{"id":92,"date":"2015-10-09T23:56:08","date_gmt":"2015-10-09T23:56:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iecomplex.com.br\/19-html\/"},"modified":"2023-12-25T13:36:12","modified_gmt":"2023-12-25T13:36:12","slug":"19-html","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/iecomplex.com.br\/es\/19-html\/","title":{"rendered":"Tereza Estarque \u00abDa Rivalidade \u00e0 Solidariedade: uma travessia \u00e9tica poss\u00edvel ?\u00bb"},"content":{"rendered":"<p><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: center; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\" align=\"center\"><b style=\"mso-bidi-font-weight: normal;\">Da Rivalidade \u00e0 Solidariedade: uma travessia \u00e9tica poss\u00edvel ?<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: center; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\" align=\"center\"><b style=\"mso-bidi-font-weight: normal;\">Tereza Mendon\u00e7a Estarque<\/b><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref\"><b style=\"mso-bidi-font-weight: normal;\">*<\/b><\/a><b style=\"mso-bidi-font-weight: normal;\"><\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: center; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\" align=\"center\">\u201c As grandes solidariedades s\u00e3o, de fato, tecidas de servid\u00e3o, aliena\u00e7\u00e3o, explora\u00e7\u00e3o.\u201d<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref\">[1]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\"><b style=\"mso-bidi-font-weight: normal;\">1.Introdu\u00e7\u00e3o:<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">O pensamento da Complexidade nos ensina que as dicotomias n\u00e3o correspondem \u00e0 realidade complexa da vida, mas \u00e0s tend\u00eancias simplificadoras de nosso modo de conceb\u00ea-la. N\u00e3o se pode, portanto, dentro desta perspectiva, pretender uma concep\u00e7\u00e3o de mundo na qual os modos de rela\u00e7\u00f5es poss\u00edveis, ego\u00edsmo x altru\u00edsmo, rivalidade x solidariedade se apresentem de forma pura e isoladas. Devemos aprender a encarar estas modalidades de estar no mundo de forma menos manique\u00edsta, j\u00e1 que o ego\u00edsmo cumpre uma fun\u00e7\u00e3o vital para a sobreviv\u00eancia do indiv\u00edduo e a rivalidade, da mesma forma, para a preserva\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie. Esta afirma\u00e7\u00e3o pode parecer chocante num primeiro momento e \u00e9 extremamente importante que seja compreendida, motivo pelo qual dedicarei especialmente a ela um dos t\u00f3picos deste trabalho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">\u00a0Na verdade, o melhor resultado poss\u00edvel parece ser um equil\u00edbrio, decorrente da luta permanentemente empreendida entre estas polaridades. Equil\u00edbrio aqui, deve ser tomado em seu aspecto de instabilidade, de imperman\u00eancia, de aus\u00eancia de vit\u00f3ria duradoura de certo grupo de for\u00e7a sobre outros. Sujei\u00e7\u00f5es, domina\u00e7\u00f5es e emerg\u00eancias se alternam, para a sa\u00fade de todas as formas de organiza\u00e7\u00e3o, sejam elas individuais ou coletivas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">No entanto, quando estamos diante de dilemas \u00e9ticos, temos a tend\u00eancia, plenamente justific\u00e1vel, de sonhar com <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">o melhor dos mundos, <\/i>do qual estariam banidos, definitivamente, sofrimento, injusti\u00e7as, segrega\u00e7\u00f5es,\u00a0 enfim, todas as a\u00e7\u00f5es que, mesmo praticadas por um \u00fanico individuo, maculam e envergonham\u00a0 a totalidade da humanidade. N\u00e3o me refiro somente aos grandes d\u00e9spotas de nossa hist\u00f3ria, mas \u00e0s pequenas tiranias cotidianas de a\u00e7\u00f5es ordin\u00e1rias que repercutem, aqui e ali, produzindo seus efeitos no desencadear de uma infinidade de respostas auto e retro-afetantes que escapam ao nosso controle. Ainda assim, este inextrinc\u00e1vel jogo de inter-rela\u00e7\u00f5es e retroa\u00e7\u00f5es que caracterizam o que Edgar Morin vai chamar de <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">Ecologia da a\u00e7\u00e3o, <\/i>\u00e9<i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\"> <\/i>absolutamente necess\u00e1rio \u00e0 vida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">O pensamento da psican\u00e1lise, que compartilho por minha forma\u00e7\u00e3o, apresenta in\u00fameras afinidades com as id\u00e9ias do paradigma da complexidade. \u00c9 claro que n\u00e3o podemos falar de uma \u00fanica psican\u00e1lise, pois sabemos que existem muitas, mas h\u00e1 sem d\u00favida uma \u00e1rea de interse\u00e7\u00e3o compartilhada que permite situar um discurso no campo da psican\u00e1lise. N\u00e3o entrarei nesta discuss\u00e3o a respeito do que caracteriza sua especificidade. Direi apenas que seus fundamentos, lan\u00e7ados no \u00e1pice hegem\u00f4nico do pensamento cl\u00e1ssico, apresentam aspectos que o aproximam do modelo explicativo que veio a ser utilizado posteriormente pela teoria da complexidade. Por este motivo, creio poder servir-me de ambos, ou de suas converg\u00eancias, para a abordagem do tema proposto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">Antes disto, e por se tratar aqui de um semin\u00e1rio sobre complexidade, tentarei situar o pensamento da psican\u00e1lise, tomando como ponto de partida o pensamento freudiano, dentro da perspectiva do pensamento complexo. Seria poss\u00edvel estabelecer esta rela\u00e7\u00e3o ?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%; mso-pagination: none; margin: 3.0pt -4.65pt 3.0pt -13.5pt;\"><b style=\"mso-bidi-font-weight: normal;\">2.Psican\u00e1lise e Complexidade<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">Para come\u00e7ar esta aproxima\u00e7\u00e3o, creio poder dizer que o Pensar Complexo requer uma opera\u00e7\u00e3o ps\u00edquica de natureza narc\u00edsica; o narcisismo pleiteia estabilidade e o Pensamento Complexo\u00a0 aposta na conviv\u00eancia com a instabilidade, com a incerteza, com o fugaz, com a possibilidade de coincid\u00eancia entre ordem e desordem ou seja, uma dif\u00edcil opera\u00e7\u00e3o ps\u00edquica que faculte ao sujeito\u00a0 relacionar-se com um saber para sempre inacabado. Bachelard<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref\">[2]<\/a>\u00a0 j\u00e1 havia anunciado\u00a0 em\u00a0 1932, evocando as mudan\u00e7as que se delineavam a\u00a0 partir da nova ci\u00eancia,\u00a0 as <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">perturba\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica trazida pela d\u00favida sobre a objetividade dos conceitos de base<\/i>.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">Idealmente,\u00a0 para que possamos \u00a0transitar\u00a0 nos interior destes saberes e para ancorarmos neles nossos pensamentos\u00a0 e produ\u00e7\u00f5es, ter\u00edamos que ser capazes de realizar esta opera\u00e7\u00e3o que \u00e9, antes de mais nada, uma mudan\u00e7a pessoal\u00a0 e subjetiva em rela\u00e7\u00e3o\u00a0 \u00e0s nossas expectativas para com\u00a0 o mundo.\u00a0 O que esperar\u00a0 do conhecimento? Como abordar\u00a0 uma realidade\u00a0 concebida\u00a0 por um pensamento que a define como fugidia, incorp\u00f3rea, faltosa? N\u00e3o se trata de uma desist\u00eancia diante de sua esmagadora complexidade, mas de um outro enquadramento que busca visualizar\u00a0 sob outro \u00e2ngulo,\u00a0 a perda de uma objetividade\u00a0 pretendida atrav\u00e9s do recorte dos objetos.\u00a0 Trata-se de repensar a realidade a partir dos acr\u00e9scimos\u00a0 de informa\u00e7\u00e3o que\u00a0 adv\u00eam\u00a0 do processo de contextualiza\u00e7\u00e3o de suas partes, redimensionalizando-a no inter-jogo\u00a0 relacional que\u00a0 indica\u00a0 sempre a dire\u00e7\u00e3o da multi-causalidade e da sobredetermina\u00e7\u00e3o dos sentidos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">Na oficina de psican\u00e1lise do CILPEC<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref\">[3]<\/a>, no Rio de Janeiro, Edgar Morin comentou que o pensamento da psican\u00e1lise sempre foi complexo. Freud transitou com desenvoltura entre os diferentes saberes, literatura, biologia, antropologia, filosofia, f\u00edsica etc\u2026 Parodiando E. Morin, dir\u00edamos que Freud era um <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">contrabandista de id\u00e9ias,<\/i>\u00a0 um pensador transdisciplinar. Por\u00e9m, viveu um per\u00edodo hist\u00f3rico onde o paradigma da ci\u00eancia cl\u00e1ssica imperava soberano. Utilizou a termodin\u00e2mica como modelo para o funcionamento ps\u00edquico e abusou de formula\u00e7\u00f5es determin\u00edsticas. Sua capacidade criativa, por\u00e9m, foi al\u00e9m das amarras\u00a0 paradigm\u00e1ticas de seu tempo. Ao formular o conceito de inconsciente, Freud apontou para um furo no conhecimento do homem sobre si pr\u00f3prio, e acertou em cheio os ideais de completude do saber iluminista, o que se caracterizou na nomenclatura de Lacan, como nossa condi\u00e7\u00e3o de <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">sujeito dividido<\/i>. Ao postular uma outra l\u00f3gica para o inconsciente, balan\u00e7ou os s\u00f3lidos alicerces da l\u00f3gica formal\u00a0 e concebeu uma outra temporalidade, a da posterioriedade. Freud legitimou a intui\u00e7\u00e3o dos escritores criativos como forma de acesso \u00e0 realidade, trabalhou com temas pol\u00eamicos como a telepatia e tantos outros desprezados pela ci\u00eancia cl\u00e1ssica. Atrav\u00e9s do conceito de puls\u00e3o, aboliu as fronteiras entre natureza e cultura, costurando o som\u00e1tico e o ps\u00edquico. Utilizou formula\u00e7\u00f5es sobre o psiquismo do indiv\u00edduo para pensar e esclarecer modos de funcionamento de grupos e de povos, como fez em Mois\u00e9s e o Monote\u00edsmo, antecipando os furos para cima e para baixo que Morin aponta em \u201c O Paradigma Perdido.\u201d Portanto, parece claro que a psican\u00e1lise contribuiu, junto a outros saberes, como a f\u00edsica qu\u00e2ntica, a cosmologia e a biologia molecular, para a cria\u00e7\u00e3o do solo epist\u00eamico que se tornou conhecido como Novo Paradigma.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">Vejamos abaixo uma breve s\u00edntese dos principais aspectos que caracterizam as diferentes formas de pensar constituintes dos chamados paradigmas da modernidade e da complexidade, bem como uma aproxima\u00e7\u00e3o entre este e o que podemos pretender chamar de paradigma da psican\u00e1lise freudiana.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt;\">Id\u00e9ias B\u00e1sicas do Paradigma Moderno<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 36.0pt; mso-pagination: none; margin: 3.0pt -4.65pt 3.0pt -13.5pt;\">1) Separa\u00e7\u00e3o entre homem e natureza (sujeito e objeto)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 36.0pt; mso-pagination: none; margin: 3.0pt -4.65pt 3.0pt -13.5pt;\">2) Natureza submetida a leis deterministas (causa e efeito)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 36.0pt; mso-pagination: none; margin: 3.0pt -4.65pt 3.0pt -13.5pt;\">3) O real \u00e9 dado, cognosc\u00edvel por inteiro<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 36.0pt; mso-pagination: none; margin: 3.0pt -4.65pt 3.0pt -13.5pt;\">4) Sujeito pleno de consci\u00eancia<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 36.0pt; mso-pagination: none; margin: 3.0pt -4.65pt 3.0pt -13.5pt;\">5) O conhecimento est\u00e1 ao encargo da raz\u00e3o<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 36.0pt; mso-pagination: none; margin: 3.0pt -4.65pt 3.0pt -13.5pt;\">6) A verdade \u00e9 um caso de aquisi\u00e7\u00e3o ou de adequa\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 36.0pt; mso-pagination: none; margin: 3.0pt -4.65pt 3.0pt -13.5pt;\">\u00a0\u00a0\u00a0 (via representa\u00e7\u00e3o)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 36.0pt; mso-pagination: none; margin: 3.0pt -4.65pt 3.0pt -13.5pt;\">7) O tempo \u00e9 espacializado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 36.0pt; mso-pagination: none; margin: 3.0pt -4.65pt 3.0pt -13.5pt;\">Id\u00e9ias B\u00e1sicas do Paradigma da Complexidade:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 36.0pt; mso-pagination: none; margin: 3.0pt -4.65pt 3.0pt -13.5pt;\">1) Nova alian\u00e7a entre homem e natureza<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 36.0pt; mso-pagination: none; margin: 3.0pt -4.65pt 3.0pt -13.5pt;\">2) Autopoiesis<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 36.0pt; mso-pagination: none; margin: 3.0pt -4.65pt 3.0pt -13.5pt;\">3) O real \u00e9 ao mesmo tempo dado e produzido,<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 36.0pt; mso-pagination: none; margin: 3.0pt -4.65pt 3.0pt -13.5pt;\">\u00a0\u00a0\u00a0 apresentando-se sempre faltoso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 36.0pt; mso-pagination: none; margin: 3.0pt -4.65pt 3.0pt -13.5pt;\">4) Furo no saber totalizado: formula\u00e7\u00e3o do inconsciente<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 36.0pt; mso-pagination: none; margin: 3.0pt -4.65pt 3.0pt -13.5pt;\">5) Raz\u00e3o e intui\u00e7\u00e3o se complementam<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify; text-indent: 36.0pt; mso-pagination: none; margin: 3.0pt -4.65pt 3.0pt -13.5pt;\">6) O fim das certezas\/Crise da representa\u00e7\u00e3o\/Crise da percep\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt;\">7) O tempo \u00e9 produzido no interior dos sistemas. (flecha do tempo)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">Id\u00e9ias B\u00e1sicas do Paradigma da Psican\u00e1lise:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">\u00a0 1)Reafirma a alian\u00e7a entre o homem e a natureza:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">\u00a0\u00a0 &#8211; Freud postula que o homem seja o ser da puls\u00e3o; este conceito supera o dualismo cartesiano, costurando, por seu car\u00e1ter lim\u00edtrofe, o som\u00e1tico (natureza) e o ps\u00edquico (cultura).<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref\">[4]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">\u00a0\u00a0 &#8211; Freud construiu hip\u00f3teses te\u00f3ricas a partir de compara\u00e7\u00f5es entre o funcionamento de organismos unicelulares e o de organismos complexos (homem). Estabeleceu analogias entre o psiquismo dos indiv\u00edduos e o modo de operar dos grupos sociais. Neste sentido, havia j\u00e1 intu\u00eddo, antes da revolu\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica, os \u201cfuros para cima e para baixo\u201d, dos quais nos fala Morin.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">\u00a0 &#8211; As descobertas das pesquisas etol\u00f3gicas v\u00eam diminuindo o abismo que, segundo ele, nosso narcisismo havia aberto entre os homens e os animais. Hoje sabemos que existe tabu do incesto entre algumas esp\u00e9cies animais, assim como organiza\u00e7\u00f5es sociais e c\u00f3digos de linguagem relativamente complexos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">2) Determinismo X Sobredetermina\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">\u00a0\u00a0 &#8211; A quest\u00e3o da causalidade ps\u00edquica \u00e9 bastante pregnante na obra de Freud e converge, em muitos aspectos, com o paradigma cl\u00e1ssico. Contudo, Freud trabalha privilegiando a sobredetermina\u00e7\u00e3o em detrimento da causalidade linear, ainda que isto produzisse um certo desconforto em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s exig\u00eancias do paradigma cientificista vigente em sua \u00e9poca. H\u00e1 tamb\u00e9m em seu legado, um espa\u00e7o privilegiado para o inesperado, pois h\u00e1 algo na puls\u00e3o e na pr\u00f3pria estrutura do inconsciente, que sempre escapa \u00e0 causalidade em seu sentido restrito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">\u00a03) O real \u00e9 ao mesmo tempo dado e produzido apresentando-se sempre como faltoso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent3\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">Freud nunca negligenciou a realidade vivida, quer seja pelo indiv\u00edduo ou pela esp\u00e9cie. Importava-se com os dados precisos da anamn\u00e9sia enquanto realidade concreta, mas tamb\u00e9m enfatizou a realidade ps\u00edquica como produtora de novas significa\u00e7\u00f5es, na eterna tentativa do sujeito para circunscrever este Real imposs\u00edvel de simbolizar, n\u00e3o cessando contudo de se apresentar em sua dimens\u00e3o bruta e faltosa, produzindo um jogo din\u00e2mico e intermin\u00e1vel de constru\u00e7\u00e3o da realidade que experimentamos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">A id\u00e9ia de <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">s\u00e9ries complementares<\/i> tamb\u00e9m nos indica esta interse\u00e7\u00e3o combinat\u00f3ria entre o real herdado e constitucional, as aquisi\u00e7\u00f5es do vivido e os fatores desencadeantes, frutos do acaso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">\u00a04) Furo no saber totalizado: formula\u00e7\u00e3o do inconsciente<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">\u00a0Esta teria sido, talvez, a principal e mais desconcertante contribui\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise para a hist\u00f3ria do pensamento. Suas conseq\u00fc\u00eancias para a ci\u00eancia precisam ultrapassar a esfera da filosofia e atingir o cerne da forma\u00e7\u00e3o dos cientistas, ainda fundamentalmente t\u00e9cnica, para que se possa, ent\u00e3o, auferir mudan\u00e7as significativas em sua pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">\u00a0 5) Raz\u00e3o e intui\u00e7\u00e3o se complementam:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">\u00a0\u00a0 &#8211; Freud dava extrema import\u00e2ncia ao conhecimento intuitivo, chamado por ele de endops\u00edquico; conferia lugar privilegiado aos escritores criativos, entendendo a fic\u00e7\u00e3o e a psican\u00e1lise como outras formas poss\u00edveis, al\u00e9m das ci\u00eancias duras, para o conhecimento da realidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">\u00a0 &#8211; O homem deixa de ser apenas um ser racional e passa a ser visto como um ser de afetos.<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref\">[5]<\/a> Freud admite ainda a possibilidade de comunica\u00e7\u00e3o entre inconscientes<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref\">[6]<\/a>, hip\u00f3tese que, por motivos \u00f3bvios, dado o contexto cultural em que vivia, teve que deixar um pouco de lado, sob pena de ver a psican\u00e1lise ser degradada, confundida com crendices e supersti\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">6) O fim das certezas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">\u00a0Ponto de vista em perfeito acordo com a \u00e9tica da psican\u00e1lise que \u00e9 contr\u00e1ria a qualquer vis\u00e3o de mundo e a qualquer pedagogia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">Na dire\u00e7\u00e3o de uma cura, o analista n\u00e3o pode saber, a priori, os resultados de uma an\u00e1lise, uma vez que o processo n\u00e3o visa atingir objetivos definidos previamente. O trabalho anal\u00edtico ancora-se nos movimentos do desejo o que acarreta necessariamente um exerc\u00edcio de conviv\u00eancia com o princ\u00edpio da incerteza.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">\u00a07)Descontinuidade temporal<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">\u00a0 &#8211; O inconsciente \u00e9 atemporal e sua emerg\u00eancia \u00e9 descont\u00ednua e imprevis\u00edvel. Al\u00e9m disto, Freud trabalha com a hip\u00f3tese de caracteres transmitidos filogeneticamente e com o conceito de <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">a posteriori<\/i>. N\u00e3o h\u00e1 linearidade, mas encontro de diferentes tempos cujos significados se atualizam incessantemente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\"><b style=\"mso-bidi-font-weight: normal;\">3. Rivalidade e solidariedade no mundo biol\u00f3gico<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">Feita esta aproxima\u00e7\u00e3o, entre Psican\u00e1lise e Pensamento Complexo, passemos ao tema que \u00e9 o objeto principal deste texto: rivalidade e solidariedade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">Meu ponto de partida nesta abordagem localiza-se no universo biol\u00f3gico, para finalmente chegar \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es sociais humanas. Maturana e Varela introduzem, a partir da biologia, o conceito de autopoiese. Ainda que com algum preju\u00edzo de sua especificidade e com as ressalvas quanto \u00e0 necessidade de rigor em sua aplica\u00e7\u00e3o, a extens\u00e3o deste conceito para an\u00e1lise dos sistemas sociais, transcendeu em muito as expectativas e inten\u00e7\u00f5es iniciais de seus propositores. O que esta no\u00e7\u00e3o vem afirmar como grande novidade \u00e9 a exist\u00eancia de um espa\u00e7o de interse\u00e7\u00e3o entre o dentro e o fora, mediada pela autonomia do sistema. Baseando-se na concep\u00e7\u00e3o de auto-refer\u00eancia, postulam que todo ser vivo opera em dois diferentes registros: clausura operacional e acoplamento estrutural. Pelo primeiro, entende-se o conjunto de transforma\u00e7\u00f5es e opera\u00e7\u00f5es cognitivas no interior de um espa\u00e7o delimitado que lhe confere identidade. A partir disto, algo da ordem de um si-mesmo permanece como mem\u00f3ria celular, independentemente das condi\u00e7\u00f5es do meio ambiente; este reconhecimento do pr\u00f3prio implica a possibilidade de fechar-se sobre si, preservando-se em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s invas\u00f5es exteriores. O que importa aos autores \u00e9 ressaltar o aspecto da <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">autonomia<\/i> do sistema, o que n\u00e3o pode, de forma alguma, ser confundido com fechamento ou aus\u00eancia de intera\u00e7\u00e3o.<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref\">[7]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">O outro registro, nomeado como acoplamento estrutural, \u00e9 introduzido com o objetivo conceitual de tentar criar uma alternativa \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o solipsismo x representacionismo, apontando para um espa\u00e7o de interse\u00e7\u00e3o relacional que n\u00e3o privilegie o interior ou o exterior,\u00a0 \u201c <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">fazendo da<\/i><i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\"> <\/i><i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">reciprocidade hist\u00f3rica a chave de uma co-defini\u00e7\u00e3o entre um sistema aut\u00f4nomo e seu meio<\/i>.\u201d<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref\">[8]<\/a> Complexificando em muito o processo, a id\u00e9ia de input-output que caracterizava a computa\u00e7\u00e3o e fazia do organismo um puro sistema de processamento de informa\u00e7\u00e3o, \u00e9 substitu\u00edda, com vantagens, pela concep\u00e7\u00e3o de uma identidade som\u00e1tica dos multicelulares, dotando o corpo de um verdadeiro sistema cognitivo. O sistema imunol\u00f3gico \u00e9 tomado como exemplo, por excel\u00eancia,\u00a0 de um sistema autopoi\u00e9tico portador de autonomia e cogni\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria ao contr\u00e1rio da id\u00e9ia cl\u00e1ssica de um mero sistema de respostas aos ataques exteriores que agiriam como efeitos perturbadores.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">Esta conceitua\u00e7\u00e3o interessa aos prop\u00f3sitos deste texto por permitir uma explora\u00e7\u00e3o da id\u00e9ia do pr\u00f3prio nos seus aspectos egoc\u00eantricos e auto-referentes, mas, tamb\u00e9m, das possibilidades intr\u00ednsecas aos processos de acoplamento, apresentando-os como funcionamentos vitais interligados e isentos de colora\u00e7\u00e3o moral. A escolha de um destes aspectos em detrimento do outro, valorizando-os positiva ou negativamente, ao inv\u00e9s de perceb\u00ea-los em suas \u00edntimas rela\u00e7\u00f5es de mutualidades hist\u00f3ricas, ter\u00e1 como resultado um posicionamento reducionista.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">Seguindo esta linha de pensamento, todas as intera\u00e7\u00f5es que t\u00eam lugar na biocenose<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref\">[9]<\/a>, podem ser categorizadas em tr\u00eas diferentes tipos: complementares, concorrentes e antag\u00f4nicas. Morin compara as duas \u00faltimas a oceanos que circundam arquip\u00e9lagos de complementaridade\/solidariedade. Ainda que mais numerosas, opera-se um equil\u00edbrio entre tais processos de destrui\u00e7\u00e3o e de coes\u00e3o. Num primeiro momento, estas modalidades de conviv\u00eancia podem parecer excludentes ou indesej\u00e1veis; uma observa\u00e7\u00e3o mais atenta revela, muito ao contr\u00e1rio, que a delicada teia da vida depende profundamente desta curiosa coexist\u00eancia. Vejamos um exemplo claro e simples: a abelha parasita a flor alimentando-se de seu p\u00f3len mas, simult\u00e2neamente, ela o dissemina contribuindo para o ciclo vital da planta. O conjunto plantas\/animais encontra-se em permanente combate biof\u00e1gico, mas tamb\u00e9m em constante simbiose, o que garante o circuito oxig\u00eanio\/g\u00e1s carb\u00f4nico de uns aos outros.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">Toda organiza\u00e7\u00e3o viva tende a lutar para perseverar na exist\u00eancia, o que faz do autocentrismo uma caracter\u00edstica fundamental nesta tarefa de manuten\u00e7\u00e3o da vida. Mais do que isto \u00e9 necess\u00e1ria, como estamos vendo, uma fun\u00e7\u00e3o auto-referente que faculte ao indiv\u00edduo situar-se em rela\u00e7\u00e3o ao espa\u00e7o discriminando um dentro e um fora de si, diagnosticando aquilo que agrega e pode portanto ser incorporado, distinguindo-o de tudo aquilo que, por seu efeito desagregador, deve ser repelido ou mesmo combatido. Mesmo no reino vegetal, as rivalidades em busca da luz solar produzem sujei\u00e7\u00f5es locais, reveladas ao observador na tor\u00e7\u00e3o de galhos e na disputa das ra\u00edzes vizinhas que se empurram, se sobrep\u00f5em e se aniquilam. \u201c<i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">\u2026a competi\u00e7\u00e3o vegetal chega \u00e0 vezes, \u00e0 emiss\u00e3o de subst\u00e2ncias mortais que eliminam o concorrente.<\/i> <a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref\">[10]<\/a> No reino animal, preda\u00e7\u00f5es e competi\u00e7\u00f5es de toda sorte entre as esp\u00e9cies rivais, s\u00e3o plenamente justificadas pela imperiosa domina\u00e7\u00e3o imposta pela necessidade de preserva\u00e7\u00e3o .<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">Vemos que, do plano biol\u00f3gico, podemos retirar in\u00fameros exemplos desta atividade pr\u00f3pria do vivo, desde as rela\u00e7\u00f5es dos unicelulares entre si e com seu meio, passando pelo mundo vegetal, at\u00e9 as sociedades de mam\u00edferos, inclusive primatas, chegando \u00e0s sociedades humanas hist\u00f3ricas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">O pensamento ecologizado permite avaliar que, no conjunto, as a\u00e7\u00f5es resultam ser simultaneamente solid\u00e1rias, concorrentes e antag\u00f4nicas. Aponta ainda para o paradoxo da auto-ecofinalidade, segundo o qual, uma a\u00e7\u00e3o de finalidade ego\u00edsta, que \u00e9 necess\u00e1ria muitas vezes para a preserva\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo, pode ser transformada em seu oposto, por seu pertencimento a uma engrenagem\u00a0 de a\u00e7\u00f5es que inter-retroagem e escapam ao controle do ator, o que nos demonstra a complementaridade destas duas l\u00f3gicas inerentes \u00e0 vida: a autol\u00f3gica e a ecol\u00f3gica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">Dentro desta perspectiva, n\u00e3o faz sentido pensar a solidariedade como um ideal e a rivalidade como um mal a ser extirpado, pois antagonismo e complementaridade n\u00e3o se excluem, ao contr\u00e1rio, eles se retroalimentam: \u201c <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">n\u00e3o existe um estado ideal a alcan\u00e7ar e depois a conservar\u2026mas busca permanente em dire\u00e7\u00e3o ao al\u00e9m, supera\u00e7\u00f5es que devem ser superadas, nova aventura da evolu\u00e7\u00e3o, e, se tivermos sorte, novo nascimento do homem\u2026\u201d<\/i><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref\"><i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">[11]<\/i><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">\u00c9 importante notar este car\u00e1ter de independ\u00eancia da a\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua finalidade, pois assim podemos compreender o princ\u00edpio de incerteza encerrado no cora\u00e7\u00e3o da ecologia da a\u00e7\u00e3o. Implica dizer que, as melhores inten\u00e7\u00f5es n\u00e3o garantem a captura de seus prop\u00f3sitos por outras inten\u00e7\u00f5es: \u201c <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">Importa, sobretudo desconfiar da cren\u00e7a no fato de a a\u00e7\u00e3o operar logicamente no sentido de seu projeto: a a\u00e7\u00e3o pode entrar no jogo das finalidades inimigas. N\u00e3o \u00e9 que exista \u2018cumplicidade objetiva\u2018 com inimigo real; \u00e9 que existe complexidade objetiva da vida real.\u201c<\/i> <a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref\">[12]<\/a> Este pensamento retira a a\u00e7\u00e3o de qualquer registro manique\u00edsta e convida a refletir sobre seus riscos, pois toda bondade natural implica barb\u00e1rie natural.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\"><b style=\"mso-bidi-font-weight: normal;\">4. Rivalidade e Solidariedade nas sociedades humanas hist\u00f3ricas<\/b>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: center; text-indent: 36.0pt;\" align=\"center\">\u00a0\u201cTodo olhar sobre a \u00e9tica deve reconhecer o aspecto vital do egocentrismo assim como a potencialidade fundamental de desenvolver o altru\u00edsmo\u201d<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref\">[13]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">Situa\u00e7\u00f5es de impasse, ou momentos de bifurca\u00e7\u00e3o, no dizer de I. Prigogine,<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref\">[14]<\/a> no crescimento de uma organiza\u00e7\u00e3o complexa, podem configurar a necessidade de imposi\u00e7\u00f5es e sujei\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m de coopera\u00e7\u00e3o e complementaridade, como processos emergentes mantenedores ou mesmo fundantes de uma outra ordem. No plano da biocenose, como vimos, vigoram as leis da vida, autoconserva\u00e7\u00e3o e conserva\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie, no intuito sempre insistente de perseverar na exist\u00eancia. No interior deste combate, n\u00e3o h\u00e1 lugar para ju\u00edzos de valores.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">Nas sociedades humanas hist\u00f3ricas, as intera\u00e7\u00f5es entre classes e grupos s\u00f3cio-econ\u00f4micos, podem ser equiparadas \u00e0quelas que se travam entre esp\u00e9cies nos ecossistemas. Por\u00e9m, \u00e9 neste ponto da organiza\u00e7\u00e3o que assistimos ao nascimento de nossos principais dilemas \u00e9ticos e, por conseq\u00fc\u00eancia, come\u00e7amos a construir um complexo sistema de atribui\u00e7\u00e3o de valores e regras que s\u00e3o simult\u00e2neamente produzidas por nossas necessidades biol\u00f3gicas, antropol\u00f3gicas, sociol\u00f3gicas e hist\u00f3ricas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">Para tentar assegurar a realiza\u00e7\u00e3o destas premissas, a id\u00e9ia de estrat\u00e9gia ganha realce como forma de gest\u00e3o poss\u00edvel do impasse, seja para evitar que a rivalidade se exceda em processos parasit\u00e1rios exacerbados de explora\u00e7\u00e3o ou mesmo da necessidade de consuma\u00e7\u00e3o do\u00a0 sacrif\u00edcio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">A grande maioria dos mitos fundantes da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental, est\u00e3o baseados na rivalidade, ou mais do que isto, no assassinato. Segundo Dany-Robert Dufour, em Os Mist\u00e9rios da Trindade, a possibilidade de representa\u00e7\u00e3o da morte seria o fundamento do la\u00e7o social: \u201c <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">para que dois estivessem juntos, era preciso que um terceiro tomasse, de boa vontade ou \u00e0 for\u00e7a, real ou simbolicamente, a morte sobre si<\/i>.<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref\">[15]<\/a> \u201d \u00c9 preciso que algu\u00e9m morra, concreta ou simbolicamente, para que se crie, \u00e0 partir da\u00ed, um la\u00e7o social. \u00c9 o que Freud trabalha em Totem e Tabu: a partir do assassinato do pai, os filhos instauram a Lei e o Tabu, constituindo-se assim, como grupo social. \u00c9 assim tamb\u00e9m no cristianismo, onde o sacrif\u00edcio, mart\u00edrio e morte do Filho-Pai, n\u00e3o pode ser dispensado. Nos mitos gregos, s\u00e3o profusas as refer\u00eancias \u00e0 rivalidade entre pai e filhos, que Freud apreendeu e utilizou para formalizar sua teoria sobre o complexo de \u00c9dipo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">Proposi\u00e7\u00e3o oposta \u00e0 id\u00e9ia do parric\u00eddio como ato fundante do la\u00e7o social \u00e9 sustentada por Castoriadis para quem o institu\u00eddo j\u00e1 est\u00e1 presente na horda; muito antes de ser um fato da natureza, a horda j\u00e1 revela em seus processos de regula\u00e7\u00e3o, a plena a\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio, sem o qual seria imposs\u00edvel conceber a submiss\u00e3o dos descendentes e a n\u00e3o continuidade do processo sempre reinstaurado do assassinato do pai: <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">\u201c\u2026o assassinato do pai n\u00e3o \u00e9 ato inaugural da sociedade mas resposta \u00e0 castra\u00e7\u00e3o ( e esta o que \u00e9 sen\u00e3o uma defesa antecipada?).\u201d<\/i><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn17\" name=\"_ftnref\"><i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">[16]<\/i><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">Ren\u00e9 Girard aponta na mesma dire\u00e7\u00e3o, ao enfatizar que \u201c <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">O <\/i><i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">desejo do parric\u00eddio e do incesto n\u00e3o pode ser uma id\u00e9ia da crian\u00e7a; \u00e9 evidentemente a id\u00e9ia do adulto, a id\u00e9ia do modelo<\/i>\u201d <a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn18\" name=\"_ftnref\">[17]<\/a>. Girard, sublinha que o car\u00e1ter primeiro da identifica\u00e7\u00e3o funda-se no desejo mim\u00e9tico: \u201c <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">a concep\u00e7\u00e3o mim\u00e9tica desliga o desejo de qualquer objeto; o complexo de \u00c9dipo enra\u00edza o desejo no objeto materno; a concep\u00e7\u00e3o mim\u00e9tica elimina qualquer consci\u00eancia e mesmo qualquer desejo real do parric\u00eddio e do incesto\u2026<\/i> \u201d<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn19\" name=\"_ftnref\">[18]<\/a> Continua dizendo que Freud opta pelo complexo e \u201c <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">Quando \u00e9 necess\u00e1rio escolher entre os efeitos mim\u00e9ticos e o desejo parricida incestuoso, ele escolhe resolutamente este \u00faltimo. Isto n\u00e3o quer dizer que ele renuncie a explorar as possibilidades promissoras da mimese. O que h\u00e1 de admir\u00e1vel em Freud \u00e9 justamente que ele nunca renuncia a nada.<\/i>\u201d<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn20\" name=\"_ftnref\">[19]<\/a> Girard sustenta o argumento de que Freud teria tido a intui\u00e7\u00e3o da mimese como fundadora do la\u00e7o social, mas terminaria por retom\u00e1-la apenas como sa\u00edda do \u00c9dipo, na constitui\u00e7\u00e3o do super-ego. Ou seja, em Freud, a identifica\u00e7\u00e3o seria secund\u00e1ria, solu\u00e7\u00e3o para o conflito, tentativa de repara\u00e7\u00e3o e n\u00e3o um modo inaugural de liga\u00e7\u00e3o fundada no desejo mim\u00e9tico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">No \u00e2mbito de outra discuss\u00e3o, mas apoiando-se tamb\u00e9m em Girard e Castoriadis, Jurandir Freire Costa aponta para o que chama <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">o defeito central<\/i> de Totem e Tabu: \u201c <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">\u2026 onde ele (Freud) pensava que havia natureza, j\u00e1 havia cultura<\/i>.\u201d<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn21\" name=\"_ftnref\">[20]<\/a> Sustenta que a tese central deste texto seria sobre o poder de coer\u00e7\u00e3o da sexualidade sobre a vida humana, requerendo para fazer frente a ele, uma for\u00e7a de igual tamanho: a amea\u00e7a de morte ou a culpabilidade pelo assassinato. \u201c <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">Isto n\u00e3o \u00e9 o mesmo que dizer que o parric\u00eddio d\u00e1 origem ao contrato social \u201d<\/i><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn22\" name=\"_ftnref\"><i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">[21]<\/i><\/a><i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">, e mais adiante: \u201c \u2026\u00e9 a institui\u00e7\u00e3o j\u00e1 institu\u00edda que profere a amea\u00e7a de morte, e n\u00e3o um puro movimento instintivo natural.<\/i>\u201d <a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn23\" name=\"_ftnref\">[22]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">No interesse desta argumenta\u00e7\u00e3o, conv\u00e9m lembrar tamb\u00e9m o intenso debate que veio \u00e0 luz nos anos 70, atrav\u00e9s de Deleuze e Guattarri em O Anti- \u00c9dipo,<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn24\" name=\"_ftnref\">[23]<\/a> livro no qual os autores tamb\u00e9m contestam a origem do desejo incestuoso tribut\u00e1ria do filho, tomando-o como rebatimento, sobre a crian\u00e7a, dos sentimentos paran\u00f3icos do adulto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">Penso que o enraizamento da id\u00e9ia recorrente do parric\u00eddio como ato constitutivo da ordem social, se encontra no cerne da constitui\u00e7\u00e3o de uma moralidade neur\u00f3tica do sujeito da civiliza\u00e7\u00e3o, gerando uma ambival\u00eancia de sentimentos, marcadamente amor e \u00f3dio, culpa (consciente e\/ou inconsciente), temor ao castigo e necessidade de repara\u00e7\u00e3o em decorr\u00eancia das amea\u00e7as concernentes \u00e0s demandas eg\u00f3icas de estabilidade narc\u00edsica. Este estado de coisas promove, defensivamente, ideais \u00e9ticos de conserva\u00e7\u00e3o que turvam o discernimento necess\u00e1rio \u00e0 uma vis\u00e3o cr\u00edtica e din\u00e2mica requerida pelas velozes mudan\u00e7as s\u00f3cio-culturais que se verificam, especialmente a partir dos aportes e desafios que nos chegam cotidianamente pelas m\u00e3os da tecnoci\u00eancia.<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn25\" name=\"_ftnref\">[24]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">Em minha opini\u00e3o, \u00e9 preciso que se realize um trabalho da cultura no sentido de favorecer a supera\u00e7\u00e3o do modelo m\u00edtico fechado<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn26\" name=\"_ftnref\">[25]<\/a> como modelo ordenador da cultura. Para realizar esta opera\u00e7\u00e3o cultural, que passa imperativamente pelo que Morin chama auto-\u00e9tica e civiliza\u00e7\u00e3o da barb\u00e1rie interior tentarei esbo\u00e7ar alguns passos que, se n\u00e3o suficientes, certamente s\u00e3o necess\u00e1rios ao processo:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%; mso-list: l2 level1 lfo4; tab-stops: list 54.0pt;\">1)\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Trabalhar a quest\u00e3o do desamparo, aprendendo a conviver com a incerteza que prov\u00e9m da multiplicidade ao inv\u00e9s das antinomias simplificadoras que resultam em impasses insol\u00faveis.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%; mso-list: l2 level1 lfo4; tab-stops: list 54.0pt;\">2)\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Efetivar uma transforma\u00e7\u00e3o nas rela\u00e7\u00f5es Homem-Deus e Pai-Filho, implicando uma transmuta\u00e7\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica paterna que deveria empreender uma travessia superadora do fantasma paran\u00f3ico do pai, concebendo sua anterioridade em rela\u00e7\u00e3o ao desejo neur\u00f3tico do filho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%; mso-list: l2 level1 lfo4; tab-stops: list 54.0pt;\">3)\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00a0Que o assassinato do pai e o sacrif\u00edcio do filho, tal como se desenrolam no modelo m\u00edtico fechado, possam se reinscrever de forma diferenciada, permitindo a passagem da rivalidade inevit\u00e1vel \u00e0 uma solidariedade respons\u00e1vel entre os irm\u00e3os.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%; mso-list: l2 level1 lfo4; tab-stops: list 54.0pt;\">4)\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00a0Elaborar a destitui\u00e7\u00e3o da necessidade do her\u00f3i e do fasc\u00ednio narc\u00edsico que ele desperta em sua solid\u00e3o onipotente, encaminhando um novo posicionamento subjetivo que, dispensando a id\u00e9ia de um pai que tudo pode e de um her\u00f3i que com ele rivalize, nos coloque em posi\u00e7\u00e3o de assumir a responsabilidade pelo devir, abrindo caminho para o la\u00e7o social solid\u00e1rio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">Morin prop\u00f5e uma perspectiva transmitol\u00f3gica para pensar a constitui\u00e7\u00e3o da cultura. Afirma o <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">car\u00e1ter sociologicamente primeiro, anterior, fundamental e fundador da fraternidade<\/i><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn27\" name=\"_ftnref\"><i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">[26]<\/i><\/a>. Questiona a anterioridade do pai como sistema de refer\u00eancia que precede ao filho, constitu\u00eddo pelas representa\u00e7\u00f5es ligadas ao poder, \u00e0 soberania, \u00e0 domina\u00e7\u00e3o e \u00e0 hierarquia. Esta constru\u00e7\u00e3o imag\u00e9tica teria surgido no processo de hominiza\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que algumas sociedades arcaicas\u00a0 ignoravam a paternidade biol\u00f3gica, sendo a fun\u00e7\u00e3o protetora entregue \u00e0 guarda de um tio ou irm\u00e3o. Nesta linha argumentativa, faz uma cr\u00edtica \u00e0 vulgariza\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica, segundo a qual a imagem do chefe deriva do pai, quando, na verdade, evolutivamente, organizacionalmente e ontologicamente se passaria o contr\u00e1rio, ou seja, \u00e9 a imagem do chefe que foi projetada sobre a fam\u00edlia originando a figura do pai que, associando-se ainda \u00e0 id\u00e9ia de deus, beneficia-se duplamente. Para Morin, esta rela\u00e7\u00e3o fraterna \u00e9 extragen\u00e9tica e formada por indiv\u00edduos gerados de m\u00e3es e pais diferentes; a estrutura piramidal n\u00e3o \u00e9 constituinte da cultura, mas ao contr\u00e1rio, ela se desenvolve sobre uma base fraternal. O avan\u00e7o desta perspectiva comporta para ele, n\u00e3o apenas uma vantagem te\u00f3rica, mas remete tamb\u00e9m a uma mensagem pol\u00edtica que contraria a naturaliza\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o hierarquizada na constitui\u00e7\u00e3o social. Para complexificar a id\u00e9ia de pai, sugere que sejam agregadas a ela algumas virtudes igualmente importantes, como a <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">sabedoria, experi\u00eancia, tomada de responsabilidade, de iniciativa, de decis\u00e3o.<\/i><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn28\" name=\"_ftnref\"><i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">[27]<\/i><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">A desmonopoliza\u00e7\u00e3o do pai n\u00e3o elimina a hip\u00f3tese do conflito, pois a fraternidade social \u00e9, primeira, contra o exterior, o inimigo comum, mas a rivalidade se gesta no interior dos grupos, conduzindo \u00e0 desigualdades domina\u00e7\u00f5es e competi\u00e7\u00f5es. Morin vai se servir do mito de R\u00f4mulo e Remo, considerado por ele um mito antroposocial profundo, para contrapor-se \u00e0 id\u00e9ia simplificadora freudiana do parric\u00eddio, especialmente no que se refere ao culto do pai morto como verdadeira base da organiza\u00e7\u00e3o social humana, pois desta forma, <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">Freud mascara e prejudica o sentido do seu pr\u00f3prio mito: o achado s\u00f3cio- antropol\u00f3gico da fraternidade.<\/i><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn29\" name=\"_ftnref\"><i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">[28]<\/i><\/a><i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\"> <\/i>\u00a0A revolta contra o pai e a instaura\u00e7\u00e3o de sua autoridade pela via de uma sacraliza\u00e7\u00e3o, <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">pode ser substitu\u00edda por uma regenera\u00e7\u00e3o fraternit\u00e1ria da organiza\u00e7\u00e3o social.<\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-indent: 36.0pt;\">Gostaria de fazer uma diferen\u00e7a que me parece importante, entre a simboliza\u00e7\u00e3o da morte e a necessidade de que ela se cumpra em sua concretude. Em psican\u00e1lise, acredita-se que a possibilidade de simbolizar possa desfazer a necessidade de uma passagem ao ato. Aquilo que se realiza no corpo, de um indiv\u00edduo ou de um povo, seriam os restos de um real que recusou sua inscri\u00e7\u00e3o no simb\u00f3lico. Ainda assim, nesta opera\u00e7\u00e3o que transforma a necessidade concreta do assassinato em possibilidade de simboliza\u00e7\u00e3o desta morte, o pre\u00e7o a ser pago para a constitui\u00e7\u00e3o do sujeito se efetiva pela moeda da culpa. <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">O que resulta da ado\u00e7\u00e3o do mito do parric\u00eddio e do modelo de \u00c9dipo utilizado por Freud \u00e9, necessariamente, o sujeito neur\u00f3tico da civiliza\u00e7\u00e3o<\/i><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn30\" name=\"_ftnref\"><i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">[29]<\/i><\/a>; para este sujeito, a produ\u00e7\u00e3o criativa \u00e9 transformada em produ\u00e7\u00e3o de sintomas e a cultura, <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">\u201c a mis\u00e9ria banal \u00e0 qual devemos nos resignar, ap\u00f3s abrir m\u00e3o da mis\u00e9ria neur\u00f3tica, como dizia Freud.\u201d<\/i><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn31\" name=\"_ftnref\"><i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">[30]<\/i><\/a><i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\"> <\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-indent: 36.0pt;\">Freud parte da id\u00e9ia do conflito, visto que o desejo \u00e9 sempre ligado ao sexual infantil, possessivo, incestuoso, rivalizante e, portanto, interditado pelo ambiente, para que este pequeno ser possa inserir-se nos moldes aceit\u00e1veis do processo civilizat\u00f3rio. Em Freud, tudo se passa como se estas intensidades pulsionais que insistem e tentam, pela via representacional, alguma inscri\u00e7\u00e3o poss\u00edvel no psiquismo, s\u00f3 pudessem faz\u00ea-lo driblando a\u00a0 interdi\u00e7\u00e3o e o recalque. Em interpreta\u00e7\u00e3o dos Sonhos, ficam claros os subterf\u00fagios que permitem o compromisso entre a satisfa\u00e7\u00e3o do desejo proibido e de sua express\u00e3o, sempre dissimulada pelos processos de deslocamento e condensa\u00e7\u00e3o, restando como sa\u00edda, o sintoma, o sonho, e a sublima\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-indent: 36.0pt;\">Acompanhando Winnicott e repensando Freud, Jurandir Freire Costa apresenta o seguinte argumento: \u201c <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">Na leitura da origem freudiana, a fun\u00e7\u00e3o do poder \u00e9 a repress\u00e3o dos excessos pulsionais, donde a import\u00e2ncia da interdi\u00e7\u00e3o; na de origem winnicottiana, o poder se revela na capacidade do ambiente tolerar, sem revide, o \u00edmpeto das puls\u00f5es, dirigindo-o para a criatividade.<\/i> <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">A cada um, dir\u00edamos, a sua Holanda. A met\u00e1fora preferida de Freud \u00e9 o dique holand\u00eas edificado para conter o avan\u00e7o do mar e a inunda\u00e7\u00e3o iminente; a de Winnicott \u00e9 o moinho de \u00e1gua ou vento, que aproveita a for\u00e7a da natureza para realiza\u00e7\u00e3o de trabalhos \u00fateis\u201d<\/i> <a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn32\" name=\"_ftnref\">[31]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-indent: 36.0pt;\">A perspectiva winnicottiana n\u00e3o v\u00ea, nas intensidades pulsionais, a mesma fonte de risco de adoecimento individual ou coletivo, mas enfatiza enormemente a fun\u00e7\u00e3o do ambiente, para que estas for\u00e7as possam se desenvolver no sentido da criatividade e da sa\u00fade, o que, dentro de uma perspectiva vitalista \u00e9 para onde elas tenderiam a caminhar, desde que o ambiente n\u00e3o atrapalhasse este curso. Neste sentido, Winnicott parece realmente oferecer\u00a0 uma sa\u00edda melhor para o processo civilizat\u00f3rio, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 proposta freudiana. Apostando no aumento das pot\u00eancias criativas incentivadas por obst\u00e1culos bem medidos que o mundo coloca em rela\u00e7\u00e3o a seu escoamento imediato e ainda, na conquista da autonomia como consequ\u00eancia deste processo, a vida pareceria poder fluir de forma mais leve e confort\u00e1vel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-indent: 36.0pt;\">N\u00e3o creio, contudo, que possamos ser excessivamente otimistas no que concerne\u00a0 a esta interrela\u00e7\u00e3o t\u00e3o suficientemente bem ajustada entre o indiv\u00edduo e o meio que o circunda. O ambiente suficientemente bom implica um\u00a0 processo quase imposs\u00edvel de ser qualificado ou quantificado, visto que o ponto \u00f3timo comporta nuances relacionais extremamente complexas que trabalham entre as possibilidades de complac\u00eancia e resist\u00eancia, no combate travado e tecido como estrat\u00e9gia no interior do espa\u00e7o transicional, seja ele a rela\u00e7\u00e3o m\u00e3e-beb\u00ea, o setting anal\u00edtico ou qualquer outro campo social mais abrangente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-indent: 36.0pt;\">\u00a0Morin assinala as dificuldades inerentes a este percurso de constru\u00e7\u00e3o de si e do la\u00e7o social fraterno: \u201c<i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">A toler\u00e2ncia \u00e9 f\u00e1cil para o indiferente e para o c\u00ednico, mas dif\u00edcil para o sujeito de convic\u00e7\u00f5es. Ela comporta sofrimento; o sofrimento de tolerar a express\u00e3o de id\u00e9ias revoltantes sem se revoltar.\u201d<\/i><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn33\" name=\"_ftnref\"><i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">[32]<\/i><\/a> A resist\u00eancia, por outro lado, \u00e9 tomada por ele como um outro polo de premissa \u00e9tica igualmente dif\u00edcil: <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">resistir \u00e0 nossa barb\u00e1rie interior<\/i><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn34\" name=\"_ftnref\">[33]<\/a> e \u00e0 <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">crueldade do mundo<\/i>.<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn35\" name=\"_ftnref\">[34]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-indent: 36.0pt;\">A complexidade inerente ao pensamento freudiano, leva frequentemente a idas e vindas te\u00f3ricas por vezes paradoxais. Assim, referindo-se \u00e0 sublima\u00e7\u00e3o, afirma: \u201c <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">Se nos deixarmos levar pela primeira impress\u00e3o, somos tentados a dizer que a sublima\u00e7\u00e3o \u00e9 um destino da puls\u00e3o for\u00e7ado pela civiliza\u00e7\u00e3o. Mas seria melhor se reflet\u00edssemos mais a respeito.\u201d<\/i> <a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn36\" name=\"_ftnref\">[35]<\/a> Winnicott avan\u00e7a nesta dire\u00e7\u00e3o onde Freud bascula e liberta a cria\u00e7\u00e3o humana das necessidades sublimat\u00f3rias resultantes de uma sexualidade interditada; o pan-sexualismo freudiano deixa pouco espa\u00e7o para se pensar a pot\u00eancia criadora e o impulso para o conhecimento<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn37\" name=\"_ftnref\">[36]<\/a>como positividades e n\u00e3o como satisfa\u00e7\u00f5es substitutas. Neste prisma, n\u00e3o cabe tamb\u00e9m tomar a puls\u00e3o como produ\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria em geral e da hist\u00f3ria da psique singular, constru\u00e7\u00e3o tecida entre o imagin\u00e1rio social e individual.<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn38\" name=\"_ftnref\">[37]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-indent: 36.0pt;\">\u00a0As abordagens e discuss\u00f5es em torno do tema das puls\u00f5es s\u00e3o muitas; mas quando se trata de tomar posi\u00e7\u00e3o quanto ao campo te\u00f3rico mais aceit\u00e1vel para dar conta da negocia\u00e7\u00e3o poss\u00edvel entre toda sorte de impulsos individuais e as necessidades da vida coletiva, da qual emergem os processos criativos, n\u00e3o me parece, contudo, que o problema seja de f\u00e1cil resolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-indent: 36.0pt;\">Em minha opini\u00e3o, as raz\u00f5es de Winnicott complementam as de Freud, mas n\u00e3o as excluem por completo. Se n\u00e3o creio ser necess\u00e1rio a id\u00e9ia do parric\u00eddio como fundante da cultura, n\u00e3o penso ser suficiente abandonar a id\u00e9ia freudiana do caldeir\u00e3o pulsional, pois <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">o pior da crueldade e o melhor da bondade do mundo est\u00e3o no ser humano.<\/i> <a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn39\" name=\"_ftnref\">[38]<\/a>A barb\u00e1rie individual e coletiva fazem parte de todos os nossos espa\u00e7os, do pessoal ao familiar, n\u00e3o poupando as institui\u00e7\u00f5es sociais mais bem intencionadas, desde os pequenos, m\u00e9dios e variados tipos de associa\u00e7\u00f5es humanas at\u00e9 \u00e0s maiores de nossas forma\u00e7\u00f5es, os Estado-Na\u00e7\u00f5es e a Sociedade-Mundo, visto que o ambiente frequentemente se excede em processos de intoler\u00e2ncia, inflexibilidade ou de condescend\u00eancia e complac\u00eancia, variando estas modalidades de acordo com os momentos hist\u00f3ricos e s\u00f3cio-culturais que, por sua vez, condicionam traumas, ressentimentos, desejos de vingan\u00e7a, mas tamb\u00e9m movimentos de supera\u00e7\u00e3o, novas possibilidades de gest\u00e3o do sofrimento e do sacrif\u00edcio, atitudes voltadas para o perd\u00e3o, a reconcilia\u00e7\u00e3o, a solidariedade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-indent: 36.0pt;\">O que a id\u00e9ia de sacrif\u00edcios coloca em quest\u00e3o \u00e9 a perspectiva do destino. Se pelo menos no ponto de vista freudiano, h\u00e1 sempre sacrif\u00edcio no cerne do processo civilizat\u00f3rio, seja o assassinato do pai pelos irm\u00e3os no sentido que configura uma v\u00edtima, ou o sacrif\u00edcio pulsional no indiv\u00edduo, ent\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 autonomia da vontade. Neste sentido, penso que Lacan se equivoca ao postular sua \u00e9tica ancorada em Ant\u00edgona. N\u00e3o se pode falar em autonomia da vontade neste caso, pelo menos n\u00e3o no sentido Kantiano do termo, que \u00e9 como Lacan o faz. A morte consentida por ela, nada tem a ver com autonomia, mas em consentir incestuosamente com a maldi\u00e7\u00e3o do destino lan\u00e7ado sobre \u00c9dipo, que n\u00e3o pode livrar dele seus descendentes, at\u00e9 a extin\u00e7\u00e3o de sua linhagem.<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn40\" name=\"_ftnref\">[39]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyTextIndent2\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-indent: 36.0pt;\">Recusar-se a cumprir a maldi\u00e7\u00e3o de um destino funesto implica afirmar uma \u00e9tica da diferencia\u00e7\u00e3o que \u00e9 pr\u00f3pria da vida:<i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">\u201c N\u00e3o nascemos para morrer, mas para inovar\u201d<\/i><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn41\" name=\"_ftnref\">[40]<\/a>\u00a0 N\u00e3o significa, necessariamente, fazer conchavos ou ceder do seu Desejo, ou seja, n\u00e3o significa que a \u00e9tica seja reduzida \u00e0 pol\u00edtica. <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">\u201c N\u00e3o se pode aceitar a dissolu\u00e7\u00e3o da \u00e9tica na pol\u00edtica, que se torna ent\u00e3o puro cinismo. N\u00e3o se pode sonhar com uma pol\u00edtica serva da \u00e9tica.\u201d<\/i><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn42\" name=\"_ftnref\"><i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">[41]<\/i><\/a><i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\"> <\/i>\u00a0Ao contr\u00e1rio, a complementaridade dial\u00f3gica entre \u00e9tica e pol\u00edtica redefine a necessidade do hero\u00edsmo e acentua a import\u00e2ncia da estrat\u00e9gia, que \u201c <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">n\u00e3o pode ser concebida apenas como uma adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 um meio: \u00e9 uma adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s incertezas e aos riscos de um meio, o que \u00e9 contr\u00e1rio de uma adapta\u00e7\u00e3o stricto sensu, visto que a estrat\u00e9gia desenvolve precisamente uma autonomia em rela\u00e7\u00e3o ao meio. A estrat\u00e9gia n\u00e3o pode ser concebida somente como um ajustamento da a\u00e7\u00e3o \u00e0s circunst\u00e2ncias, isto seria esquecer que ela \u00e9 tamb\u00e9m transformadora das circunst\u00e2ncias\u201d<\/i><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn43\" name=\"_ftnref\"><i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">[42]<\/i><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">Assim, talvez possamos dizer que a estrat\u00e9gia se tece na dial\u00f3gica entre a necessidade da a\u00e7\u00e3o \u00e9tica do her\u00f3i e a pol\u00edtica indispens\u00e1vel \u00e0 administra\u00e7\u00e3o do la\u00e7o social \u201c <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">Pequenas a\u00e7\u00f5es divergentes s\u00e3o necess\u00e1rias<\/i>\u00a0 \u201d<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn44\" name=\"_ftnref\">[43]<\/a> (&#8230;) O hero\u00edsmo tem o seu lugar, mas de forma pontual e para que n\u00e3o recaia na necessidade do sacrif\u00edcio, deve ser sustentado at\u00e9 um certo ponto de n\u00e3o retorno, a partir do qual \u00e9 preciso poder ceder e fazer la\u00e7os.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">Entre o cumprimento necess\u00e1rio de um destino transmitido e o exerc\u00edcio da autonomia da vontade, como podemos situar, atualmente, a quest\u00e3o do livre arb\u00edtrio, quando o universo das ci\u00eancias de ponta sinaliza uma crescente tend\u00eancia no sentido da cren\u00e7a no determinismo absoluto? Henri Atlan<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn45\" name=\"_ftnref\">[44]<\/a> focaliza esta discuss\u00e3o, extremamente atual, abra\u00e7ando abertamente o mecanicismo, por oposi\u00e7\u00e3o ao finalismo ou ao vitalismo<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn46\" name=\"_ftnref\">[45]<\/a>. Por mecanicismo entende-se um modo de compreens\u00e3o dos fen\u00f4menos que pretende deduzir tudo o que existe, em \u00faltima inst\u00e2ncia, \u00e0 intera\u00e7\u00e3o de processos f\u00edsico-qu\u00edmicos. Trata-se de um determinismo absoluto; ainda que se leve em considera\u00e7\u00e3o a causalidade hist\u00f3rica e s\u00f3cio-cultural, n\u00e3o h\u00e1 lugar algum para o livre arb\u00edtrio. Dentro desta perspectiva, a mat\u00e9ria viva perde qualquer atributo especial que possa diferenci\u00e1-la da n\u00e3o-viva, restando t\u00e3o somente entre estes dois mundos, uma escala progressiva de graus de complexidade. Nenhuma finalidade dada \u00e0 priori por alguma transcend\u00eancia, nem mesmo algum atributo intr\u00ednseco \u00e0 vida, mas apenas diferen\u00e7as crescentes na complexidade das organiza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">Atlan n\u00e3o toma este partido de forma inconseq\u00fcente. Reconhece uma enorme diferen\u00e7a entre o determinismo que se lhe afigura como uma verdade contundente no dia a dia do laborat\u00f3rio e a viv\u00eancia subjetiva de liberdade de escolha que ele\u00a0 experimenta cotidianamente. Para resolver este aparente paradoxo, lan\u00e7a m\u00e3o de Espinosa e suas formula\u00e7\u00f5es \u00e9ticas sobre a liberdade, que s\u00f3 se torna poss\u00edvel quando conhecemos as <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">causas adequadas<\/i> da coisas e de n\u00f3s mesmos. Sup\u00f5e a \u201c <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">experi\u00eancia-limite da liberdade que ser\u00edamos capazes de levar a cabo se tiv\u00e9ssemos acesso ao conhecimento infinito dos determinismos naturais<\/i>.\u201d<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn47\" name=\"_ftnref\">[46]<\/a> Esta liberdade resultaria da consci\u00eancia deste determinismo e do amor pelo conhecimento, ou \u201c<i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">amor Dei intellectualis<\/i>\u201d<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn48\" name=\"_ftnref\">[47]<\/a> \u201c <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">Liberdade seria assim,\u00a0 o fato de n\u00e3o ser determinada por nada al\u00e9m de sua pr\u00f3pria lei<\/i>\u2019<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn49\" name=\"_ftnref\">[48]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">Desta forma, pela aquiesc\u00eancia do determinismo e por um aumento assint\u00f3tico do conhecimento das causas, podemos ser conscientes de nossas escolhas e manter uma <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">atividade do esp\u00edrito<\/i> diante do conhecimento daquilo que nos determina. Em v\u00e1rios momentos do texto, Atlan deixa entrever a perspectiva concomitante da atividade e da subordina\u00e7\u00e3o impl\u00edcita ao conceito de sujeito. Exemplifica citando o \u201c<i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">Tratado dos pais<\/i>\u201d, do Talmud: \u201c <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">Tudo est\u00e1 previsto e a permiss\u00e3o \u2013 ou possibilidade \u2013 est\u00e1 dada<\/i>\u201d. A ambig\u00fcidade da segunda parte da frase testemunha esta simultaneidade e abre a possibilidade de transforma\u00e7\u00e3o dos destinos previamente tra\u00e7ados pois, \u201c<i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">o conhecimento adequado das causas das afec\u00e7\u00f5es, aumenta a pot\u00eancia de agir por oposi\u00e7\u00e3o \u00e0s afec\u00e7\u00f5es produzidas por causas exteriores que o conhecimento adequado permite interiorizar<\/i>.\u201d<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn50\" name=\"_ftnref\">[49]<\/a> Neste contexto, a <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">busca de perfei\u00e7\u00e3o <\/i>surge como premissa \u00e9tica, mas \u00e9 entendida apenas como uma ocasi\u00e3o na temporalidade da exist\u00eancia humana, reconhecendo-se esta perfei\u00e7\u00e3o do conhecimento e da liberdade absoluta como um horizonte permanentemente em fuga.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">Tomo aqui somente esta parte de sua argumenta\u00e7\u00e3o, para pensar a atividade cient\u00edfica do homo creator, que pode ser assim entendida como exerc\u00edcio deste <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">amor pelo conhecimento<\/i> e\u00a0 desejo de diferencia\u00e7\u00e3o que se op\u00f5e \u00e0 transmiss\u00e3o da maldi\u00e7\u00e3o. Em outro trabalho, tive a oportunidade de apontar, na perspectiva de Patrick Guiomard, \u201c<i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">que a heran\u00e7a da linhagem do ponto de vista ps\u00edquico comporta sempre algo de incestuoso. Assim sendo, ocorreu-nos pensar que o esfor\u00e7o do Homo Creator no trabalho de altera\u00e7\u00e3o da heran\u00e7a gen\u00e9tica poderia ser encarado sob o ponto de vista de uma \u00e9tica da diferencia\u00e7\u00e3o<b style=\"mso-bidi-font-weight: normal;\">. <\/b>No que se refere \u00e0 materialidade do corpo, se mantivermos a perspectiva relacional para a produ\u00e7\u00e3o dos fen\u00f4menos como argumenta Stewart, a transmiss\u00e3o das patologias gen\u00e9ticas na linhagem poderia apontar, em si pr\u00f3pria, para algum tipo de rela\u00e7\u00e3o incestuosa<\/i>.\u201d<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn51\" name=\"_ftnref\">[50]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">Considerando-se os preju\u00edzos para a liberdade respons\u00e1vel do <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">homo creator<\/i><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn52\" name=\"_ftnref\"><i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">[51]<\/i><\/a>, devemos buscar uma supera\u00e7\u00e3o do modelo m\u00edtico fechado, uma estrutura dada a priori, como sistema de refer\u00eancia para a forma\u00e7\u00e3o dos la\u00e7os sociais. Este modelo p\u00f5e em jogo, como vimos, a necessidade do sacrif\u00edcio do her\u00f3i; recoloca tamb\u00e9m a quest\u00e3o do destino, das causalidades lineares determin\u00edsticas, da heteronomia por oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 autonomia da vontade e incorre necessariamente no cerceamento do amor intelectual, visto que a puls\u00e3o de conhecimento \u00e9 concebida sempre como desejo transgressivo.<b style=\"mso-bidi-font-weight: normal;\"><\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">Seria poss\u00edvel pensar\u00a0 uma outra forma de organiza\u00e7\u00e3o social que pudesse aproximar-se mais de uma \u00e9tica vitalista,\u00a0 no sentido bergsoniano do termo?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">Vimos que,\u00a0 no plano da biocenose, n\u00e3o caberia falar em sacrif\u00edcio de uma v\u00edtima, pois, neste caso, o que estaria em jogo seria o combate de for\u00e7as no qual, at\u00e9 o momento, t\u00eam prevalecido as mo\u00e7\u00f5es da vida, ainda que as for\u00e7as desagregadoras sejam parte insepar\u00e1vel deste processo que, como um todo, favorece as finalidades da vida servindo-se da morte. Devemos sempre buscar inspira\u00e7\u00e3o neste registro, antes de ceder \u00e0s tenta\u00e7\u00f5es f\u00e1ceis de classificar os fen\u00f4menos sociais reduzindo-os a registros morais simplificadores, para tentar compreend\u00ea-los de forma amplificada, na dimens\u00e3o de uma eco-l\u00f3gica, ou seja, de uma bio-antropo-s\u00f3cio-l\u00f3gica. <b style=\"mso-bidi-font-weight: normal;\"><\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">Vimos tamb\u00e9m que, do ponto de vista das contribui\u00e7\u00f5es postas pela psican\u00e1lise, a perspectiva winnicottiana se apresenta como alternativa para pensar a cultura, de maneira que n\u00e3o seja necess\u00e1rio fund\u00e1-la nas premissas do modelo m\u00edtico fechado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">Contudo, a id\u00e9ia da fraternidade fundadora n\u00e3o \u00e9 suficiente para a instaura\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es solid\u00e1rias. Morin sublinha a necessidade de superar a fraternidade fechada, apontando na dire\u00e7\u00e3o da constru\u00e7\u00e3o de uma nova fraternidade que se abra para o exterior. Se mesmo no interior dos grupos, o <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">inelut\u00e1vel processo rivalit\u00e1rio<\/i> est\u00e1 sempre condicionando toda sorte de sujei\u00e7\u00f5es e domina\u00e7\u00f5es, quando se trata ent\u00e3o do contato com o estrangeiro, todas as defesas imunol\u00f3gicas s\u00e3o acionadas com a finalidade de efetivar a rejei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">A consci\u00eancia de que lidamos com uma hipercomplexidade antropossocial redimensiona a cren\u00e7a em solu\u00e7\u00f5es fundamentadas em alguns poucos pilares que se queiram definitivos ou duradouros. \u00c9 poss\u00edvel que a esp\u00e9cie humana ceda lugar \u00e0 emerg\u00eancia da humanidade como quarto termo, a partir dos tr\u00eas anteriores, indiv\u00edduo, esp\u00e9cie, sociedade. Isto seria menos espantoso, no entender de Morin, do que a organiza\u00e7\u00e3o piramidal complexa que se estabeleceu\u00a0 entre mol\u00e9culas\u00a0 e c\u00e9lulas, na constitui\u00e7\u00e3o de nossos seres policelulares. Contudo, este processo de idas e vindas, avan\u00e7os e recuos aparentemente desalentadores no processo de hominizac\u00e3o, s\u00e3o obedientes \u00e0s necessidades de recurs\u00e3o e retroa\u00e7\u00e3o pr\u00f3prias \u00e0 vida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">Esta consci\u00eancia implica compreens\u00e3o de que o desabrochar da humanidade do homem na constru\u00e7\u00e3o de uma Terra-P\u00e1tria que provincializaria os Estado-Na\u00e7\u00f5es, faz parte de um processo inventivo, criativo e n\u00e3o programado, imposs\u00edvel de prever. Conviver com um futuro incerto para a humanidade \u00e9\u00a0 o grande desafio que se coloca para a comunidade dos irm\u00e3os que se une para enfrent\u00e1-lo, o que deve ser feito tendo em conta n\u00e3o o princ\u00edpio de precau\u00e7\u00e3o, que imobiliza os movimentos e tenta deter o devir, mas a responsabilidade das escolhas poss\u00edveis para os esp\u00edritos que decidem, no espa\u00e7o de dura\u00e7\u00e3o de sua exist\u00eancia, apossar-se ativamente do conhecimento das causas adequadas de si.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">\u00c9 preciso saber que nem sempre o processo rivalit\u00e1rio implica falta de amor ao outro, podendo mesmo indicar seu excesso. \u00c0 fraternidade amante, \u00e9 preciso que se acrescente o que Morin chama <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">intelig\u00eancia consciente<\/i> : \u201camor fraternal, intelig\u00eancia consciente, sempre que forem ativos, constituir\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 a verdadeira resist\u00eancia, mas o recurso permanente na luta intermin\u00e1vel contra a crueldade.\u201d<a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn53\" name=\"_ftnref\">[52]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">Por fim, \u00e9 preciso lutar contra a cren\u00e7a de que haja um ideal civilizat\u00f3rio a ser\u00a0 alcan\u00e7ado e mantido. N\u00e3o h\u00e1 <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">solu\u00e7\u00e3o final ou futuro radioso<\/i>, mas apenas devemos ter a clareza de que a humanidade tornou-se uma <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">comunidade de destino<\/i><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftn54\" name=\"_ftnref\"><i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">[53]<\/i><\/a>, no sentido de que h\u00e1 um destino comum no horizonte da esp\u00e9cie humana.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">Se proponho a supera\u00e7\u00e3o da id\u00e9ia de um destino individual atrelado \u00e0 linhagem familiar, pelo pressuposto limitante da conting\u00eancia neur\u00f3tica deste modelo referido \u00e0 rivalidade com o pai, talvez a id\u00e9ia de um destino comum amplificada para a comunidade terrestre nos fa\u00e7a prioritariamente irm\u00e3os, ligados por uma identidade compartilhada porque orientada para um futuro comum; incerto sim, mas que se delineia cada vez mais como um futuro que nos projeta no espa\u00e7o comum de nossa humanidade, englobando todas as sociedades na ocupa\u00e7\u00e3o de um territ\u00f3rio unificado que, na abund\u00e2ncia ou na car\u00eancia dos recursos naturais, emergir\u00e1 como resultado da ecologia de nossas a\u00e7\u00f5es atuais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin-left: -13.5pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; line-height: 150%;\">\n<hr align=\"left\" size=\"1\" width=\"33%\" \/>\n<p class=\"MsoFootnoteText\" style=\"line-height: normal;\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn1\">*<\/a> Tereza Mendon\u00e7a Estarque, psicanalista, Dra. em Ci\u00eancias Sociais PUCSP, Presidente do Instituto de Estudos da Complexidade<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\" style=\"line-height: normal;\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn2\">[1]<\/a> Morin, Edgar. O M\u00e9todo 2, A Vida da Vida, Editora Sulina, Porto Alegre, 2001, p.76<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"mso-pagination: none; tab-stops: 28.0pt 56.0pt 84.0pt 112.0pt 140.0pt 168.0pt 196.0pt 224.0pt 252.0pt 280.0pt 308.0pt 336.0pt; mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn3\">[2]<\/a> Bachelard, Gaston. O Novo Esp\u00edrito Cient\u00edfico , 2a. Ed. Rio de Janeiro: Tempo<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\" style=\"line-height: normal;\">\u00a0Brasileiro, 1995.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\" style=\"line-height: normal;\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn4\">[3]<\/a> CILPEC: Congresso Interlatino para o Pensamento Complexo, 1998, Rio de Janeiro, Universidade C\u00e2ndido Mendes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\" style=\"line-height: normal;\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn5\">[4]<\/a> Opini\u00e3o oposta a esta \u00e9 sustentada por Jurandir Freire Costa. \u201c O intermedi\u00e1rio pulsional, visto de perto, retoma o velho cartesianismo das subst\u00e2ncias, tritura-o e projeta-o no passado infantil, mas continua preso ao dualismo que, em princ\u00edpio, deveria destronar.\u201d In \u00a0O Vest\u00edgio e a Aura, Garamond, 2004, p.33 Esta interessante diverg\u00eancia evidencia, a meu ver, uma express\u00e3o do perspectivismo, mas n\u00e3o \u00e9 minha inten\u00e7\u00e3o aprofund\u00e1-la. Cito-a apenas para que o leitor interessado possa se orientar e percorrer seu pr\u00f3prio caminho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"mso-pagination: none; tab-stops: 28.0pt 56.0pt 84.0pt 112.0pt 140.0pt 168.0pt 196.0pt 224.0pt 252.0pt 280.0pt 308.0pt 336.0pt; mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn6\">[5]<\/a> Freud, Sigmund, Inibi\u00e7\u00e3o Sintoma e Ang\u00fastia (1926), in Obras Completas, vol.XX, Imago, Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"mso-pagination: none; tab-stops: 28.0pt 56.0pt 84.0pt 112.0pt 140.0pt 168.0pt 196.0pt 224.0pt 252.0pt 280.0pt 308.0pt 336.0pt; mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn7\">[6]<\/a> Freud, S. Hist\u00f3ria de uma Neurose Infantil (1918 [1914] ). Obras Completas, vol XVIII, Imago, Rio de Janeiro. Ver tamb\u00e9m na mesma cole\u00e7\u00e3o, os textos sobre Telepatia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\" style=\"line-height: normal;\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn8\">[7]<\/a>\u00a0 Maturana Humberto e Varela, Francisco. De M\u00e1quinas e Seres Vivos Artes M\u00e9dicas, Porto Alegre,\u00a0 1994, p.55<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\" style=\"line-height: normal;\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn9\">[8]<\/a> id. ibid. p.58<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\" style=\"line-height: normal;\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn10\">[9]<\/a> Biocenose: conjunto das intera\u00e7\u00f5es entre os seres vivos de todas as esp\u00e9cies que povoam o meio geof\u00edsico. Defini\u00e7\u00e3o retirada do M\u00e9todo 2, A Vida da Vida, Editora Sulina, Porto Alegre, 2001, p.33.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\" style=\"line-height: normal;\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn11\">[10]<\/a> ibid. p.39.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\" style=\"line-height: normal;\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn12\">[11]<\/a> Morin, Edgar. O M\u00e9todo 2, A Vida da Vida, Editora Sulina, Porto Alegre, 2001, p.495.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\" style=\"line-height: normal;\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn13\">[12]<\/a> Morin, Edgar. O M\u00e9todo 2, A Vida da Vida, Editora Sulina, Porto Alegre, 2001, p.102..<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\" style=\"line-height: normal;\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn14\">[13]<\/a> Morin, Edgar. O m\u00e9todo 6. \u00c9tica. Ed. Sulina, Porto Alegre, 2004.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\" style=\"line-height: normal;\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn15\">[14]<\/a> Prigogine, Ilya. Ci\u00eancia Raz\u00e3o e Paix\u00e3o, (orgs.) Edgard de Assis Carvalho e Maria da Concei\u00e7\u00e3o de Almeida. Bel\u00e9m, EDUEPA, 2001.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"mso-pagination: none; tab-stops: 28.0pt 56.0pt 84.0pt 112.0pt 140.0pt 168.0pt 196.0pt 224.0pt 252.0pt 280.0pt 308.0pt 336.0pt; mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn16\">[15]<\/a> Dufour, Dany-Robert. Os Mist\u00e9rios da Trindade. Rio de Janeiro, Companhia de Freud Editora, 2000.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\" style=\"line-height: normal;\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn17\">[16]<\/a> Castoriadis, Cornelius, A institui\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria da sociedade. Editora Paz e Terra, S. Paulo, 1995, p.175.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\" style=\"line-height: normal;\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn18\">[17]<\/a> Girard Ren\u00e9, A Viol\u00eancia e o Sagrado, Paz e Terra, S. Paulo, 1998, p.218.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\" style=\"line-height: normal;\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn19\">[18]<\/a>id. ibid., p.223.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\" style=\"line-height: normal;\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn20\">[19]<\/a> ibid. p.224.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\" style=\"line-height: normal;\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn21\">[20]<\/a> Costa, Jurandir Freire, Psican\u00e1lise e Contexto Cultural , Ed. Campus, Rio de Janeiro, 1989, p.64.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\" style=\"line-height: normal;\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn22\">[21]<\/a> id. Ibid.p.65.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\" style=\"line-height: normal;\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn23\">[22]<\/a> ibid. p. 66.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\" style=\"line-height: normal;\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn24\">[23]<\/a> Deleuze, G. e Guattari F. O Anti-\u00e9dipo, Imago, Rio de Janeiro, 1976.<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\" style=\"line-height: normal;\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn25\">[24]<\/a> Ver Terezinha Mendon\u00e7a, Des-ordens da cultura: complexidade e sustenta\u00e7\u00e3o \u00e9tica do homo creator, tese de doutorado PUCSP, Ci\u00eancias Sociais, 2000.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\" style=\"line-height: normal;\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn26\">[25]<\/a> Por modelo m\u00edtico fechado, Albin Leski entende o modelo tr\u00e1gico que obedece necessariamente \u00e0 seguinte sucess\u00e3o: conflito inconcili\u00e1vel, transgress\u00e3o, castigo e morte como forma de repara\u00e7\u00e3o. Ver ALBIN, Lesky, A Trag\u00e9dia Grega.\u00a0 S\u00e3o Paulo, Ed. Perspectiva, 1996.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\" style=\"line-height: normal;\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn27\">[26]<\/a> Morin, Edgar. O M\u00e9todo 2, A Vida da Vida, Editora Sulina, Porto Alegre, 2001, p.482.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\" style=\"line-height: normal;\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn28\">[27]<\/a> ibid. p.485.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\" style=\"line-height: normal;\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn29\">[28]<\/a> ibid. p.485.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\" style=\"line-height: normal;\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn30\">[29]<\/a> Ver Terezinha Mendon\u00e7a, Des-ordens da cultura: complexidade e sustenta\u00e7\u00e3o \u00e9tica do homo creator, tese de doutorado PUCSP, Ci\u00eancias Sociais, 2000.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\" style=\"line-height: normal;\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn31\">[30]<\/a> Costa, Jurandir Freire. Playdoier pelos irm\u00e3os, In Fun\u00e7\u00e3o Fraterna, org. Maria Rita Kehl, ed.Relume-Dumar\u00e1, 2000, p. 26.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\" style=\"line-height: normal;\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn32\">[31]<\/a> Id.Ibid. p.16.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\" style=\"line-height: normal;\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn33\">[32]<\/a> Morin, E. M\u00e9todo6, \u00c9tica, Editora Sulina, Porto Alegre, 2004, p.106.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\" style=\"line-height: normal;\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn34\">[33]<\/a> id. ibid. p.101.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\" style=\"line-height: normal;\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn35\">[34]<\/a> ibid. p.193.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\" style=\"line-height: normal;\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn36\">[35]<\/a> Freud, S. Mal Estar na Civiliza\u00e7\u00e3o, ( 1930) In Obras Completas, vol. XXI, Imago, Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\" style=\"line-height: normal;\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn37\">[36]<\/a> Ver Terezinha Mendon\u00e7a, Des-ordens da cultura: complexidade e sustenta\u00e7\u00e3o \u00e9tica do homo creator, tese de doutorado PUCSP, Ci\u00eancias Sociais, 2000.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\" style=\"line-height: normal;\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn38\">[37]<\/a> Castoriadis, Cornelius, A institui\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria da sociedade. Editora Paz e Terra, S. Paulo, 1995, p.360.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\" style=\"line-height: normal;\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn39\">[38]<\/a> Morin op. cit, p. 192.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"Bibliografia\" style=\"line-height: normal;\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn40\">[39]<\/a> \u00a0Sobre este argumento ver, Guyomard, Patrick.\u00a0 O Gozo do Tr\u00e1gico &#8211; Ant\u00edgona, Lacan, e o desejo do analista.\u00a0 \u201dTransmiss\u00e3o em Psican\u00e1lise.\u00a0 Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1996.<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\" style=\"line-height: normal;\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn41\">[40]<\/a> Arendt, Hanna. \u201cNascemos para aprender\u201d, H\u00e9l\u00e8ne Trocme Fabre, vers\u00e3o em l\u00edngua portuguesa. Coordena\u00e7\u00e3o Terezinha Mendon\u00e7a e Wanda Maranh\u00e3o Costa. Co-produ\u00e7\u00e3o Embaixada da Fran\u00e7a no Brasil e Instituto de Estudos da Complexidade, DVD.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\" style=\"line-height: normal;\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn42\">[41]<\/a> Morin, Edgar. M\u00e9todo 6, \u00c9tica, Ed. Sulina, Porto Alegre, 2004, p.80.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\" style=\"line-height: normal;\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn43\">[42]<\/a> Morin, Edgar. M\u00e9todo 2, A Vida da Vida, Ed. Sulina, Porto Alegre, 2001, p.256.<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\" style=\"line-height: normal;\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn44\">[43]<\/a> Nietzsche, F.\u00a0 Aurora &#8211; Pensamentos sobre os Preconceitos Morais\u00a0 &#8211; Obras Incompletas. S\u00e3o Paulo,\u00a0 Nova Cultural, 1996, \u00a7149.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\" style=\"line-height: normal;\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn45\">[44]<\/a> Atlan, Henri, A Ci\u00eancia \u00e9 inumana? Ensaio sobre a livre necessidade. TRD. Edgard de Assis Carvalho. Ed. Cortez, S. Paulo, 2004.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\" style=\"line-height: normal;\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn46\">[45]<\/a> N\u00e3o posso deixar de pensar que, talvez esta classifica\u00e7\u00e3o seja tamb\u00e9m uma fragmenta\u00e7\u00e3o desnecess\u00e1ria e viciosa do pensamento. Afora o apelo ao transcendente, pode-se com certeza dizer que, no vivo h\u00e1 pelo menos uma finalidade principal, qual seja, a de perseverar na exist\u00eancia e que esta finalidade vitalista regula-se essencialmente por processos f\u00edsico-qu\u00edmicos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\" style=\"line-height: normal;\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn47\">[46]<\/a> Atlan, Henri, A Ci\u00eancia \u00e9 inumana? Ensaio sobre a livre necessidade. TRD. Edgard de Assis Carvalho. Ed. Cortez, S. Paulo, 2004, p.46\/47.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\" style=\"line-height: normal;\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn48\">[47]<\/a> id. ibid. p.49.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\" style=\"line-height: normal;\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn49\">[48]<\/a> ibid., p.35.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\" style=\"line-height: normal;\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn50\">[49]<\/a> ibid. p.35.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\" style=\"line-height: normal;\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn51\">[50]<\/a> Ver Terezinha Mendon\u00e7a, Des-ordens da cultura: complexidade e sustenta\u00e7\u00e3o \u00e9tica do homo creator, tese de doutorado PUCSP, Ci\u00eancias Sociais, 2000.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\" style=\"line-height: normal;\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn52\">[51]<\/a> Sobre esta no\u00e7\u00e3o, ver Sustenta\u00e7\u00e3o \u00e9tica do <i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">homo creato<\/i><i style=\"mso-bidi-font-style: normal;\">r <\/i>in Ensaios de Complexidade2, org.Edgard de Assis Carvalho e Terezinha Mendon\u00e7a, Ed. Sulina, 2004. Tamb\u00e9m, Homo Creator, um invejoso de Deus? In\u00a0 Pecados\u00a0 org. Eliana Yunes e Maria Clara Lucchetti Bingeme, Ed Loyola\/PUC-Rio, 2001.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\" style=\"line-height: normal;\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn53\">[52]<\/a> Morin, Edgar. O M\u00e9todo 2, A Vida da Vida, Editora Sulina, Porto Alegre, 2001, p.494.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\" style=\"line-height: normal;\"><a style=\"mso-footnote-id: ftn;\" title=\"\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn54\">[53]<\/a> Id.Ibid. p.493.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Da Rivalidade \u00e0 Solidariedade: uma travessia \u00e9tica poss\u00edvel ? &nbsp; Tereza Mendon\u00e7a Estarque* &nbsp; \u201c As grandes solidariedades s\u00e3o, de fato, tecidas de servid\u00e3o, aliena\u00e7\u00e3o, explora\u00e7\u00e3o.\u201d[1] &nbsp; 1.Introdu\u00e7\u00e3o: &nbsp; O pensamento da Complexidade nos ensina que as dicotomias n\u00e3o correspondem \u00e0 realidade complexa da vida, mas \u00e0s tend\u00eancias simplificadoras de nosso modo de conceb\u00ea-la. N\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-92","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-textos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/iecomplex.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/92","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/iecomplex.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/iecomplex.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/iecomplex.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/iecomplex.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=92"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/iecomplex.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/92\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":829,"href":"https:\/\/iecomplex.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/92\/revisions\/829"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/iecomplex.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=92"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/iecomplex.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=92"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/iecomplex.com.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=92"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}