{"id":102,"date":"2015-10-09T23:56:08","date_gmt":"2015-10-09T23:56:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iecomplex.com.br\/o-tecido-e-a-trama\/"},"modified":"2023-12-25T13:36:13","modified_gmt":"2023-12-25T13:36:13","slug":"o-tecido-e-a-trama","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/iecomplex.com.br\/fr\/o-tecido-e-a-trama\/","title":{"rendered":"O Tecido e a  Trama"},"content":{"rendered":"<p>    <i style=\"mso-bidi-font-style:normal\">Paradigmas da Cl\u00ednica: O Tecido e a Trama<a style=\"mso-footnote-id:ftn\" href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref\" title=\"\">[1]<\/a><\/p>\n<p\/><\/i>  <\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 F\u00e1tima Amin<a style=\"mso-footnote-id:ftn\" href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref\" title=\"\">[2]<\/a><\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">Quando me foi proposto esse tema, antes mesmo que tivesse clareza dos argumentos que iria\u00a0 desenvolver\u00a0 para elaborar o texto, lembrei-me de um conto de Jorge Lu\u00eds Borges, \u201cAs Ru\u00ednas Circulares\u201d, que me pareceu um excelente fio condutor para as id\u00e9ias que de in\u00edcio me ocorreram. O conto trata da obstina\u00e7\u00e3o de um homem em dar vida a um personagem dos seus sonhos, e das vicissitudes desse desvario. Eis o conto:<\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">Um homem desembarca de uma canoa num povoado distante.\u00a0 T\u00e3o s\u00e9rio e t\u00e3o ocupado dos pr\u00f3prios pensamentos, que por mais curiosidade que tivessem, os nativos daquele long\u00ednquo lugar n\u00e3o ousavam perturbar-lhe a concentra\u00e7\u00e3o. Tinha uma tarefa grandiosa, dar vida a um personagem de seus sonhos, de tal maneira que s\u00f3 ele e o Fogo soubessem\u00a0 que ele n\u00e3o era humano.\u00a0 Ele, porque sabia ser essa a sua miss\u00e3o, e o\u00a0 Fogo porque se o envolvesse em suas chamas, estas jamais o queimariam. Disciplinado, acomodou-se para dormir, n\u00e3o por cansa\u00e7o mas porque \u201csabia\u00a0 que sua imediata obriga\u00e7\u00e3o era o sonho\u201d. \u201cQueria sonhar um homem, sonh\u00e1-lo com integridade minuciosa e imp\u00f4-lo \u00e0 realidade. Esse projeto m\u00e1gico esgotara o espa\u00e7o inteiro de sua alma&#8230; No come\u00e7o, os sonhos eram ca\u00f3ticos; pouco depois foram de natureza dial\u00e9tica&#8230; O homem, no sonho e na vig\u00edlia, considerava as respostas de seus fantasmas, n\u00e3o se deixava iludir pelos impostores, adivinhava em certas perplexidades uma intelig\u00eancia crescente. Procurava uma alma que merecesse participar do universo&#8230; N\u00e3o obstante, depois de nove ou dez noites&#8230; a cat\u00e1strofe sobreveio.\u00a0 O homem, um dia, emergiu do sonho como de um deserto viscoso, olhou a v\u00e3 luz da tarde que, \u00e0 primeira vista, confundiu com a aurora e compreendeu que n\u00e3o sonhara. Toda essa noite e todo\u00a0 o dia,\u00a0 a intoler\u00e1vel lucidez da ins\u00f4nia se abateu contra ele&#8230; Na quase perp\u00e9tua vig\u00edlia, l\u00e1grimas de ira queimavam-lhe os velhos olhos. Compreendeu que o empenho de modelar a mat\u00e9ria incoerente e vertiginosa de que se comp\u00f5em os sonhos \u00e9 o mais \u00e1rduo que pode empreender um var\u00e3o, ainda que penetre em todos os enigmas da ordem superior e da inferior: muito mais \u00e1rduo que tecer uma corda de areia ou amoedar o vento sem rosto&#8230; Compreendeu que um fracasso inicial era inevit\u00e1vel. Jurou esquecer a enorme alucina\u00e7\u00e3o que o desviara no come\u00e7o e procurou outro m\u00e9todo de trabalho. Antes de exercit\u00e1-lo, dedicou um m\u00eas \u00e0 reposi\u00e7\u00e3o\u00a0 das for\u00e7as que o del\u00edrio havia\u00a0 desperdi\u00e7ado. Abandonou toda premedita\u00e7\u00e3o de sonhar e quase imediatamente conseguiu\u00a0 dormir uma parte razo\u00e1vel do dia. As raras vezes que sonhou, durante esse per\u00edodo, n\u00e3o reparou nos sonhos&#8230; Depois, \u00e0 tarde, purificou-se nas \u00e1guas do rio, adorou os deuses planet\u00e1rios, pronunciou as s\u00edlabas l\u00edcitas de um nome poderoso e dormiu. Quase que de imediato sonhou com um cora\u00e7\u00e3o que pulsava. Sonhou-o ativo, caloroso, secreto, do tamanho de um punho fechado, na penumbra de um corpo humano, ainda sem rosto e sem sexo; com minucioso amor sonhou-o, durante catorze l\u00facidas noites.\u201d<a style=\"mso-footnote-id:ftn\" href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref\" title=\"\">[3]<\/a> <\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">A associa\u00e7\u00e3o que\u00a0 fiz desse conto com a cl\u00ednica, foi o fato de que ambos s\u00e3o atravessados pelo sonho de algu\u00e9m. Al\u00e9m do que, o conhecimento que se engendra, em ambos, no conto e na cl\u00ednica, se revela a partir das experi\u00eancias que se vive, na medida em que descrevem uma trama que s\u00f3 vai sendo conhecida na medida em que vai sendo vivida. <\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">Completamente tomado pelo seu sonho, orientado pelo conhecimento que lhe chega, passo a passo, advindo de sua pr\u00f3pria experi\u00eancia na tentativa de realiz\u00e1-lo, o homem no conto se entrega a seu projeto, engendrando-o, ao mesmo tempo que \u00e9 engendrado por ele. N\u00e3o tem, de antem\u00e3o, nenhum m\u00e9todo, precisa invent\u00e1-lo. O caminho precisa ser desvendado, porque n\u00e3o tem como conhec\u00ea-lo ou sab\u00ea-lo, a priori. <\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">Deixo, portanto,\u00a0 destacado esse recorte\u00a0 inicial do conto, como um suporte para me embrenhar em outras divaga\u00e7\u00f5es. <\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\"><i style=\"mso-bidi-font-style:&#10;normal\">\u201cQueria sonhar um homem: queria sonh\u00e1-lo com integridade minuciosa e imp\u00f4-lo \u00e0 realidade. Esse projeto m\u00e1gico esgotara o espa\u00e7o inteiro de sua alma&#8230;\u201d<\/p>\n<p\/><\/i><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">Interessa-me pensar a psican\u00e1lise, desde Freud, com suas duas vertentes: sua teoria e sua atividade cl\u00ednica. Porque antes de Freud n\u00e3o havia nem pr\u00e1tica, nem\u00a0 uma constru\u00e7\u00e3o te\u00f3rica que pudesse dar conta de uma sistem\u00e1tica do acontecimento ps\u00edquico. <\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">Freud conhecia a ci\u00eancia do seu tempo e n\u00e3o mediu esfor\u00e7os para que sua teoria tivesse direito a um estatuto de cientificidade. De acordo com seus bi\u00f3grafos, e principalmente com as correspond\u00eancias que trocou ao longo do tempo, com interlocutores importantes, sonhava com descoberta e reconhecimento por parte da comunidade m\u00e9dica e cient\u00edfica, mas\u00a0 para tanto\u00a0 precisava compreender e afinar-se com os paradigmas do seu tempo. Entendo por paradigma \u201caquilo que est\u00e1 no princ\u00edpio da constru\u00e7\u00e3o das teorias, \u00e9 o n\u00facleo obscuro que orienta os discursos te\u00f3ricos neste ou naquele sentido\u201d.<a style=\"mso-footnote-id:ftn\" href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref\" title=\"\">[4]<\/a><\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\"><i style=\"mso-bidi-font-style:&#10;normal\"><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/i><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\"><i style=\"mso-bidi-font-style:&#10;normal\">\u201cEsse projeto m\u00e1gico parecia esgotar o espa\u00e7o inteiro de sua alma, queria imp\u00f4-lo \u00e0 realidade&#8230; No come\u00e7o os sonhos eram ca\u00f3ticos; pouco tempo depois foram de natureza dial\u00e9tica&#8230; O homem, no sonho e na vig\u00edlia, considerava as respostas de seus fantasmas, n\u00e3o se deixava iludir pelos impostores, adivinhava em certas perplexidades uma intelig\u00eancia crescente\u201d. <\/p>\n<p\/><\/i><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">Penso que, at\u00e9 certo ponto, Freud realizou esse projeto. <\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">Viena, no fim do s\u00e9culo XIX, in\u00edcio do s\u00e9c. XX fervilhava em novas concep\u00e7\u00f5es \u00e0 respeito do conhecimento e do mundo. A ci\u00eancia, distinguindo-se cada vez mais da metaf\u00edsica, j\u00e1 delimitara h\u00e1 algum tempo as suas pr\u00f3prias fronteiras, estabelecendo demarcas rigorosas em rela\u00e7\u00e3o ao que considerava da ordem do especulativo. Longe de ser um lago pl\u00e1cido de \u00e1guas claras, o panorama cient\u00edfico constitu\u00eda-se de pensadores importantes que lan\u00e7avam luz, sobre o que deveria ser a pesquisa e o discurso cient\u00edfico. <\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoBodyText3\">Em 1907, surge o C\u00edrculo de Viena, fundado por Shillick, do qual mais tarde fizeram parte,\u00a0 Carnap e Popper. Existe j\u00e1 uma proposi\u00e7\u00e3o do que vem a ser um discurso cient\u00edfico, a partir de discuss\u00f5es sobre o que seria a sua metodologia. E j\u00e1 \u00e9 costumeiro considerar a ci\u00eancia dividida em duas partes: a teoria e a observa\u00e7\u00e3o daquilo que se constr\u00f3i teoricamente.\u00a0 <\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoBodyText3\">\u00c9 num contexto de grande efervesc\u00eancia intelectual que brotam as primeiras publica\u00e7\u00f5es de Freud: \u201cA Interpreta\u00e7\u00e3o dos Sonhos ocupou um lugar especial no c\u00e9rebro e no cora\u00e7\u00e3o do seu autor. Viu-a como a sua obra cient\u00edfica mais significativa, a pedra fundamental de todas as suas realiza\u00e7\u00f5es, e simultaneamente como a obra que o levaria \u00e0 clareza dos processos mentais&#8230;Na estrutura vis\u00edvel de tratado cient\u00edfico, ele eleva seus leitores ao longo dos cap\u00edtulos sistem\u00e1ticos, aos \u00e2mbitos mais sofisticados da an\u00e1lise psicol\u00f3gica.\u201d<a style=\"mso-footnote-id:ftn\" href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref\" title=\"\">[5]<\/a> <i style=\"mso-bidi-font-style:normal\">\u00a0<\/p>\n<p\/><\/i><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">A constru\u00e7\u00e3o te\u00f3rica que Freud propunha como cient\u00edfica, embora em sua sistematiza\u00e7\u00e3o se apresentasse hipot\u00e9tico-dedutiva, n\u00e3o se enquadrava totalmente nas possibilidades l\u00f3gico-matem\u00e1ticas, com que se nutria a f\u00edsica: a f\u00edsica que se constitu\u00eda como o modelo de cientificidade, com sua busca das verdades inscritas ou escondidas nos fen\u00f4menos considerados naturais, e com suas possibilidades tanto de experimenta\u00e7\u00e3o como tamb\u00e9m de escrita matem\u00e1tica. O C\u00edrculo de Viena formulou para a ci\u00eancia, entre outros, o <i style=\"mso-bidi-font-style:normal\">princ\u00edpio da verificabilidade<\/i>: pode-se saber o significado de uma proposi\u00e7\u00e3o pelo conjunto de <i style=\"mso-bidi-font-style:normal\">dados emp\u00edricos imediatos<\/i>, cuja ocorr\u00eancia confere veracidade \u00e0 proposi\u00e7\u00e3o, e cuja n\u00e3o ocorr\u00eancia a falsifica, isto \u00e9, todo fen\u00f4meno descrito teoricamente\u00a0 s\u00f3 pode ser validado se puder ser observado.<\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">Se fizermos um certo recorte encontraremos na psican\u00e1lise freudiana um objeto constru\u00eddo para dar conta de fen\u00f4meno mentais, cuja manifesta\u00e7\u00e3o pode ser atestada e relatada por quem os vive ou os observa. Fen\u00f4menos que n\u00e3o pareciam ter nenhuma liga\u00e7\u00e3o entre si, passam a ser agrupados e compreendidos como fazendo parte de um mesmo sistema, submetidos a mecanismos comuns, e regidos pelas mesmas leis. Esta \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o te\u00f3rica hipot\u00e9tico-dedutiva. Os sonhos, o chiste, o sintoma, as parapraxias, as lembran\u00e7as encobridoras, fazem parte de uma mesma classe de fen\u00f4menos, as forma\u00e7\u00f5es de compromisso, cuja din\u00e2mica se esbo\u00e7a a partir do conceito _Recalque. Constitui-se dessa forma, o Inconsciente: um objeto para uma ci\u00eancia do <i style=\"mso-bidi-font-style:normal\">psiquismo<\/i> que ganha a partir de ent\u00e3o, estatuto de \u201c<i style=\"mso-bidi-font-style:normal\">aparelho mental<\/i>\u201d. O recalcado, num universo de representa\u00e7\u00f5es, tal qual a \u201clei de gravidade\u201d, atrai para si, por associa\u00e7\u00e3o significativa, qualquer conte\u00fado ideativo que se refira\u00a0 ao que foi\u00a0 primariamente impedido de estar, ou permanecer na consci\u00eancia. O determinismo e o princ\u00edpio de causalidade, paradigmas da ci\u00eancia moderna encontram-se a\u00ed bem representados: leis que determinam, dentro de cadeias de causas e efeitos, fen\u00f4menos que podemos observar.<\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">A quantifica\u00e7\u00e3o, t\u00e3o cara a esta vis\u00e3o da ci\u00eancia, tamb\u00e9m est\u00e1 expressa nessa formula\u00e7\u00e3o. Uma vez que os fen\u00f4menos em quest\u00e3o t\u00eam em seu bojo afetos que se expressam em diferentes intensidades, e por isso encontram no psiquismo diferentes destinos, eles s\u00e3o implicados sempre, com o \u201cquantum\u201d afetivo que lhes diz respeito. A economia desses processos, portanto, n\u00e3o se perde no aparelho mental, antes, promove altera\u00e7\u00f5es qualitativas, significativamente diferentes, na express\u00e3o desses\u00a0 fen\u00f4menos.<\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">Esse \u00e9 um recorte de uma leitura poss\u00edvel, satisfat\u00f3ria em\u00a0 seu \u201cesbo\u00e7o de cientificidade\u201d, iluminada pelo empirismo de uma \u00e9poca bastante efervescente, nos meios intelectuais de Viena.<\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"MsoBodyText\">_\u201cCompreendeu que o empenho de modular a mat\u00e9ria incoerente e vertiginosa\u00a0 de que se comp\u00f5em os sonhos \u00e9 o mais \u00e1rduo que pode empreender um var\u00e3o, ainda que penetre em todos os enigmas da ordem superior e inferior&#8230; Procurava uma alma que merecesse participar do universo&#8230; Compreendeu que um fracasso inicial era inevit\u00e1vel. Jurou esquecer a enorme alucina\u00e7\u00e3o que o desviara no come\u00e7o, e buscou outro m\u00e9todo de trabalho&#8230; Quase que de imediato sonhou com um cora\u00e7\u00e3o que pulsava\u201d. <\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">Um ponto importante da trajet\u00f3ria da psican\u00e1lise<a style=\"mso-footnote-id:ftn\" href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref\" title=\"\">[6]<\/a> rumo \u00e0 ci\u00eancia, \u00e9 que diferentemente da f\u00edsica newtoniana, a psican\u00e1lise\u00a0 de\u00a0 Freud, (este antecedido por Charcot, e Breuer mais diretamente), mergulha numa \u201cmat\u00e9ria\u201d de consist\u00eancia duvidosa, impregnada de pr\u00e9-concep\u00e7\u00f5es. Tida como simula\u00e7\u00e3o, arremedo de hipocrisia, \u201ccoisa de mulher\u201d, a histeria, que gra\u00e7as \u00e0 Charcot havia rec\u00e9m conquistado o estatuto de entidade nosogr\u00e1fica referida ao sistema nervoso, toma ares de fonte de pesquisa, e como tal revela um inesgot\u00e1vel manancial de quest\u00f5es sem respostas. Quest\u00f5es, que \u00e0 moda de um mosaico, ao mesmo tempo em que eram problematizadas, come\u00e7avam a desenhar um esbo\u00e7o de teoria. Nesse mosaico, que teve seus tra\u00e7os principais riscados ao longo da d\u00e9cada de 90, fins do S\u00e9c. XIX, surgiram os primeiros elementos da teoria e da t\u00e9cnica.<\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">\u00a0Menos feliz que Newton, afinal nunca tivemos not\u00edcia de que uma ma\u00e7\u00e3 em queda livre ou um corpo em movimento tivesse se apaixonado por ele, (apesar da ma\u00e7\u00e3 ter ganho em nossa cultura notoriedade, como um dos \u00edcones da sedu\u00e7\u00e3o), Freud teve, em seu percurso, que lidar com situa\u00e7\u00f5es absolutamente inusitadas. Por exemplo: \u201cum dia uma paciente abra\u00e7ou-o repentinamente, um contratempo n\u00e3o previsto _ e que, felizmente, foi remediado pela entrada de uma empregada da casa.\u201d<a style=\"mso-footnote-id:ftn\" href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref\" title=\"\">[7]<\/a><\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">Outra passagem interessante que aconteceu nesses primeiros tempos de experimenta\u00e7\u00e3o, foi a insist\u00eancia de Freud com Breuer para que ele publicasse suas observa\u00e7\u00f5es e principalmente a descoberta que\u00a0 sua paciente Anna\u00a0 O. havia feito com rela\u00e7\u00e3o, ao que Breuer veio a chamar, de \u201ccatarse\u201d.\u00a0 Anna\u00a0 O., que espontaneamente\u00a0 havia descoberto o m\u00e9todo cat\u00e1rtico\u00a0 havia batizado-o por \u201ccura pela conversa\u00e7\u00e3o\u201d ou \u201climpeza de chamin\u00e9\u201d. Nesse esfor\u00e7o, Freud deparou-se com grande resist\u00eancia do amigo. \u201cPouco a pouco foi se tornando claro para ele, que a relut\u00e2ncia de Breuer devia-se \u00e0 perturbadora experi\u00eancia havida com Anna O. Dessa forma, Freud relatou-lhe sobre sua pr\u00f3pria experi\u00eancia com uma paciente, que atirou-se de bra\u00e7os abertos em volta de seu pesco\u00e7o num transporte afetivo, e deu-lhe explica\u00e7\u00f5es quanto \u00e0s raz\u00f5es que tinha para tomar\u00a0 tais ocorr\u00eancias embara\u00e7osas, como <i style=\"mso-bidi-font-style:normal\">parte do fen\u00f4meno de<\/i> <i style=\"mso-bidi-font-style:normal\">transfer\u00eancia<\/i>, caracter\u00edstico de certos tipos de histeria&#8230; A observa\u00e7\u00e3o de Freud produziu nele, uma impress\u00e3o profunda, pois quando se encontravam na tarefa da prepara\u00e7\u00e3o dos <i style=\"mso-bidi-font-style:normal\">Estudos, <\/i>Breuer observou quanto ao fen\u00f4meno da transfer\u00eancia: \u201cCreio que esta \u00e9 a coisa mais importante que n\u00f3s dois vamos levar ao conhecimento do mundo\u201d<a style=\"mso-footnote-id:ftn\" href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref\" title=\"\">[8]<\/a> <\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">A teoria que Freud foi construindo, com seu amplo conhecimento altamente implicado com as quest\u00f5es da sua \u00e9poca, e a capacidade de\u00a0 problematizar a sua pr\u00f3pria experi\u00eancia, foi compondo um objeto que \u00e9 mais compat\u00edvel com o pensamento complexo, do que com as premissas\u00a0 metodol\u00f3gicas da ci\u00eancia do seu tempo.<\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"MsoBodyText\">\u201cQuase que de imediato sonhou com um cora\u00e7\u00e3o que pulsava. Sonhou-o ativo, caloroso, secreto, do tamanho de um punho fechado, na penumbra de um corpo humano, ainda sem rosto e sem sexo; com minucioso amor sonhou-o, durante catorze l\u00facidas noites. Cada noite percebia-o com maior evid\u00eancia&#8230;.Percebia-o, vivia-o de muitas dist\u00e2ncias e muitos \u00e2ngulos. Antes de um ano chegou ao esqueleto, \u00e0s p\u00e1lpebras&#8230; Sonhou um homem inteiro&#8230; Noite ap\u00f3s noite, o homem sonhava-o adormecido.\u201d<a style=\"mso-footnote-id:&#10;ftn\" href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref\" title=\"\">[9]<\/a>\u00a0 <\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">A emerg\u00eancia de sentimentos e rea\u00e7\u00f5es,\u00a0 que supostamente\u00a0 interferiam no bom andamento do processo em curso, pareciam querer definir destinos muito particulares a aqueles encontros que come\u00e7avam a acontecer, com regularidade entre o m\u00e9dico e suas pacientes. A observa\u00e7\u00e3o, levada a cabo por Freud, ia rapidamente cedendo lugar a uma \u201cescuta\u201d prenhe de significa\u00e7\u00f5es. O al\u00edvio de dores, o apaixonamento, o jorro de id\u00e9ias difusas, a princ\u00edpio, fatos t\u00e3o desconexos quanto acidentais, aos poucos, foram sendo batizados como m\u00e9todo cat\u00e1rtico, transfer\u00eancia\u00a0 e associa\u00e7\u00e3o livre. <i style=\"mso-bidi-font-style:normal\">Iam ganhando sentido<\/i>, ao mesmo tempo que faziam surgir uma <i style=\"mso-bidi-font-style:normal\">trama<\/i> urdida pelo entrela\u00e7amento de muitos fios dispersos. Entrava em cena a \u201ccura pela conversa\u00e7\u00e3o\u201d,\u00a0 como nomeou Anna O., os encontros que se sucediam com hora marcada,\u00a0 com o objetivo de fazer uma \u201climpeza na chamin\u00e9\u201d para aliviar dores\u00a0 que se expressavam atrav\u00e9s do sintoma. Sintoma, trauma e dor mental come\u00e7avam a se entrela\u00e7ar, dando sentido a um certo estado, que aos poucos foi se tornando pass\u00edvel de compreens\u00e3o atrav\u00e9s da palavra, do relato daquilo que se vive, e se viveu. A via de acesso ao sintoma come\u00e7a, enfim, a se constituir pela palavra. E junto com ela vem a possibilidade de <i style=\"mso-bidi-font-style:normal\">atribui\u00e7\u00e3o de sentido<\/i> \u00e0quilo que se vive.<\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">Considerando que a possibilidade de atribui\u00e7\u00e3o de sentido, passa a fazer parte da compreens\u00e3o do ato ps\u00edquico num processo incessante de significa\u00e7\u00e3o e re-significa\u00e7\u00e3o, podemos, a partir dessa compreens\u00e3o, come\u00e7armos por conceber\u00a0 o fen\u00f4meno mental como um fen\u00f4meno complexo.<\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">Quero abrir um par\u00eantesis aqui para esclarecer o que vou, a partir desse ponto, chamar de \u201ccomplexo\u201d. De acordo com o pensamento complexo, de Edgar Morin: \u201cComplexus = aquilo que \u00e9 \u201ctecido\u201d junto. O universo de fen\u00f4menos \u00e9 inseparavelmente tecido de ordem, de desordem, de organiza\u00e7\u00e3o e caos.\u201d<a style=\"mso-footnote-id:ftn\" href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref\" title=\"\">[10]<\/a><\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">Assim, nessa psican\u00e1lise em constru\u00e7\u00e3o, ao inv\u00e9s de serem desprezados,\u00a0 os \u201cacidentes de percurso\u201d s\u00e3o inclu\u00eddos e passam a fazer parte da trama. Constru\u00e7\u00e3o bem diferente da preconizada pela ci\u00eancia moderna, t\u00e3o bem defendida nos C\u00edrculos de Viena.<\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">E na constitui\u00e7\u00e3o dessa inusitada trama, acontecimentos fortuitos desarticulados e desprovidos de sentido, foram sendo recolhidos como num feixe, agrupados e entrela\u00e7ados, revelando um inesperado nexo. Fios dispersos, que entrela\u00e7ados foram compondo uma inusitada trama te\u00f3rica. Surgem sistemas, leis que dinamicamente entrela\u00e7adas d\u00e3o conta de explicar toda uma classe de fen\u00f4menos, que pela impossibilidade de serem compreendidos sequer eram problematizados. Fen\u00f4menos, simplesmente desprezados, desqualificados, que\u00a0 passam, a partir da\u00ed, a serem compreendidos como express\u00e3o de uma rela\u00e7\u00e3o entre inst\u00e2ncias, ainda que nada evidente, que orienta e d\u00e1 sentido um a um, a esses acontecimentos. E mais, abrem-nos para uma pr\u00e1tica cl\u00ednica\u00a0 constitu\u00edda num universo t\u00e3o complexo de sistematiza\u00e7\u00f5es que hoje, ainda, vemos sentido em colocarmos em discuss\u00e3o os paradigmas que norteiam essa cl\u00ednica que se estende \u00e0 atualidade. \u201cNo sonho do homem que sonhava, o sonhado despertou\u201d.<a style=\"mso-footnote-id:ftn\" href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref\" title=\"\">[11]<\/a> <\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\"><i style=\"mso-bidi-font-style:&#10;normal\">\u201cGradualmente, foi acostumando-o \u00e0 realidade. Certa vez, ordenou-lhe que embandeirasse um cume long\u00ednquo. No outro dia, flamejava a bandeira no cume. Ensaiou outras experi\u00eancias an\u00e1logas, cada vez mais audazes. Compreendeu com certa amargura que seu filho estava pronto para nascer \u2013 e talvez impaciente. Nessa noite beijou-o pela primeira vez\u00a0 e enviou-o ao outro templo&#8230; rio abaixo&#8230; Antes (para que nunca soubesse que era um fantasma, para que se acreditasse um homem como os outros) infundiu-lhe o esquecimento total de seus anos de aprendizagem.\u201d<a style=\"mso-footnote-id:&#10;ftn\" href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref\" title=\"\">[12]<\/a><\/p>\n<p\/><\/i><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">\u00a0 <\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">A psican\u00e1lise se constitui, desde Freud, como um espa\u00e7o que abriga acontecimentos que pareciam n\u00e3o ter nada a ver uns com os outros. As formula\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas, emergentes dessa experi\u00eancia recriam e expandem a teoria, que em espiral d\u00e1 sentido a essa mesma experi\u00eancia e a qualifica, recursivamente. Chega aos nossos dias, possivelmente, menos pelo resultado da discuss\u00e3o em torno de sua cientificidade, do que pela possibilidade de n\u00e3o abrir m\u00e3o de enriquecer-se com novas possibilidades de leitura,\u00a0 tanto da sua teoria quanto da experi\u00eancia\u00a0 que valida. Recursivamente. O legado que fica\u00a0 para n\u00f3s que somos cem anos mais novos \u00e9 exatamente \u201caquilo que em Freud, foi extempor\u00e2neo e n\u00e3o aqueles aspectos de suas formula\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas imersos na cultura de seu tempo\u201d.<a style=\"mso-footnote-id:ftn\" href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref\" title=\"\">[13]<\/a> Freud, pela sua genialidade e pelas caracter\u00edsticas t\u00e3o complexas do objeto que construiu, parece t\u00ea-lo pensado mais compat\u00edvel com os novos paradigmas, do que com os paradigmas da modernidade. E esta \u00e9 a quest\u00e3o que, de fato, quero discutir nesse trabalho.<\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">O Tecido e a Trama<\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">\u201c<i style=\"mso-bidi-font-style:&#10;normal\">Nas cosmogonias gn\u00f3sticas, os demiurgos amassam um vermelho Ad\u00e3o que n\u00e3o consegue por-se de p\u00e9; t\u00e3o in\u00e1bil e rude e elementar como esse Ad\u00e3o de p\u00f3 era o Ad\u00e3o de sonho que as noites do mago tinham fabricado. Uma tarde o homem quase destruiu a sua obra, mas se arrependeu. Esgotados os votos aos numes da terra e do rio, arrojou-se aos p\u00e9s da ef\u00edgie que talvez fosse um tigre e talvez um potro, e implorou o seu desconhecido socorro&#8230; Esse m\u00faltiplo deus revelou-lhe que seu nome terrenal era Fogo, que nesse templo circular (e em outros iguais) rendiam-lhe sacrif\u00edcios e culto e que magicamente animaria o fantasma sonhado, de certo que todas as criaturas, exceto o pr\u00f3prio Fogo e o sonhador, julgassem-no um homem de carne e osso&#8230; No sonho do homem que sonhava, o sonhado despertou.\u201d<\/i> <\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">Num tecido, os fios que correm na longitudinal fazem parte do urdume, e aqueles, que na transversal atravessam esse urdume, constituem a trama. O urdume sem a trama n\u00e3o \u00e9 nada, pode ser no m\u00e1ximo uma franja, fios colocados lado a lado.\u00a0 S\u00f3 com a introdu\u00e7\u00e3o da trama, que entrela\u00e7a o urdume, temos o tecido com seus desenhos.\u00a0 \u00c9 por isso que na descri\u00e7\u00e3o de um tecido, destaca-se a sua trama, porque \u00e9 ela quem vai responder por sua singularidade.<\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">A cl\u00ednica, \u00e9 uma atividade que referida a um certo saber\u00a0 institui uma praxis. E, sem d\u00favida,\u00a0 \u201ch\u00e1 mais mist\u00e9rios entre os saberes e suas\u00a0 \u201cpr\u00e1ticas\u201d do que pode supor a nossa v\u00e3 filosofia\u201d. <\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">Sobrep\u00f5em-se, \u00e0 observa\u00e7\u00e3o e \u00e0 descoberta de um\u00a0 ou mais dados da observa\u00e7\u00e3o emp\u00edrica,\u00a0 \u201ca <i style=\"mso-bidi-font-style:normal\">condi\u00e7\u00e3o, <\/i>a partir da qual um campo inteiro de conhecimentos e teorias se organiza\u201d. <a style=\"mso-footnote-id:&#10;ftn\" href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref\" title=\"\">[14]<\/a> E \u00e9 essa <i style=\"mso-bidi-font-style:normal\">condi\u00e7\u00e3o<\/i> que eu vou considerar como um <i style=\"mso-bidi-font-style:normal\">solo<\/i> <i style=\"mso-bidi-font-style:normal\">epist\u00eamico,<\/i> isto \u00e9, as condi\u00e7\u00f5es de possibilidades que s\u00e3o facilitadoras de que\u00a0 certos conhecimentos, e n\u00e3o outros, emerjam numa determinada \u00e9poca. Usando a id\u00e9ia de solo, desta forma, como met\u00e1fora, considerarei fundamentalmente, que um solo n\u00e3o \u00e9 cont\u00ednuo, \u201cliso\u201d, nem constitu\u00eddo de um \u00fanico elemento. Ao contr\u00e1rio, \u00e9 descont\u00ednuo, constitu\u00eddo por uma multiplicidade deles, t\u00e3o vari\u00e1veis quanto nossa capacidade de nome\u00e1-los e conhec\u00ea-los, cuja observa\u00e7\u00e3o\u00a0 revela\u00a0 certos aspectos\u00a0 ocultando\u00a0 outros, e que ainda, dependendo do \u00e2ngulo que o nosso olhar descreva, a <i style=\"mso-bidi-font-style:normal\">geografia<\/i> definida pode ser bem diferente da observada de um outro lugar. Se estamos falando de um solo, podemos, ainda, pensar que ele tamb\u00e9m \u00e9 atravessado por um tempo que o \u201cpresentifica\u201d, que naquele momento dado e n\u00e3o em outro, revela aquela \u201cgestalt\u201d, e n\u00e3o outra.<\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">Acredito ser\u00a0 na \u201cpenumbra\u00a0 desse solo\u201d, um solo\u00a0 complexo, que pulsa o conhecimento, \u201csem rosto e sem sexo\u201d, ganhando vida a partir da \u201c<i style=\"mso-bidi-font-style:normal\">significa\u00e7\u00e3o<\/i> dos fen\u00f4menos culturais, e n\u00e3o o contr\u00e1rio.\u201d<a style=\"mso-footnote-id:ftn\" href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref\" title=\"\">[15]<\/a><i style=\"mso-bidi-font-style:normal\"> <\/i>\u00a0E\u00a0 \u00e9 desse solo de possibilidades que penso, brotou e brota ainda hoje a psican\u00e1lise. Vou utilizar, neste ponto, o princ\u00edpio de recursividade do pensamento complexo para pensar a cultura, suas produ\u00e7\u00f5es e o sujeito. Nascemos, crescemos e produzimos no seio de uma cultura. Recorro novamente a Edgar Morin: \u201cDe certo modo, a totalidade da nossa informa\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica est\u00e1 em cada uma de nossas c\u00e9lulas, e a sociedade, enquanto \u201ctodo\u201d, est\u00e1 presente na nossa mente <i style=\"mso-bidi-font-style:&#10;normal\">via <\/i>a cultura que nos formou e informou. Ainda de outro modo, podemos dizer que o \u201cmundo est\u00e1 na nossa mente, a qual est\u00e1 no nosso mundo\u201d. N\u00f3s produzimos a sociedade que nos produz\u201d.<a style=\"mso-footnote-id:ftn\" href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref\" title=\"\">[16]<\/a><\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">Urdume e trama entrela\u00e7ados criam, uma infinita variedade de composi\u00e7\u00f5es, que as m\u00faltiplas possibilidades que se desenrolam na hist\u00f3ria das civiliza\u00e7\u00f5es, atrav\u00e9s do tempo, <i style=\"mso-bidi-font-style:normal\">d\u00e3o vida<\/i>, fazendo surgir\u00a0 o tecido, no qual,\u00a0 cada\u00a0 cultura vai inscrever a sua singularidade com as suas produ\u00e7\u00f5es. A cl\u00ednica com sua praxis \u00e9 produto, ao mesmo tempo que participa tamb\u00e9m, como produtora da vis\u00e3o dos fatos que ser\u00e3o relevantes para ela, numa determinada \u00e9poca. A cultura \u00e9 o solo epist\u00eamico que lhe d\u00e1 sentido. Esta \u00e9 a sua atualidade. Se pensarmos em termos paradigm\u00e1ticos, a cl\u00ednica \u00e9 um espa\u00e7o aberto, que ganha sentido enquanto pr\u00e1tica, na medida em que \u00e9 pass\u00edvel de ser\u00a0 constitu\u00edda ou reconstitu\u00edda significativamente, concernente com a linguagem ou os conhecimentos de um certo tempo. A cl\u00ednica \u00e9, portanto, um espa\u00e7o sempre aberto <i style=\"mso-bidi-font-style:&#10;normal\">em constru\u00e7\u00e3o<\/i>, que navega vacilante em \u00e1guas nada claras, no socio-pol\u00edtico-cultural, mergulhada em muitas incertezas. O termo \u201cclinicar\u201d tem sua raiz, no grego \u201cklino\u201d que quer dizer _ inclinar-se sobre. Alguns aproximam o termo \u201ccl\u00ednica\u201d de \u201cclin\u00e2men\u201d que tem sua raiz no latim e diz respeito \u00e0 _ inclina\u00e7\u00e3o, desvio. E na cl\u00ednica, \u201c<i style=\"mso-bidi-font-style:&#10;normal\">nos inclinamos\u201d<\/i> para pensar quem \u00e9 o sujeito do nosso tempo. Que \u201c<i style=\"mso-bidi-font-style:normal\">desvios<\/i>\u201d constituem a trama de onde emerge a sua singularidade?<\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">\u201c<i style=\"mso-bidi-font-style:&#10;normal\">O mago lembrou-se bruscamente das palavras do deus. Recordou que de todas as criaturas que comp\u00f5em o orbe, o fogo era a \u00fanica que sabia ser seu filho um fantasma. Essa lembran\u00e7a, apaziguadora \u00e0 princ\u00edpio, acabou por atorment\u00e1-lo. Temeu que seu filho meditasse nesse privil\u00e9gio anormal e descobrisse de algum modo sua condi\u00e7\u00e3o de mero simulacro. N\u00e3o ser um homem, ser a proje\u00e7\u00e3o do sonho de outro homem, que humilha\u00e7\u00e3o incompar\u00e1vel, que vertigem! A todo pai interessam os filhos que procriou; \u00e9 natural que o mago temesse pelo futuro daquele filho&#8230;\u201d<\/i><\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">Penso que comecei este trabalho apresentando a psican\u00e1lise freudiana\u00a0 pela mais linear\u00a0 leitura que se pode fazer dela, que \u00e9 o quanto \u00e9 vi\u00e1vel justap\u00f4-la \u00e0 uma concep\u00e7\u00e3o positivista da ci\u00eancia.\u00a0 Alguns t\u00eam considerado ser esta a \u00fanica leitura poss\u00edvel. Outros, uma das leituras poss\u00edveis. Prefiro estar entre os segundos.<\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">Se considerarmos que Freud pretendeu construir sua descoberta nos moldes dessa concep\u00e7\u00e3o, podemos considerar tamb\u00e9m que esse vultoso projeto, fracassou. E penso que \u00e9 exatamente onde a leitura positivista\u00a0 deixa de dar conta da singularidade da experi\u00eancia psicanal\u00edtica, que a psican\u00e1lise\u00a0 encontra f\u00f4lego para chegar aos dias atuais. <\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">N\u00e3o pretendo aqui, explorar em profundidade e extens\u00e3o a possibilidade de fazermos uma leitura do objeto da psican\u00e1lise freudiana e da pr\u00f3pria atividade cl\u00ednica, \u00e0 luz dos novos paradigmas, isto \u00e9 dos paradigmas da complexidade. Entretanto, gostaria de fazer um recorte diferente do inicial, s\u00f3 para levantar alguns pontos de\u00a0 afastamento. Pretendo olh\u00e1-los, a partir de um outro lugar. <\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">Para come\u00e7ar, o tempo para o aparelho mental\u00a0 \u00e9 descont\u00ednuo. Uma proposta determinista deve pr\u00e9-supor um tempo linear, cont\u00ednuo, onde os fen\u00f4menos se sucedem\u00a0 justificando uma leitura de causa e efeito. N\u00e3o que \u201ccausa e efeito\u201d, seja uma cadeia prec\u00e1ria de se pensar. Por exemplo, se eu preciso acelerar o meu carro, \u00e9 importante que ele rapidamente responda ao meu comando. Agora, se pensarmos em termos de mental, rapidamente essa linearidade cai por terra, porque estamos compondo um campo fenom\u00eanico comprometido com <i style=\"mso-bidi-font-style:&#10;normal\">m\u00faltiplos sentidos<\/i>. O reprimido, representa\u00e7\u00f5es ideativas submetidas ao\u00a0 processo de recalque, nos chistes, nos sonhos, nos sintomas, nas lembran\u00e7as encobridoras e nos atos falhos comunica aquilo que o sujeito n\u00e3o sabe de si, mas que em si, d\u00e1 sentido a tudo que lhe diz respeito. O tempo do reprimido \u00e9 Aion, a atemporalidade, o tempo da simultaneidade, e o tempo da consci\u00eancia \u00e9 o Cronos, que organiza nossa hist\u00f3ria numa sucess\u00e3o de fatos, que possibilita a ordena\u00e7\u00e3o do \u201cantes e do depois\u201d. Por isso podemos dizer que \u201cn\u00e3o h\u00e1 linearidade, mas encontro de diferentes tempos cujos significados se atualizam incessantemente\u201d<a style=\"mso-footnote-id:ftn\" href=\"#_ftn17\" name=\"_ftnref\" title=\"\">[17]<\/a> N\u00e3o podemos nos esquecer que a atividade cl\u00ednica psicanal\u00edtica, tamb\u00e9m \u00e9 ancorada em dois tempos, (no m\u00ednimo), o tempo em que os encontros s\u00e3o marcados (Cronos), e aquele em que de fato eles se d\u00e3o (a atemporalidade do desejo_ a transfer\u00eancia).<\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoBodyText2\">Outra quest\u00e3o importante que Freud traz \u00e0 luz em sua constru\u00e7\u00e3o te\u00f3rica s\u00e3o\u00a0 as dicotomias que o pensamento sempre colocou em oposi\u00e7\u00e3o na compreens\u00e3o dos fen\u00f4menos. Por exemplo, natureza e cultura, filog\u00eanese e ontog\u00eanese, necessidade e puls\u00e3o, etc, encontram destinos diferentes na psican\u00e1lise uma vez que ambos os lados dessas oposi\u00e7\u00f5es contribuem igualmente, na compreens\u00e3o dos fatos. Ao inv\u00e9s de se exclu\u00edrem, eles se incluem, e n\u00e3o raro se definem, enquanto conceitua\u00e7\u00e3o, dinamicamente, compondo um movimento, estando todo tempo, um referido ao outro.\u00a0 <\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">O Complexo de \u00c9dipo, que abre a teoria para o mito, tamb\u00e9m contribui amplamente para essa constru\u00e7\u00e3o. Ao mesmo tempo em que atrela o indiv\u00edduo \u00e0 interdi\u00e7\u00e3o inscrita na cultura, faz surgir desse ponto a sua singularidade. O processo de inser\u00e7\u00e3o do sujeito na cultura, <i style=\"mso-bidi-font-style:normal\">via<\/i> o Complexo de \u00c9dipo responde pela constitui\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio sujeito, singularizando-o.\u00a0\u00a0 <\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">Como estou tentando mostrar, via outro \u00e2ngulo de vis\u00e3o n\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel comprometer a psican\u00e1lise\u00a0 com o paradigma do pensamento complexo: \u201ca complexidade n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um fen\u00f4meno emp\u00edrico (acaso, eventualidades, desordens, complica\u00e7\u00f5es, mistura dos fen\u00f4menos); a complexidade \u00e9 tamb\u00e9m, um problema conceitual e l\u00f3gico que confunde as demarca\u00e7\u00f5es e as fronteiras bem n\u00edtidas dos conceitos como \u201cprodutor\u201d e \u201cproduto\u201d, \u201ccausa\u201d e \u201cefeito\u201d, \u201cum\u201d e \u201cm\u00faltiplo\u201d. E mais: ela n\u00e3o quer dar todas as informa\u00e7\u00f5es sobre um fen\u00f4meno estudado, mas respeitar as suas diversas dimens\u00f5es&#8230; n\u00e3o devemos esquecer que o homem \u00e9 um ser biol\u00f3gico-s\u00f3ciocultural, e que os fen\u00f4menos sociais s\u00e3o ao mesmo tempo, econ\u00f4micos, culturais, psicol\u00f3gicos, etc&#8230; Dito isto, ao aspirar a multidimensionalidade, o pensamento complexo comporta em seu interior um princ\u00edpio de incompletude e de incerteza.\u201d <a style=\"mso-footnote-id:ftn\" href=\"#_ftn18\" name=\"_ftnref\" title=\"\">[18]<\/a><\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">Mesmo numa leitura superficial como a que eu estou fazendo, eu tentei dar mostras de que podemos ler diferentemente, uma certa conceitua\u00e7\u00e3o, compondo novos arranjos a partir daqueles que nos s\u00e3o dados. Freud pretendeu, (ser\u00e1 que pretendeu mesmo?) criar uma ci\u00eancia empirista, e nos legou muito al\u00e9m disso, um campo de conhecimento cuja trama se organiza de forma criativa, pela quantidade de fios dispersos que une, entrela\u00e7ando-os, pela atribui\u00e7\u00e3o de sentido. Freud\u00a0 foi sujeito do pensamento complexo. Desconstruiu certezas, e n\u00e3o se furtou ao prazer de agregar \u00e0 sua experi\u00eancia te\u00f3rico-cl\u00ednica os reveses que encontrava no caminho. Caminhou descal\u00e7o um caminho de incertezas, pois n\u00e3o tinha um m\u00e9todo a priori. <\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">E qual \u00e9 a import\u00e2ncia\u00a0 dessa discuss\u00e3o para a cl\u00ednica hoje? <\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">\u00c9 na vis\u00e3o extempor\u00e2nea de Freud que a psican\u00e1lise, dada a sua constru\u00e7\u00e3o em ger\u00fandio, pode ainda hoje fertilizar-se num solo de conhecimentos atuais, ao mesmo tempo que lan\u00e7a a luz para a compreens\u00e3o de aspectos importantes da experi\u00eancia humana. Freud deu vida a um discurso, observando, pensando e construindo o homem na cultura, no seu tempo: sua sexualidade, sua religiosidade, suas guerras, suas produ\u00e7\u00f5es art\u00edsticas e sua rela\u00e7\u00e3o com o poder e a morte. \u00c9 na forma como a psican\u00e1lise foi sendo constru\u00edda,\u00a0 que vamos aprender com Freud ainda hoje a construirmos argumentos para\u00a0 compreender e criticar os fen\u00f4menos que nos afetam e comp\u00f5em o nosso tempo. Aprendemos uma postura cr\u00edtica, reflexiva e ousada nas suas constru\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas. Aprendemos,\u00a0 fundamentalmente, uma postura cient\u00edfica, naquilo que a ci\u00eancia labora de desconstru\u00e7\u00e3o\u00a0 do senso comum, para a partir da\u00ed\u00a0 fazer emergir a produ\u00e7\u00e3o do conhecimento. E penso que n\u00e3o podemos abrir m\u00e3o desse lugar.<\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">Citando Morin: \u201cA psican\u00e1lise \u00e9 uma coisa que acho absolutamente genial, por qu\u00ea? Porque Freud compreendeu que o n\u00f3 g\u00f3rdio estava no cruzamento do que podemos chamar as ci\u00eancias da mente, os conhecimentos psicol\u00f3gicos, as fantasias, os sonhos, as id\u00e9ias de um lado, e de organismo biol\u00f3gico, do outro. Por sua id\u00e9ia de puls\u00e3o ele compreendia que era preciso conceber o ser humano na sua totalidade multidimensional, em vez de recortar um pequeno peda\u00e7o que vai cair na aptid\u00e3o para letras, que \u00e9\u00a0 a parte mente, e a parte do corpo que deriva da biologia. Ele \u00e9 um pensador\u00a0 extremamente poderoso, cujas intui\u00e7\u00f5es devem ser examinadas sem cessar.\u201d<a style=\"mso-footnote-id:ftn\" href=\"#_ftn19\" name=\"_ftnref\" title=\"\">[19]<\/a><\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">O psicanalista \u00e9 um sujeito desde os prim\u00f3rdios, acostumado com estudos de casos cl\u00ednicos. Alguns conceitos importantes foram e ainda\u00a0 s\u00e3o constru\u00eddos, a partir deles. O relato desses casos e suas conclus\u00f5es te\u00f3ricas s\u00e3o urdidos pela experi\u00eancia cl\u00ednica e tramados por um saber que o atravessa, tentando encontrar a sua sustenta\u00e7\u00e3o num universo que\u00a0 tamb\u00e9m \u00e9 ficcional. A clinica psicanalitica \u00e9 atravessada\u00a0 pela experi\u00eancia, isso que dizer que est\u00e1 aberta ao inesperado, ao criativo, por\u00e9m, ela \u00e9\u00a0 ancorada\u00a0 no conceito de transfer\u00eancia, que \u00e9 aquilo que\u00a0 a singulariza. Transfer\u00eancia, apesar de ser m\u00e9todo \u00e9 tamb\u00e9m o lugar da surpresa, da singularidade. A transfer\u00eancia abre a experi\u00eancia para o que se repete, ao mesmo tempo que para o inesperado e cria a tecitura para a emerg\u00eancia do novo, o criativo, para a trama que constitui\u00a0 a hist\u00f3ria de uma dupla, inaugurando no bojo do encontro uma est\u00e9tica, que desloca para a rela\u00e7\u00e3o um outro sentido, o sentido do que \u00e9 vivido pelo par analista e analisando. A cl\u00ednica psicanal\u00edtica cria assim, um paradoxo: ela n\u00e3o est\u00e1 comprometida com o sintoma, e sim com o conhecimento que \u00e9 tecido na experi\u00eancia desse par. Sujeito e objeto n\u00e3o podem mais, sob esse aspecto, se definir como posi\u00e7\u00f5es r\u00edgidas pr\u00e9-estabelecidas \u00e0 revelia da experi\u00eancia, que \u00e9 uma dimens\u00e3o do \u201cvivido\u201d que em psican\u00e1lise se afasta absolutamente do termo experimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoBodyText2\">Muitos analistas depois de Freud desenvolveram, amplamente,\u00a0 esses aspectos relacionais, que modifica e amplia em muito o universo conhecido, ou quem sabe o universo do n\u00e3o conhecido. Nesse aspecto, a psican\u00e1lise \u00e9 um saber vivo, que brota na penumbra de um solo epist\u00eamico, e por isso comp\u00f5e um panorama mais de incertezas, do que de certezas, podendo nesse sentido ir se enriquecendo e enriquecendo outros campos do saber, com novas formula\u00e7\u00f5es.\u00a0 Lan\u00e7armos luz sobre esse solo onde se constitui\u00a0 a nossa pr\u00e1tica cl\u00ednica e onde\u00a0 reinventamos, atualizando dia-a-dia\u00a0 esse saber, \u00e9 tarefa grata, criativa, e necess\u00e1ria.\u00a0 Muitas vezes penso, que\u00a0 mais importante do que nossas escolhas te\u00f3rico-t\u00e9cnicas, pois n\u00e3o raro achamos que a nossa \u00e9 a melhor, \u00e9 n\u00e3o perdermos de vista, ou n\u00e3o abrirmos m\u00e3o do lugar que nos cabe,\u00a0 posto que lidamos com o fato humano que \u00e9 eternamente inconcluso,\u00a0 \u00e9 n\u00e3o abrirmos m\u00e3o do lugar da reflex\u00e3o. Porque a psican\u00e1lise \u00e9 um saber que se constitui, constituindo, recursivamente. Penso ser este o seu principal paradigma, extensivo \u00e9 claro, a sua extensa atividade cl\u00ednica.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\"><i style=\"mso-bidi-font-style:&#10;normal\"><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/i><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\"><i style=\"mso-bidi-font-style:&#10;normal\">\u201c\u00c9 natural que o mago temesse pelo futuro daquele filho, pensando entranha por entranha e tra\u00e7o por tra\u00e7o, em mil e uma noites secretas&#8230;O final de suas cavila\u00e7\u00f5es foi brusco, mas o anunciaram alguns sinais. Primeiro&#8230;o c\u00e9u que tinha a cor rosada da gengiva dos leopardos; depois a fumaceira que enferrujou o metal das noites; depois a fuga p\u00e2nica das bestas. Porque se repetiu o acontecimento faz muitos s\u00e9culos. As ru\u00ednas do santu\u00e1rio do deus fogo foram destru\u00eddas pelo fogo&#8230; Por um instante, pensou refugiar-se nas \u00e1guas, mas depois compreendeu que a morte vinha coroar sua velhice e absolv\u00ea-lo de seus trabalhos. Caminhou contra as l\u00ednguas de fogo. Estas n\u00e3o morderam a sua carne, estas o acariciaram e o inundaram sem calor e sem combust\u00e3o. Com al\u00edvio, com humilha\u00e7\u00e3o, com terror, compreendeu que ele tamb\u00e9m era uma apar\u00eancia, que outro o estava sonhando.\u201d<a style=\"mso-footnote-id:ftn\" href=\"#_ftn20\" name=\"_ftnref\" title=\"\">[20]<\/a><\/p>\n<p\/><\/i><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\"><i style=\"mso-bidi-font-style:&#10;normal\"><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/i><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\"><i style=\"mso-bidi-font-style:&#10;normal\"><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/i><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\"><i style=\"mso-bidi-font-style:&#10;normal\">\u201c<\/i>H\u00e1 uma frase maravilhosa de Popper, que talvez voc\u00eas j\u00e1 conhe\u00e7am mas, mesmo assim, vou l\u00ea-la:\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">\u201c A hist\u00f3ria das ci\u00eancias, como a de todas as id\u00e9ias humanas, \u00e9 uma hist\u00f3ria de sonhos irrespons\u00e1veis, de teimosias e de erros. Por\u00e9m, a ci\u00eancia \u00e9 uma das raras atividades humanas, talvez a \u00fanica, na qual os erros s\u00e3o sistematicamente assinalados e, com o tempo, constantemente corrigidos.\u201d<a style=\"mso-footnote-id:ftn\" href=\"#_ftn21\" name=\"_ftnref\" title=\"\">[21]<\/a><\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<p>  <br clear=\"ALL\" style=\"page-break-before:always\"\/>  <\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\"><b style=\"mso-bidi-font-weight:&#10;normal\">Bibliografia<\/b>:<\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">Bachelard, Gaston. Conhecimento Comum e Conhecimento Cient\u00edfico. Epistemologia, n\u00b028 Tempo Brasileiro. RJ, 1972<\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoNormal\">\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">Borges, Jorge Luis. As Ru\u00ednas Circulares. Obras Completas, Vol. I. Ed. Globo. S.P., 1998 <\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoNormal\">\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">Carnap, Schick, Popper. Os Pensadores. Ed. Abril Cultural. RJ,1975<\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoNormal\">\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">Foucault, Michel. As Palavras e as Coisas. Livraria Martins Fontes Editora. SP, 1966<\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoNormal\">\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">Jones, Ernest. Vida e Obra de Sigmund Freud. Zahar Editores. RJ, 1979<\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoNormal\">\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">Machado, Roberto Cabral de M. A Arqueologia do Saber e a Constitui\u00e7\u00e3o das Ci\u00eancias\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Humanas. Separata da Revista Discurso, N\u00b0 5. S.P., 1974<\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoNormal\">\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">Morin, Edgar. Ci\u00eancia com Consci\u00eancia. Bertrand Brasil. RJ, 2000<\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoNormal\">\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">Morin, Edgar. O M\u00e9todo 1. A Natureza da Natureza. Ed. Sulina. Porto Alegre, 2002<\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoNormal\">\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">Mendon\u00e7a, Tereza.\u00a0 O Mal-Estar da Civiliza\u00e7\u00e3o e Engenharia Gen\u00e9tica. 1998 <\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoNormal\">\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">Schorske, Carl E. Viena Fin-de-Si\u00e8cle. Ed. Companhia das Letras, SP, 1988<\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoNormal\">\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">\u00a0<\/p>\n<p\/>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify\">\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<p>    <br clear=\"all\"\/><\/p>\n<hr align=\"left\" size=\"1\" width=\"33%\"\/>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id:ftn\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn1\" title=\"\">[1]<\/a> Trabalho apresentado no I Encontro do N\u00facleo de Cl\u00ednica do Instituto de Estudos da Complexidade: Rumo a um Novo Paradigma. PUC. RJ. Abril de 2004<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id:ftn\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn2\" title=\"\">[2]<\/a> Membro Associado da Sociedade Brasileira de Psican\u00e1lise do Rio de Janeiro, e\u00a0 Membro Fundador do Instituto de Estudos da Complexidade<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id:ftn\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn3\" title=\"\">[3]<\/a> Borges, Jorge Luis- \u201cAs Ru\u00ednas Circulares\u201d &#8211; Obras Completas, Editora Globo (p\u00e1g. 499)<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id:ftn\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn4\" title=\"\">[4]<\/a> Morin, Edgar- \u201cCi\u00eancia com Consci\u00eancia\u201d, Ed. Bertrand Brasil, 2000, p\u00e1g.45<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id:ftn\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn5\" title=\"\">[5]<\/a> Schorske, Carl E. \u2013 \u201c Viena Fin-de-Si\u00e8cle\u201d, Ed. Companhia das Letras, p\u00e1g.181<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id:ftn\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn6\" title=\"\">[6]<\/a> Esse termo \u201cpsican\u00e1lise\u201d foi utilizado por Freud pela primeira vez, em um artigo publicado em franc\u00eas em 30 de mar\u00e7o de 1896 e surge em alem\u00e3o pela primeira vez em 15 de maio de 1896.<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id:ftn\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn7\" title=\"\">[7]<\/a> Jones, Ernest \u2013 \u201cVida e Obra de Sigmund Freud\u201d, Zahar Editores (p\u00e1g.251)<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id:ftn\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn8\" title=\"\">[8]<\/a> idem_(pag. 259)<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id:ftn\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn9\" title=\"\">[9]<\/a> Borges, Jorge luis \u2013 \u201cAs Ru\u00ednas Circulares\u201d, Ed. Globo, Vol. I,\u00a0 p\u00e1g. 501<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id:ftn\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn10\" title=\"\">[10]<\/a> Morin, Edgar- \u201c\u201dCi\u00eancia com Consci\u00eancia\u201d, Ed. Bertrand Brasil (p\u00e1g.215)<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id:ftn\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn11\" title=\"\">[11]<\/a> Borges, Jorge Lu\u00eds- \u201cAs Ru\u00ednas Circulares\u201d, Obras Completas,\u00a0 Ed. Globo Vol. I, p\u00e1g.502<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id:ftn\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn12\" title=\"\">[12]<\/a> Idem, p\u00e1g.502<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id:ftn\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn13\" title=\"\">[13]<\/a> Mendon\u00e7a, Terzinha \u2013 \u201cDes-ordens da Cultura: Complexidade e Sustenta\u00e7\u00e3o \u00c9tica do Homo-Creator\u201d, Tese de Doutorado, Ci\u00eancias Sociais, PUC, SP. 2000 <\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id:ftn\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn14\" title=\"\">[14]<\/a> Foucault,\u00a0 Michel &#8211;\u00a0 As palavras e as coisas, Martins Fontes Editora, (p\u00e1g. VII) <\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id:ftn\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn15\" title=\"\">[15]<\/a> idem<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id:ftn\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn16\" title=\"\">[16]<\/a> Morin, Edgar \u2013\u00a0 \u201cCi\u00eancia com Consci\u00eancia\u201d, Ed. Bertrand Brasil, (p\u00e1g.190)<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id:ftn\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn17\" title=\"\">[17]<\/a> Mendon\u00e7a, Terzinha \u2013 \u201cDes-ordens da Cultura: Complexidade e Sustenta\u00e7\u00e3o \u00c9tica do Homo-Creator\u201d, Tese de Doutorado, Ci\u00eancias Sociais, PUC, SP. 2000 <\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id:ftn\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn18\" title=\"\">[18]<\/a> Morin, Edgar &#8211;\u00a0 \u201cCi\u00eancia com Consci\u00eancia\u201d, Ed. Bertrand Brasil (p\u00e1gs.177\/188)<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id:ftn\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn19\" title=\"\">[19]<\/a> Morin, Edgar &#8211;\u00a0 \u201cCi\u00eancia com Consci\u00eancia\u201d, Ed. Bertrand Brasil (p\u00e1g.74)<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id:ftn\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn20\" title=\"\">[20]<\/a> Borges,\u00a0 Jorge Luis &#8211;\u00a0 \u201cAs Ru\u00ednas Circulares\u201d Obras Completas, Vol. I, p\u00e1g.504<\/p>\n<p class=\"MsoFootnoteText\"><a style=\"mso-footnote-id:ftn\" href=\"#_ftnref\" name=\"_ftn21\" title=\"\">[21]<\/a> Morin, Edgar &#8211;\u00a0 \u201cCi\u00eancia com Consci\u00eancia\u201d, Ed. Bertrand Brasil (p\u00e1g.59) <\/p>\n<p>      <\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Paradigmas da Cl\u00ednica: O Tecido e a Trama[1] \u00a0 \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 F\u00e1tima Amin[2] \u00a0 Quando me foi proposto esse tema, antes mesmo que tivesse clareza dos argumentos que iria\u00a0 desenvolver\u00a0 para elaborar o texto, lembrei-me de um conto de Jorge Lu\u00eds Borges, \u201cAs Ru\u00ednas Circulares\u201d, que me pareceu um excelente fio condutor para as id\u00e9ias que [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-102","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-textos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/iecomplex.com.br\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/102","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/iecomplex.com.br\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/iecomplex.com.br\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/iecomplex.com.br\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/iecomplex.com.br\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=102"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/iecomplex.com.br\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/102\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":828,"href":"https:\/\/iecomplex.com.br\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/102\/revisions\/828"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/iecomplex.com.br\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=102"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/iecomplex.com.br\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=102"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/iecomplex.com.br\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=102"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}