taurus Editora, p. 76,77,78.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">_________ (1928) A Elasticidade da t\u00e9cnica psicanal\u00edtica. In: Escritos Psicanal\u00edticos (1909 -1913) Rio de Janeiro: Livraria Taurus Editora, p. 307.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">Figueiredo, L.C. (2002) Transfer\u00eancia, contratransfer\u00eancia e outras coisinhas mais. Trabalho apresentado na Forma\u00e7\u00e3o Freudiana. Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">Freud, S. (1893 [1895] Estudos sobre histeria. ESB. Vol.II. Tradu\u00e7\u00e3o Jayme Salom\u00e3o. Rio de Janeiro: Imago, 1974.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">_________(1905 [ 1901] Fragmentos da an\u00e1lise de um caso de histeria. ESB. Vol. VII. Tradu\u00e7\u00e3o Jayme Salom\u00e3o. Rio de Janeiro: Imago,1974. p.133.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">_________ (1912) A din\u00e2mica da transfer\u00eancia. ESB. Vol. XII. Tradu\u00e7\u00e3o Jayme Salom\u00e3o. Rio de Janeiro: Imago, 1974.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">_________ (1914) Recordar, repetir e elaborar. ESB. Vol. XII. Tradu\u00e7\u00e3o Jayme Salom\u00e3o. Rio de Janeiro: Imago, 1974.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">_________ (1919) O Estranho. ESB. Vol. XVII. Tradu\u00e7\u00e3o Jayme Salom\u00e3o. Rio de Janeiro: Imago, 1974.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">_________ (1920) Al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer. ESB. Vol. XVIII. Tradu\u00e7\u00e3o Jayme Salom\u00e3o. Rio de Janeiro: Imago, 1974.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">Galard, J. (1984) A beleza do gesto. Uma est\u00e9tica das condutas. S\u00e3o Paulo: Edusp, 1997.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">H\u00f6lderlin, F. ( 1797 [1799]. Hip\u00e9rion ou O eremita na Gr\u00e9cia. S\u00e3o Paulo: Nova Alexandria, 2003, p. 83.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">Hughes, J. M. (1989) Reformulando o territ\u00f3rio psicanal\u00edtico. O trabalho de Melanie Klein, W. R. D. Fairbairn e D. W. Winnicott. Rio de Janeiro: Revinter, 1998.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">Kristeva, J. (1993) As novas doen\u00e7as da alma. Rio de Janeiro: Rocco, 2002<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">Maia, M. S. Extremos da alma. Dor e trauma na atualidade e cl\u00ednica psicanal\u00edtica. Rio de janeiro: Garamond, 2004<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">Mattos, J. A.\u00a0 Pr\u00e9-concep\u00e7\u00e3o e transfer\u00eancia. Artigo publicado no F\u00f3rum de Psican\u00e1lise promovido pela SBPSP. S\u00e3o Paulo: Editora 34,1995, p. 173,174<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">Ogden, T, H. O sujeito intersubjetivo de Winnicott. In: Os sujeitos da psican\u00e1lise. S\u00e3o Paulo: Casa do psic\u00f3logo, 1996 p. 46.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">Pontalis, J. B. Perdre de vue. Paris: Gallimard, 1988.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">__________ \u00a0La force d\u2019attraction. Paris: Seuil, 1990, p.78.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">___________\u00a0 (1992) A Esta\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise. In: Jornal de psican\u00e1lise \u2013 Instituto de Psican\u00e1lise da SBPSP. Vol. 27, n\u00famero 52, 1994, p. 95, 102.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">Safra, G. A Po-\u00c9tica na cl\u00ednica contempor\u00e2nea. Aparecida, S\u00e3o Paulo: Id\u00e9ias e Letras, 2004<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">Winnicott, D. W. ( 1955-6) Variedades cl\u00ednicas da transfer\u00eancia. In: Textos selecionados. Da pediatria \u00e0 psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1982, p.486, 487.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">____________\u00a0 The family and individual develoment. London: Tavistock, 1965<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">_____________\u00a0 (1966) A m\u00e3e dedicada comum. In: Os beb\u00eas e as m\u00e3es. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 1988, p.9<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">_______________ (1967) Um estado prim\u00e1rio de ser. In: Natureza humana. Rio de Janeiro: Imago, 1990<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">_____________\u00a0\u00a0 (1968) A comunica\u00e7\u00e3o entre o beb\u00ea e a m\u00e3e e entre a m\u00e3e e o beb\u00ea: converg\u00eancias e diverg\u00eancias. Op. cit. p. 87<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">_______________ Tudo come\u00e7a em casa. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 1986<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;\">_______________ Playing and reality. London: Tavistock, 1971<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Transfer\u00eancia e Contratransfer\u00eancia: uma reserva de alma na p\u00f3s-modernidade \u00a0 2\u00b0 Encontro do N\u00facleo de Cl\u00ednica do Instituto de Estudos da Complexidade Cl\u00ednica: Novas L\u00f3gicas Sociais Maria do Carmo Andrade Palhares &nbsp; \u00a0 &nbsp; I &nbsp; De forma imperiosa, convicta, e necessitada, ela me diz: &nbsp; _ Voc\u00ea! Ah, voc\u00ea est\u00e1 a meu servi\u00e7o! 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