{"id":83,"date":"2015-10-09T23:56:56","date_gmt":"2015-10-09T23:56:56","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iecomplex.com.br\/2-encontro-do-nucleo-de-clinica-do-instituto-de-estudos-da-complexidade-clinica-novas-logicas-sociais\/"},"modified":"2023-12-25T13:36:12","modified_gmt":"2023-12-25T13:36:12","slug":"2-encontro-do-nucleo-de-clinica-do-instituto-de-estudos-da-complexidade-clinica-novas-logicas-sociais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/iecomplex.com.br\/es\/2-encontro-do-nucleo-de-clinica-do-instituto-de-estudos-da-complexidade-clinica-novas-logicas-sociais\/","title":{"rendered":"Aida Ungier: 2\u00b0 Encontro do N\u00facleo de Cl\u00ednica do Instituto de Estudos da        Complexidade Cl\u00ednica: Novas L\u00f3gicas Sociais"},"content":{"rendered":"<p><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; line-height: 150%; margin: 0cm 42.55pt .0001pt 42.55pt;\"><b style=\"mso-bidi-font-weight: normal;\"><i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">Cl\u00ednica Social<\/i><\/b><b style=\"mso-bidi-font-weight: normal;\">: as conseq\u00fc\u00eancias metapsicol\u00f3gicas\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 das novas l\u00f3gicas sociais<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref\">[1]<\/a><\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.45pt; line-height: 150%;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Aida Ungier<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref\">[2]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.45pt; line-height: 150%;\"><b style=\"mso-bidi-font-weight: normal;\">Resumo: <\/b>A partir dos relat\u00f3rios da Cl\u00ednica Social da SBPRJ, nos \u00faltimos 40 anos, a autora faz uma articula\u00e7\u00e3o entre as novas l\u00f3gicas sociais e o mal-estar na contemporaneidade, com vistas a pensar os recursos oferecidos pela psican\u00e1lise frente a esses desafios.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.45pt; line-height: 150%;\"><b style=\"mso-bidi-font-weight: normal;\">Palavras Chave: <\/b>Cl\u00ednica Social \/ poder disciplinar \/ fun\u00e7\u00e3o paterna \/ modernidade l\u00edquida \/ transicionalidade<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.45pt; line-height: 150%;\"><b style=\"mso-bidi-font-weight: normal;\">I &#8211; Introdu\u00e7\u00e3o<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.45pt; line-height: 150%;\">O desafio da cl\u00ednica contempor\u00e2nea nos obriga a pensar a sociedade e suas transforma\u00e7\u00f5es na tentativa de encontrar recursos para acolher o sofrimento daqueles que se desencaminharam no avan\u00e7o das novas l\u00f3gicas sociais. A luta permanente entre o j\u00e1 sabido sobre a dor do viver e as novas e engenhosas produ\u00e7\u00f5es do adoecer ps\u00edquico est\u00e1 na base do edif\u00edcio da psican\u00e1lise desde os pioneiros: Reich e Ferenczi procurando meios de relativizar a intelectualiza\u00e7\u00e3o trazida pelas primeiras descobertas; Klein buscando atender crian\u00e7as cada vez menores, aproximando as produ\u00e7\u00f5es on\u00edricas do brincar infantil; Lacan propondo um retorno a Freud, frente ao perigo da psicologiza\u00e7\u00e3o americana na teoria e na pr\u00e1tica psicanal\u00edtica. Portanto, engendrar solu\u00e7\u00f5es para novos impasses tem sido a nossa profiss\u00e3o de f\u00e9, certos de que nenhuma solu\u00e7\u00e3o encontrada ser\u00e1 a \u00fanica ou a definitiva. Trata-se do voto de humildade recomendado a todo aquele que se dedica ao of\u00edcio de psicanalizar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.45pt; line-height: 150%;\">Fiel a esse prop\u00f3sito e tendo como instrumento de pesquisa as mudan\u00e7as observadas nos \u00faltimos 40 anos, no universo da Cl\u00ednica Social da Sociedade Brasileira de Psican\u00e1lise do Rio de Janeiro (SBPRJ), pretendo cotejar essas mudan\u00e7as com as novas produ\u00e7\u00f5es da subjetividade, visando contemplar a complexidade da cl\u00ednica atual. Gostaria de sublinhar, que encontros regulares realizados durante o \u00faltimo ano, com analistas filiados a diversas sociedades no Rio de Janeiro, revelaram uma experi\u00eancia semelhante \u00e0quela descrita pela produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica consultada. Na verdade, essas novas manifesta\u00e7\u00f5es patol\u00f3gicas n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o novas, assim, o ineditismo reside na gravidade e no car\u00e1ter epid\u00eamico de sua distribui\u00e7\u00e3o. No epid\u00eamico a psican\u00e1lise busca o singular, o singular da cria\u00e7\u00e3o sintom\u00e1tica, em uma b\u00e1scula que nos remete outra vez ao universal, questionando o papel da psican\u00e1lise na sociedade contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.45pt; line-height: 150%;\"><b style=\"mso-bidi-font-weight: normal;\">II \u2013 Cl\u00ednica Social e o social na cl\u00ednica<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.45pt; line-height: 150%;\">O tratamento psicanal\u00edtico foi sempre considerado um tratamento elitizado, em virtude dos altos custos dos honor\u00e1rios, da assiduidade da freq\u00fc\u00eancia, da dura\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 das sess\u00f5es, como tamb\u00e9m, da pr\u00f3pria cura. Essa peculiaridade do m\u00e9todo n\u00e3o impediu que ele se expandisse e beneficiasse pacientes que, em princ\u00edpio, n\u00e3o poderiam arcar com tais encargos. Freud, por exemplo, tratou, graciosamente, do Homem dos Lobos, quando este nobre russo perdeu sua fortuna na \u00e9poca da revolu\u00e7\u00e3o. Essa pr\u00e1tica n\u00e3o \u00e9 incomum. Os honor\u00e1rios devem se adequar \u00e0s possibilidades reais da dupla em cada caso, chegando at\u00e9 \u00e0 suspens\u00e3o do mesmo em situa\u00e7\u00f5es excepcionais. Sem d\u00favida, as vicissitudes do enquadre promovem perturba\u00e7\u00f5es transferenciais e contratransferenciais que devem ser consideradas e, se admitidas, elaboradas para o sucesso da cura. Sendo assim, sem preocupa\u00e7\u00e3o com a sa\u00fade em geral, mas voltados para o bem estar de um determinado paciente, em particular, houve sempre movimentos no sentido de tornar a psican\u00e1lise uma op\u00e7\u00e3o terap\u00eautica acess\u00edvel. Por\u00e9m, carece distinguir essas situa\u00e7\u00f5es particulares, da preocupa\u00e7\u00e3o social que estende o saber desta ci\u00eancia aos servi\u00e7os de sa\u00fade p\u00fablica e \u00e0s cl\u00ednicas de atendimento mantidas pelas diversas sociedades.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.45pt; line-height: 150%;\">Para conhecer tais iniciativas, bem como suas vicissitudes, preciso contextualiz\u00e1-las. A psican\u00e1lise penetrou na rede p\u00fablica de sa\u00fade, no Rio de Janeiro, a partir da d\u00e9cada 60, especialmente, atrav\u00e9s das Comunidades Terap\u00eauticas, introduzidas no Hospital Pinel e no Centro Psiqui\u00e1trico Pedro II, num movimento semelhante ao que j\u00e1 ocorria no sul do pa\u00eds. Nessa mesma \u00e9poca desenvolveu-se, ainda, no Hospital Pinel, um trabalho inovador de psicoterapia de grupo que ganhou notoriedade, n\u00e3o s\u00f3 por sua excel\u00eancia, como tamb\u00e9m, por ser um o\u00e1sis de liberdade, no deserto em que se transformara a vida brasileira durante a ditadura. Afinal, \u201cfalar tudo aquilo que se pensa\u201d, regra fundamental da psican\u00e1lise, era uma proposta absolutamente subversiva naquele per\u00edodo. Paralelamente, iniciou-se na rede de atendimento do INAMPS, um trabalho de psicoterapia de grupo que atendia preferencialmente pacientes neur\u00f3ticos, ou psic\u00f3ticos em fase de remiss\u00e3o e com bom progn\u00f3stico. Essa pr\u00e1tica floresceu e se desdobrou em diversas outras unidades de atendimento: grupos de gestantes, grupos de fam\u00edlias de crian\u00e7as internada em CTI neonatal, etc.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.45pt; line-height: 150%;\">Viv\u00edamos o boom da psican\u00e1lise, de sorte que, ela ganhou, tamb\u00e9m, a universidade, atrav\u00e9s dos Consult\u00f3rios Modelo das faculdades de psicologia, dos servi\u00e7os de psiquiatria e da disciplina de psicologia m\u00e9dica, onde os profissionais de sa\u00fade eram estimulados a desenvolver um olhar mais abrangente com rela\u00e7\u00e3o ao paciente, pensando o sujeito n\u00e3o s\u00f3 como um \u00f3rg\u00e3o doente, mas um corpo que tem nome, hist\u00f3ria, no qual o adoecer seria apenas um cap\u00edtulo dessa hist\u00f3ria. As pesquisas sobre psicossom\u00e1tica trouxeram um novo vi\u00e9s para articular psican\u00e1lise e medicina, atrav\u00e9s da compreens\u00e3o da din\u00e2mica da forma\u00e7\u00e3o de sintomas, especialmente, nas doen\u00e7as autoimunes, gastrintestinais e cardiol\u00f3gicas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.45pt; line-height: 150%;\"><b style=\"mso-bidi-font-weight: normal;\">III \u2013 As cl\u00ednicas sociais<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.45pt; line-height: 150%;\">Finalmente a psican\u00e1lise <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">sensu stritu<\/i> foi preservada e divulgada atrav\u00e9s do atendimento regular realizado na grande maioria das sociedades atrav\u00e9s das Cl\u00ednicas Sociais. Freud (1923, p. 357), no pref\u00e1cio do relat\u00f3rio sobre a Policl\u00ednica de Berlim, parabenizou o amigo Max Eitingon, por t\u00ea-la criado e sustentado, exortando outros colegas ou sociedades a seguir seu exemplo. S\u00e3o palavras de Freud: \u201cSe a psican\u00e1lise, ao lado de sua significa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, tem valor como procedimento terap\u00eautico, se \u00e9 capaz de fornecer ajuda \u00e0queles que sofrem em sua luta para atender \u00e0s exig\u00eancias da civiliza\u00e7\u00e3o, esse aux\u00edlio deveria ser acess\u00edvel tamb\u00e9m \u00e0 grande multid\u00e3o, demasiado pobre para reembolsar um analista por seu laborioso trabalho. Isso parece constituir uma necessidade social particularmente em nossos tempos, quando os estratos intelectuais da popula\u00e7\u00e3o, sobremodo inclinados \u00e0 neurose, est\u00e3o irresistivelmente na pobreza. Institutos como a Policl\u00ednica de Berlim est\u00e3o tamb\u00e9m isolados na posi\u00e7\u00e3o de superar as dificuldades que, por outro lado, se erguem no caminho de uma instru\u00e7\u00e3o completa em psican\u00e1lise. Eles tornam poss\u00edvel a instru\u00e7\u00e3o de um n\u00famero consider\u00e1vel de analistas, cuja atividade deve ser encarada como a \u00fanica prote\u00e7\u00e3o poss\u00edvel contra o dano causado aos pacientes por pessoas n\u00e3o qualificadas, sejam elas leigos ou m\u00e9dicos\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.45pt; line-height: 150%;\">Essa proposta ainda vigora, todavia, observamos, gra\u00e7as \u00e0 bibliografia consultada, uma mudan\u00e7a radical tanto na popula\u00e7\u00e3o que demanda quanto na que oferece tratamento, achado que merece ser problematizado. A popula\u00e7\u00e3o que procurava a cl\u00ednica nas d\u00e9cadas de 60 e 70, abrigava um n\u00famero consider\u00e1vel de cidad\u00e3os de classe m\u00e9dia: estudantes universit\u00e1rios, profissionais liberais em in\u00edcio de carreira, comerciantes, banc\u00e1rios, pessoas \u00a0que, se por um lado, tinha acesso a um m\u00e9todo de tratamento considerado elitista, por outro, socializava-o. Vale lembrar, ainda, que o arsenal terap\u00eautico da psiquiatria, \u00e0quela altura, era consideravelmente reduzido e o tratamento psicoter\u00e1pico veementemente recomendado, sendo natural, portanto, que os psiquiatras, \u00e0quela altura, de um modo geral, se \u00a0dirigissem aos institutos de forma\u00e7\u00e3o em psican\u00e1lise. Ali\u00e1s, engajar-se em um tratamento pessoal era demonstra\u00e7\u00e3o de seriedade no exerc\u00edcio profissional.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.45pt; line-height: 150%;\">Ao longo desses anos, a preocupa\u00e7\u00e3o com a instru\u00e7\u00e3o dos candidatos, como demonstrou a maioria dos artigos, foi um tema recorrente. Recomendava-se, por exemplo, que um analista em forma\u00e7\u00e3o, s\u00f3 deveria acompanhar casos de neurose, a fim de que se familiarizasse com a t\u00e9cnica cl\u00e1ssica, para mais tarde poder modific\u00e1-la adequando-a aos casos mais graves. At\u00e9 a d\u00e9cada de 80 esta conduta atendia \u00e0s necessidades do candidato \u00e0 analista, por\u00e9m, era insatisfat\u00f3ria para a popula\u00e7\u00e3o que buscava atendimento. A procura era grande e n\u00e3o havia n\u00famero suficiente de candidatos para absorver tal demanda. Sendo a psican\u00e1lise altamente valorizada e farta a oferta de cl\u00ednica particular, os candidatos se dirigiam \u00e0 Cl\u00ednica Social porque, somente atrav\u00e9s dela, teriam acesso ao paciente que analisariam sob supervis\u00e3o oficial. Publica\u00e7\u00f5es dessa \u00e9poca criticavam, ent\u00e3o, o abandono em que eram deixados os n\u00e3o escolhidos. Afinal, a sociedade era respons\u00e1vel pela demanda criada e deveria encontrar meios para atender a todos e, n\u00e3o apenas, aos que buscavam titula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 35.45pt; line-height: 150%;\">O s\u00e9culo XXI nos brindou com um cen\u00e1rio absolutamente diverso. A partir dos anos 90, a popula\u00e7\u00e3o que aflui \u00e0 cl\u00ednica empobreceu, constando principalmente de estudantes, comerci\u00e1rios, artes\u00e3os, secret\u00e1rias, taxistas, empregadas dom\u00e9sticas, etc, evidenciando a significativa penetra\u00e7\u00e3o do discurso da psican\u00e1lise em todas as camadas sociais. Al\u00e9m disso, os quadros patol\u00f3gicos se mostram progressivamente mais graves, seguindo a t\u00f4nica da cl\u00ednica em geral, tornando dif\u00edcil encontrar o paciente ideal para um analista em forma\u00e7\u00e3o: ora o quadro sendo muito grave, demanda um analista experiente, ora o caso \u00e9 adequado, todavia, o paciente n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de dispor de duas horas, quatro vezes por semana, em virtude da dist\u00e2ncia de seu domic\u00edlio ou local de trabalho, ou ainda em virtude da limita\u00e7\u00e3o or\u00e7ament\u00e1ria, apesar dos m\u00f3dicos honor\u00e1rios. \u00c9 importante lembrar que a cidade cresceu, o tr\u00e2nsito frequentemente \u00e9 ca\u00f3tico, tornando morosa a locomo\u00e7\u00e3o mesmo entre bairros vizinhos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent\">Por outro lado, mudou, tamb\u00e9m, a fei\u00e7\u00e3o dos profissionais que se oferecem para receber tal popula\u00e7\u00e3o. Os candidatos e, agora tamb\u00e9m, muitos membros titulados, frente \u00e0 diminui\u00e7\u00e3o de sua clientela, em virtude da oferta de outras alternativas psicoterap\u00eauticas, bem como, do crescimento da ind\u00fastria farmac\u00eautica, procuram construir sua cl\u00ednica privada atrav\u00e9s da cl\u00ednica social. Penso que, essas novas alternativas terap\u00eauticas, surgiram, como veremos adiante, no bojo das mudan\u00e7as sociais que contribu\u00edram para o decl\u00ednio do valor da psican\u00e1lise em nosso meio. Ao fim e ao cabo, o que era problem\u00e1tico h\u00e1 vinte anos \u2013 encontrar profissionais que atendesse a tanta demanda, sofreu uma reviravolta \u2013 atender a necessidade, n\u00e3o s\u00f3, de pacientes para as supervis\u00f5es oficiais, mas, tamb\u00e9m, para satisfazer a demanda de cl\u00ednica particular, quando a psican\u00e1lise, como m\u00e9todo terap\u00eautico, caiu em descr\u00e9dito. Cabe a quest\u00e3o: a Cl\u00ednica Social, acompanhando o movimento observado em todos os setores de presta\u00e7\u00e3o de sa\u00fade, transformou-se em uma cooperativa, a maneira dos conv\u00eanios? Se este \u00e9 o cen\u00e1rio que reflete a pol\u00edtica de sa\u00fade na contemporaneidade, qual seria o fiel que garantiria, n\u00e3o s\u00f3 a instru\u00e7\u00e3o de novos analistas, bem como um tratamento de qualidade para a popula\u00e7\u00e3o, como prop\u00f4s Freud? Afinal, trata-se de uma \u201ccooperativa\u201d singular: ela pertence a uma institui\u00e7\u00e3o formadora de psicanalistas. Essa quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 simples de responder, todavia, vale pensar a respeito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent\"><b style=\"mso-bidi-font-weight: normal;\">IV &#8211; O mal-estar na contemporaneidade<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent\">Para compreender os movimentos que redundaram nesse quadro e formular alguma proposta de reflex\u00e3o sobre as vicissitudes e o porvir da psican\u00e1lise, o pensamento da complexidade se apresenta como uma ferramenta privilegiada. Segundo ele, tudo aquilo que se apresenta \u00e9 fruto de uma organiza\u00e7\u00e3o moment\u00e2nea que depende para sua cria\u00e7\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o de in\u00fameras vari\u00e1veis. Nada est\u00e1 pronto ou \u00e9 definitivo, desde a organiza\u00e7\u00e3o celular \u00e0 estrutura macroecon\u00f4mica de um pa\u00eds. Sendo assim, para sustentar este arrazoado, recorrerei a Michel Foucault e a Zigmunt Balman, porque Foucault apontou a \u00edntima rela\u00e7\u00e3o entre as estruturas sociais e o poder que permeia as rela\u00e7\u00f5es humanas e Bauman dedicou-se, nos \u00faltimos anos, a pesquisar os efeitos sociais da, assim chamada, p\u00f3s-modernidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent\">Para Foucault (1979) n\u00e3o existe uma teria geral do poder, nem existe nele uma ess\u00eancia com caracter\u00edsticas universais. Trata-se de uma pr\u00e1tica social, constitu\u00edda historicamente, e em constante transforma\u00e7\u00e3o. Examinando a hist\u00f3ria da loucura, por exemplo, ele apontou a dist\u00e2ncia consider\u00e1vel entre os discursos te\u00f3ricos sobre a loucura e o tratamento oferecido aos loucos nas depend\u00eancias dos asilos, demonstrando que a ess\u00eancia da loucura n\u00e3o teria sido revelada pela psiquiatria. Ao contr\u00e1rio, a psiquiatria \u00e9 fruto de um processo de domina\u00e7\u00e3o da loucura exercido pelas inst\u00e2ncias sociais: a pol\u00edtica, a fam\u00edlia, a Igreja.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"mso-margin-top-alt: auto; text-align: justify; text-indent: 35.45pt; line-height: 150%;\">Logo, o que se depreende de suas afirma\u00e7\u00f5es \u00e9 que tanto a emerg\u00eancia da subjetividade, quanto da estrutura social, se estabelece a partir de um agenciamento de for\u00e7as, confirmando aquilo que, analogamente, se poderia extrair da teoria freudiana. Para ele as t\u00e9cnicas de exerc\u00edcio do poder visam o dom\u00ednio dos corpos, para adestr\u00e1-los, de sorte que, a tecnologia de controle n\u00e3o existe apenas nas penitenci\u00e1rias, mas tamb\u00e9m nos quart\u00e9is, hospitais, escolas e no pr\u00f3prio espa\u00e7o dom\u00e9stico. Ele elege, ent\u00e3o, o <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">Panopticon<\/i> de Jeremy Bentham &#8211; uma constru\u00e7\u00e3o circular com uma torre central, de onde um vigia poderia observar tudo o que se passasse no edif\u00edcio em torno &#8211; como a arquimet\u00e1fora do poder a partir do s\u00e9culo XVIII, ou seja, desde o in\u00edcio da modernidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent\">Surgia o poder disciplinar, um m\u00e9todo que permitia o controle minucioso das opera\u00e7\u00f5es do corpo, que assegurava a sujei\u00e7\u00e3o constante de suas for\u00e7as e lhe impunha uma rela\u00e7\u00e3o de docilidade \/ utilidade que fabricou o tipo de homem necess\u00e1rio ao funcionamento e manuten\u00e7\u00e3o da sociedade industrial \/ capitalista. A disciplina \u00e9 um tipo de organiza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o e do tempo, com o objetivo de alcan\u00e7ar o m\u00e1ximo de rapidez e de efici\u00eancia. A vigil\u00e2ncia deve ser cont\u00ednua, perp\u00e9tua, ilimitada, presente em toda a extens\u00e3o do espa\u00e7o. O olhar invis\u00edvel do <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">Panopticon<\/i> de Bentham, que permite tudo ver sem ser visto, domina quem \u00e9 vigiado com tal viol\u00eancia, que este adquire de si mesmo a vis\u00e3o de quem o olha.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-top: 6.0pt; text-align: justify; text-indent: 35.45pt; line-height: 150%;\">\u00c9 interessante sublinhar que a descri\u00e7\u00e3o do poder disciplinar, apresentada por Foucault, est\u00e1 na raiz do conceito de supereu, inst\u00e2ncia ps\u00edquica proposta por Freud. Na teoria psicanal\u00edtica, o supereu representa o agente da lei, o pai internalizado a partir da resolu\u00e7\u00e3o do complexo de \u00c9dipo, o olho que tudo v\u00ea, acompanhando o modelo de controle exercido pelo poder social no in\u00edcio da era moderna. Todavia, Lacan, em 1938, examinando a estrutura dos la\u00e7os familiares, argumentou que estaria ocorrendo na sociedade, justamente, o decl\u00ednio da fun\u00e7\u00e3o paterna, ou seja, a psican\u00e1lise traria uma ambig\u00fcidade na pr\u00f3pria origem. Ela se sustenta sobre os conceitos de falo e fun\u00e7\u00e3o paterna, no entanto, \u00e9 filha da modernidade. Historicamente, o Pai foi dado como morto desde a queda da monarquia, promovida pela Revolu\u00e7\u00e3o Francesa; morte, esta, reafirmada por Nietzsche no aforismo: \u201cDeus est\u00e1 morto\u201d. No entanto, a obra de Freud gira em torno da Lei e da castra\u00e7\u00e3o. Nosso mal estar seria conseq\u00fcente \u00e0 necessidade de abrir m\u00e3o da natureza para haver civiliza\u00e7\u00e3o. Dar conta dos excessos da civiliza\u00e7\u00e3o viria pelo m\u00e9todo de tornar consciente o inconsciente: liberar um tanto de natureza constrangida.\u00a0 A psican\u00e1lise surgiu a partir de uma atividade terap\u00eautica, uma pr\u00e1xis cuja pedra de toque \u00e9 o recalque. Aqueles, cuja posi\u00e7\u00e3o frente \u00e0 castra\u00e7\u00e3o n\u00e3o passasse por essa vicissitude, estariam exclu\u00eddos de seus benef\u00edcios. Aqui se perfilam as neuroses narc\u00edsicas, os psic\u00f3ticos, os perversos, justamente aqueles que mais frequentemente, hoje, demandam a nossa aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent\">Poder\u00edamos concluir, ent\u00e3o, que a causa do decl\u00ednio da fun\u00e7\u00e3o paterna ou da pulveriza\u00e7\u00e3o do poder, embora tenha se instalado no final do s\u00e9culo XVIII, de fato, somente evidenciou suas conseq\u00fc\u00eancias sociais e ps\u00edquicas, ao longo do s\u00e9culo XX. Tal constata\u00e7\u00e3o nos leva a admitir, portanto, que Freud tratou do mal-estar na modernidade e, quanto a n\u00f3s, carece pensa-lo na contemporaneidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent\">Neste caso, as reflex\u00f5es do soci\u00f3logo Zygmunt Bauman (2000) s\u00e3o preciosas e se articulam, como uma continuidade, ao pensamento de Foucault. Para ele, a modernidade compreenderia duas fases. A primeira, a fase s\u00f3lida, fase do controle pan\u00f3ptico, que Foucault t\u00e3o bem examinou, seria aquela assentada nos valores tradicionais, sobre os quais se desenvolveu a obra freudiana. Surgida com a queda da monarquia, na Fran\u00e7a, manteve a rela\u00e7\u00e3o vertical do sujeito com o poder, promovendo o ideal burgu\u00eas de ren\u00fancia ao gozo, em benef\u00edcio da disciplina, que leva ao ac\u00famulo de capital. A segunda fase, a fase leve ou l\u00edquida, surgiu com a ordem de derreter os s\u00f3lidos, cunhada pelo Manifesto Comunista. Segundo essa proposta, s\u00f3 seria poss\u00edvel tratar uma sociedade estagnada, resistente \u00e0 mudan\u00e7a, derretendo os s\u00f3lidos, dissolvendo o que persistisse no tempo e fosse infenso a sua passagem, ou ao seu fluxo. No rastro desse grito de guerra contra a tradi\u00e7\u00e3o, \u00e0s cren\u00e7as ou lealdades que permitiam aos \u201cs\u00f3lidos\u201d resistir \u00e0 liquefa\u00e7\u00e3o, engendrou-se a face mais feroz do capitalismo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent\">Esse movimento pulverizou a complexa rede de rela\u00e7\u00f5es sociais, liberando-a de seus tradicionais embara\u00e7os pol\u00edticos, \u00e9ticos e culturais, dissolvendo os elos que vinculavam as escolhas individuais com os projetos e a\u00e7\u00f5es coletivas. Se a moral burguesa, na primeira fase, convocava ao recalque do gozo em proveito das realiza\u00e7\u00f5es culturais, na fluidez do capitalismo desenfreado, a produ\u00e7\u00e3o incessante de bens de consumo inverteu a rela\u00e7\u00e3o entre oferta e procura: primeiro se inventa o produto e depois se cria demanda, da\u00ed o crescimento da m\u00e1quina publicit\u00e1ria. O decl\u00ednio dos ideais desaguou em uma forma de viver que evita limitar ou adiar qualquer satisfa\u00e7\u00e3o em proveito de realiza\u00e7\u00f5es culturais ou do bem-estar das futuras gera\u00e7\u00f5es. A virtude est\u00e1 em conseguir dinheiro para trocar por novos bens. N\u00e3o \u00e9 surpreendente, portanto, que os sintomas contempor\u00e2neos apontem para o desinteresse pela participa\u00e7\u00e3o na esfera p\u00fablica e\/ou para o abandono \u00e0 compulsividade em geral.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent\">\u00a0Bauman considera a contemporaneidade uma era p\u00f3s-pan\u00f3ptica. O pan\u00f3ptico era um modelo de engajamento e confronta\u00e7\u00e3o de membros entre os dois lados da rela\u00e7\u00e3o de poder. Na segunda modernidade, o poder se move com a velocidade do sinal eletr\u00f4nico, sendo o telefone celular, a arquimet\u00e1fora desta instantaneidade. A diferen\u00e7a entre pr\u00f3ximo e distante est\u00e1 a ponto de desaparecer, o poder se tornou verdadeiramente extraterritorial. O fim do pan\u00f3ptico marca o fim da era do engajamento. As principais t\u00e9cnicas do poder s\u00e3o agora a fuga, o desvio, evitar qualquer confinamento territorial, com seus corol\u00e1rios de constru\u00e7\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o da ordem, presen\u00e7a e engajamento. A express\u00e3o \u201cficar\u201d ilustra bem esse fen\u00f4meno social, significa o encontro ef\u00eamero entre duas pessoas que pretendem momentaneamente trocar car\u00edcias, sexo, sem qualquer compromisso com a manuten\u00e7\u00e3o de um v\u00ednculo. Por outro lado, a \u201cs\u00edndrome do p\u00e2nico\u201d, epidemia da d\u00e9cada de 90, representou uma dolorosa rea\u00e7\u00e3o contra a rapidez deste fluxo. O sujeito se paralisa, para paralisar o tempo e se fixar no espa\u00e7o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent\">Os poderes globais desataram os la\u00e7os que prendiam o sujeito ao solo, \u00e0 fam\u00edlia, ao grupo social, para garantir a fluidez. A globaliza\u00e7\u00e3o aboliu todas as fronteiras. O sujeito n\u00e3o constr\u00f3i mais uma carreira, ele participa de tarefas, de sorte que, mudar\u00e1 de emprego regularmente, assim que finda-las, migrando de uma cidade para outra e at\u00e9 mesmo, se necess\u00e1rio, mudando de pa\u00eds. As multinacionais, por exemplo, n\u00e3o pertencem a nenhuma na\u00e7\u00e3o, portanto, n\u00e3o devem fidelidade a nenhuma bandeira. Em contrapartida \u00e9 a fragilidade dos la\u00e7os humanos que permite que esses poderes atuem promovendo mais e mais desengajamento. Para Bauman, este mundo descart\u00e1vel, \u00e9 o terr\u00edvel mundo novo desenhado a partir da modernidade l\u00edquida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent\">Aquilo que nos interessa sublinhar, a partir das afirma\u00e7\u00f5es de Foucault e Bauman, \u00e9 sua analogia com a defini\u00e7\u00e3o de decl\u00ednio da fun\u00e7\u00e3o paterna, proposto por Lacan, em 1938. Como sabemos, Freud afirmou que a identifica\u00e7\u00e3o com a autoridade parental regularia o acesso \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o pulsional. Renuncia-se \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o para n\u00e3o perder o amor do objeto, o que aponta para a distin\u00e7\u00e3o entre escolha de objeto e identifica\u00e7\u00e3o. Para Lacan, a cl\u00ednica freudiana se apoiava no recalque, como posi\u00e7\u00e3o assumida pelo sujeito frente \u00e0 castra\u00e7\u00e3o, o que nos leva a concluir que, naquela \u00e9poca, a posi\u00e7\u00e3o neur\u00f3tica seria dominante na cultura. Miller (1999), relendo Lacan, afirmou que, em virtude do decl\u00ednio dos ideais, fen\u00f4meno que, para Bauman, caracteriza a p\u00f3s-modernidade, a posi\u00e7\u00e3o psic\u00f3tica tornou-se dominante na cultura. N\u00e3o se trata mais do recalque e sim da foraclus\u00e3o, da exclus\u00e3o localizada, individual e particular por um sujeito, daquilo que a psican\u00e1lise sup\u00f5e ser o operador universal do desejo inconsciente, a verdade recalcada em qualquer sintoma: o nome-do-pai. N\u00e3o se trata mais da cl\u00ednica do conflito e sim da cl\u00ednica da dissocia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent\">Apoiada nessas reflex\u00f5es, Coelho dos Santos (2001), em uma cuidadosa pesquisa, onde articula sintoma, poder e la\u00e7o social, demonstra que a contemporaneidade exibe os efeitos mais radicais do discurso da ci\u00eancia e, desafortunadamente, sem o anteparo do nome-do-pai, da tradi\u00e7\u00e3o, os efeitos do Outro universalizante da ci\u00eancia podem ser devastadores. A demanda sem limite do Outro contempor\u00e2neo requer a divis\u00e3o do sujeito al\u00e9m do que o corpo ou o aparelho ps\u00edquico podem suportar e subjetivar, de sorte que, os sintomas contempor\u00e2neos n\u00e3o representam mais as met\u00e1foras do desejo, e sim, novas modalidades de gozo. Diferentemente das neuroses tradicionais, n\u00e3o se pode mais atribuir ao pai a causa de uma falha de gozar. Faltando esse \u00e1libi, o sujeito atribui a si mesmo aquilo que falta para que seu gozo seja completo. N\u00e3o se trata de proibi\u00e7\u00e3o, o sujeito \u00e9 que n\u00e3o est\u00e1 a altura de realizar aquilo que a cultura promete. Logo, os novos quadros cl\u00ednicos n\u00e3o se estruturam em torno do que falta no campo dos ideais paternos e sim do que falta ao pr\u00f3prio corpo e ao pr\u00f3prio eu. Da\u00ed, os quadros de depress\u00e3o, auto-desvaloriza\u00e7\u00e3o, s\u00edndrome do p\u00e2nico, bulimia, anorexia, uso de drogas, consumismo desenfreado, ades\u00e3o viciosa ao trabalho, insatisfa\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica com a forma do corpo, levando \u00e0 busca compulsiva de cirurgias pl\u00e1sticas, dietas, gin\u00e1sticas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent\" style=\"text-indent: 35.45pt;\">Contradizendo a proposta freudiana, nossa civiliza\u00e7\u00e3o tenderia a fazer coincidir o ideal \u2013 o ser, com o objeto de satisfa\u00e7\u00e3o \u2013 o ter. Sendo assim, os novos sintomas nos levam a repensar a rela\u00e7\u00e3o entre a identifica\u00e7\u00e3o e o gozo. Eles funcionam simultaneamente como solu\u00e7\u00e3o de compromisso entre o pulsional e a barreira imposta pelo supereu e como identifica\u00e7\u00e3o ou nome que estanca a deriva pulsional. Isso nos deixa \u00e0s voltas com as diversas tribos ou s\u00edndromes, que sup\u00f5em fam\u00edlias: os somatizantes, os drogaditos, os tatuados. O nome localiza o gozo e ao mesmo tempo identifica o sujeito. Se no lugar da tradi\u00e7\u00e3o s\u00f3lida e consistente temos a inconsist\u00eancia, a liquidez das conven\u00e7\u00f5es, a debilidade do la\u00e7o com o pai, deixaria o sujeito desarmado frente ao desejo da m\u00e3e, o Outro inconsistente. A sombra desse Outro devorador, livre da temperan\u00e7a da lei paterna, se abate sobre o eu, revelando seu efeito devastador: os excessos. Os excessos est\u00e3o na base das novas e particulares formas de usufruir do corpo e dos la\u00e7os sociais, em virtude da identifica\u00e7\u00e3o a um Outro que n\u00e3o tem a consist\u00eancia do nome-do-pai, de um Outro plural e caprichoso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent\" style=\"text-indent: 35.45pt; tab-stops: 134.25pt;\">Parece que, os desafios da cl\u00ednica contempor\u00e2nea, revelados atrav\u00e9s do microcosmo das Cl\u00ednicas Sociais, articulados com as reflex\u00f5es a respeito do tecido social do qual ela emerge, colocam uma p\u00e1 de cal no edif\u00edcio da psican\u00e1lise. \u00c9 justo o contr\u00e1rio. Creio que o saber da psican\u00e1lise tem muito a contribuir para compreens\u00e3o e al\u00edvio do sofrimento ps\u00edquico nesses tempos velozes em que pensar se torna um ato t\u00e3o revolucion\u00e1rio quanto o \u201cdizer tudo o que vier \u00e0 cabe\u00e7a\u201d foi um dia, nos anos 60. Hoje, o que est\u00e1 em jogo n\u00e3o \u00e9, apenas, a resolu\u00e7\u00e3o dos conflitos, por\u00e9m, a pr\u00f3pria constitui\u00e7\u00e3o da subjetividade. A psican\u00e1lise sup\u00f5e pensar e pensar demanda tempo, bem que \u00e9 hoje t\u00e3o escasso, estando associado a dinheiro, a fazer dinheiro, quando a psican\u00e1lise prop\u00f5e que antes de fazer \u00e9 preciso ser. Tal urg\u00eancia promoveu a valoriza\u00e7\u00e3o das terapias cognitivo-comportamentais, que oferecem remiss\u00e3o de sintoma onde a psican\u00e1lise prop\u00f5e retifica\u00e7\u00e3o subjetiva. Esses recursos s\u00e3o muito bem-vindos. Indiscutivelmente \u00e9 desej\u00e1vel que em poucas sess\u00f5es um paciente possa retomar o trabalho ou voltar a alimentar-se. No entanto, sabemos ser imposs\u00edvel o desabrochamento de um sujeito sem que se acompanhe sua gesta\u00e7\u00e3o. Sabemos, tamb\u00e9m, que a remiss\u00e3o do sintoma n\u00e3o \u00e9 cura, nem em medicina nem em psican\u00e1lise. Como lidar com esse impasse?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent\" style=\"text-indent: 35.45pt; tab-stops: 134.25pt;\"><b>V \u2013 Criando subjetividades<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent\" style=\"text-indent: 35.45pt; tab-stops: 134.25pt;\">Aqui, o pensamento de Winnicott se torna uma ferramenta especialmente valiosa. Ele complexifica a psican\u00e1lise quando demonstra que a t\u00e9cnica cl\u00e1ssica atendia aos pacientes que se enquadravam nas neuroses de transfer\u00eancia. Para essas novas constru\u00e7\u00f5es da subjetividade carece uma outra abordagem e foi atendendo a esse tipo de pacientes que ele desenvolveu suas id\u00e9ias. A originalidade em Winnicott reside justamente na aposta que ele faz no tr\u00e2nsito, no devir. Na verdade o que ele prop\u00f5e com sua teoria e t\u00e9cnica \u00e9 uma est\u00e9tica da psican\u00e1lise, uma estil\u00edstica da exist\u00eancia: a vida como obra de arte. A psican\u00e1lise seria o espa\u00e7o potencial onde cada um de n\u00f3s pode encontrar seu estilo pessoal e \u00fanico de viver.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent\" style=\"text-indent: 35.45pt; tab-stops: 134.25pt;\">Essa proposta inovadora levou Deleuze (1984) a comentar, em sua cr\u00edtica \u00e0 psican\u00e1lise, que mesmo uma pensadora original como Melanie Klein havia se deixado render pelo discurso freudiano, transformando experi\u00eancias vividas em fantasmas. Winnicott, por\u00e9m, se encontraria no limite da psican\u00e1lise, em virtude da forma como a pratica. Ele \u201cpressente que h\u00e1 um momento em que n\u00e3o \u00e9 mais preciso traduzir, nem interpretar, traduzir em fantasmas, interpretar em significantes ou em significados. Ser\u00e1 preciso compartilhar, entrar no sofrimento com o doente, compartilhar de seu estado\u201d (Deleuze, 1984, p. 12). A descri\u00e7\u00e3o desse momento s\u00f3 poderia ser concebida pela express\u00e3o \u201cser conduzido com\u201d (Deleuze, 1984, 912).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent\" style=\"text-indent: 35.45pt; tab-stops: 134.25pt;\">\u00a0O que significa estar no limite da psican\u00e1lise? Essa afirma\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 ing\u00eanua. O conceito de transicionalidade n\u00e3o cabe dentro do paradigma da psican\u00e1lise? O paradigma da psican\u00e1lise est\u00e1 inserido na modernidade. Aponta para um sujeito cindido, uma estrutura tripartida &#8211; ego, id e superego, em que um ego \u00e9 agente dessa engrenagem, ainda que seu agir seja asujeitado por um mais al\u00e9m. Diferentemente, Winnicott pensa um terceiro espa\u00e7o, fora do aparelho ps\u00edquico, onde o mundo interno e o mundo externo se tornam \u00edntimos; um ego com fun\u00e7\u00e3o integradora do <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">self<\/i>, <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">self<\/i> este que se encontra em permanente transforma\u00e7\u00e3o: Ele diz: \u201c<i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">going on being\u201d<\/i>, ou seja, \u00abtornando-se\u00bb.\u00a0 A criatividade s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel gra\u00e7as \u00e0 postula\u00e7\u00e3o desse espa\u00e7o potencial, promotor do permanente devir.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-top: 6.0pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">Winnicott lembra que tomamos equivocadamente o conceito de sa\u00fade como aus\u00eancia de doen\u00e7a. Viver \u00e9 muito mais do que isso. A visada de tomar a rela\u00e7\u00e3o tranferencial, como espa\u00e7o potencial, e de entender a vida, genuinamente vivida, como a obra prima do sujeito, nos faz avan\u00e7ar mais al\u00e9m do rochedo da castra\u00e7\u00e3o. No lugar do gozo sintom\u00e1tico inventa-se um estilo de viver, sabendo-se que esse estilo \u00e9 a \u00fanica possibilidade de manobra frente \u00e0 onipot\u00eancia do desejo e a impossibilidade de satisfazer plenamente o que \u00e9 pulsional. Se o sintoma \u00e9 uma forma particular de gozo, as solu\u00e7\u00f5es de cada cura ser\u00e3o, tamb\u00e9m, in\u00e9ditas e particulares. Frente aos poderes l\u00edquidos da contemporaneidade o poder ef\u00eamero, todavia consistente, de criar um sujeito singular, estreita e enriquece os v\u00ednculos entre o indiv\u00edduo e a cultura.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-top: 6.0pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\"><b style=\"mso-bidi-font-weight: normal;\">Bibliografia<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-top: 6.0pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">Bauman, Z. (2000) <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">Modernidade L\u00edquida<\/i>. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 2001<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-top: 6.0pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">Coelho dos Santos,T. (2001) Quem precisa de an\u00e1lise hoje? O discurso anal\u00edtico: novos sintomas e novos la\u00e7os sociais. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2001<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-top: 6.0pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">Deleuze, G. \u201cPensamento N\u00f4made\u201d <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">in Por que Nietzsche?<\/i> Rio de Janeiro, Achiam\u00e9, 1984<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-top: 6.0pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">Foucault, M (1979) <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">Microf\u00edsica do Poder<\/i>. Rio de Janeiro, Graal, 1998<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-top: 6.0pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">Freud, S. (1923) \u201cPref\u00e1cio ao relat\u00f3rio sobre a Policl\u00ednica de Berlin (mar\u00e7o de 1920 a junho de 1922), de Max Eitingon\u201d <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">in Edi\u00e7\u00e3o Standad das Obras completas de Sigmund Freud, Vol. XIX<\/i>. Rio de Janeiro, Imago, 1969<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-top: 6.0pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">Lacan, J. (1938) <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">Os complexos familiares na forma\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo<\/i>. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 1993<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-top: 6.0pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">Miller, J. A. \u201cLe psicoses ordinaires\u201d <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">in Le Conversations d\u2019 Antibes<\/i>. Paris, Le Paon, Le Seuil, 1995<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-top: 6.0pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">Winnicott, D. W. (1971) O Brincar e a Realidade. Rio de Janeiro, Imago, 1975<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr align=\"left\" size=\"1\" width=\"33%\" \/>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Palestra apresentada na Mesa: Novas Patologias na Cl\u00ednica Social, no <b style=\"mso-bidi-font-weight: normal;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/b>\u00a02\u00b0 Encontro do N\u00facleo de Cl\u00ednica do Instituto de Estudos da Complexidade Cl\u00ednica: <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">Novas L\u00f3gicas Sociais?<\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><b style=\"mso-bidi-font-weight: normal;\">\u00a0<\/b><\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Psiquiatra, Psicanalista, Membro Efetivo da SBPRJ, Mestre em Teoria Psicanal\u00edtica pelo Instituto de Psicologia da UFRJ<\/p>\n<p><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cl\u00ednica Social: as conseq\u00fc\u00eancias metapsicol\u00f3gicas\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 das novas l\u00f3gicas sociais[1] &nbsp; &nbsp; \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Aida Ungier[2] &nbsp; &nbsp; Resumo: A partir dos relat\u00f3rios da Cl\u00ednica Social da SBPRJ, nos \u00faltimos 40 anos, a autora faz uma articula\u00e7\u00e3o entre as novas l\u00f3gicas sociais e o mal-estar na contemporaneidade, com vistas a pensar os recursos oferecidos pela psican\u00e1lise frente [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-83","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-textos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/iecomplex.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/83","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/iecomplex.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/iecomplex.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/iecomplex.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/iecomplex.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=83"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/iecomplex.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/83\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":793,"href":"https:\/\/iecomplex.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/83\/revisions\/793"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/iecomplex.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=83"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/iecomplex.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=83"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/iecomplex.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=83"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}